Professor inglês desvenda a história da ficção científica

O Metrópoles conversou com Adam Roberts, autor de A Verdadeira História da Ficção Científica – Do Preconceito à Conquista das Massas

atualizado

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Star Wars 1977
1 de 1 Star Wars 1977 - Foto: Divulgação

No final da Idade Média, egocêntrica e embriagada de poder não apenas divino, mas, também material, a Igreja Católica torcia o nariz para as teorias científicas que tiraram o protagonismo do planeta Terra no Universo. Mas, não fossem os conceitos revolucionários de astrólogos e matemáticos como Nicolau Copérnico (1473-1543) e Johannes Kepler (1571-1630), por exemplo, talvez hoje não tivéssemos fãs de aventuras como Star Wars e Strange Things.

“De fato são teorias revolucionárias. Copérnico, por exemplo, demoliu o sistema de crenças em torno do modelo ptolomaico geocêntrico do universo construído pelo cristianismo medieval”, destaca em entrevista ao Metrópoles, Adam Roberts, professor de literatura da Universidade de Londres, autor do excepcional A Verdadeira História da Ficção Científica – Do Preconceito à Conquista das Massas, lançado este ano no Brasil pela editora Seoman.

Publicado em 2006, na Inglaterra, pelo professor de literatura da Universidade de Londres, Adam Roberts, mas só agora lançado por aqui, esse catatau de mais de 700 páginas esmiúça não apenas as origens de um dos segmentos mais populares da literatura, mas também sua construção e solidificação como gênero literário.

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Adam Roberts: pesquisador dedicado à literatura de ficção científica

 

Misturando prodigiosa pesquisa histórica, evolução e contextualizando sua importância no presente, a obra surge como verdadeiro estudo sobre o tema. Impressiona pelo fôlego.

“Desde criança, adoro ficção científica. Passei a escrever e ensinar sobre o tema nos anos 1990. Queria tentar reunir algum tipo de história abrangente sobre o assunto porque nenhuma das histórias críticas existentes sobre o gênero pareceu me ajudar a fazer isso”, conta Roberts, que acaba de voltar de uma viagem à Rússia, onde palestrou sobre o tema.

Gênero fascinante
As primeiras fábulas escritas na Grécia antiga; as teorias – em meio ao embate entre ciência e religião –; da existência de uma infinidade de mundos por pensadores dos fins do século 16; as viagens extraordinárias do século 18; a relevância de pioneiros do gênero como os escritores francês Júlio Verne e o britânico H. G. Wells; o surgimento das revistas pulp; a redenção do cinema à ficção científica; o espaço sideral como inspiração para o rock. Está tudo lá.

“A coisa, no entanto, mais ‘ficção científica’ em torno de Bowie era sua persona no palco, baseada em uma estranheza desenraizada, como a de um alienígena, que tinha certa relação com seu uso de drogas e sua bissexualidade”, escreve o autor no subcapítulo Ficção Científica em Áudio.

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Adam Roberts. Editora Seoman. R$ 75, 704 páginas

Entusiasta de primeira ordem de gênero que classifica como fascinante, o escritor, roteirista e tradutor paraibano Braulio Tavares, destaca uma das qualidades do livro: a importância dada pelo autor à análise detalhada dos precursores da ficção científica nos séculos 17, 18 e 19. “Isso mostra o quanto essa literatura não depende de tecnologia: ela corresponde a uma visão antiga do homem, voltada para além do planeta Terra”, disse ao Metrópoles.

Ah, e um detalhe que não pode passar despercebidos aos amantes do gênero literário mais subversivo de todos os tempos. A origem do termo science fiction (ficção científica) data de 1926, quando o editor luxemburguês Hugo Gernsback criou, nos Estados Unidos – onde vivia –, a revista Amazing Stories. O resto é história… Intergaláctica…

Pode-se dizer que o pensamento teórico de alguns estudiosos da Idade Média, entre eles Copérnico e Kepler, formaram a base da ficção científica?
Copérnico abriu o cosmos para uma nova infinitude, espaços dentro dos quais um novo tipo de narrativa poderia florescer. Foi a teoria dele que se tornou o locus da oposição à dominação da igreja sobre o conhecimento. A revolução copernicana está ligada às maneiras pelas quais a ciência suplantou a religião e o mito na economia imaginativa do pensamento europeu. A ficção científica emerge moldada precisamente por essa luta.

A ficção científica impactou a chegada do homem à Lua e influencia o sonho de ir à Marte?
A ficção cientifica teve um impacto importante na realidade do voo espacial: os engenheiros e técnicos que trabalhavam nesses programas eram todos fãs do gênero e muitos dos problemas práticos haviam sido transmitidos pela ficção bem antes de a ciência real começar a pensar seriamente sobre eles.

O primeiro romance do escritor alemão Kurd Lasswitz sobre uma viagem de foguete à Marte, Two Planets (1897), foi lido por Walter Hohmann e Wernher von Braun e influenciou seu trabalho. O gênero continua a preencher a imaginação humana.

Como explicar o sucesso cada vez maior do gênero em diversas mídias e plataformas? Em sua opinião, quando foi que a ficção científica deixou de ser periférico na literatura e se tornar mainstream?
Em meu livro, argumento que Star Wars (1977), ou mais precisamente o espantoso sucesso de Star Wars, mudou o gênero de uma subcultura de pequena escala dominada por contos e romances para ser uma cultura dominante global baseada em filmes, séries de TV e videogames.

Textos visuais como filmes e programas de TV são muito bons em algumas coisas (bons em expressar emoções, em beleza visual e efeitos especiais) e não tão bons em outros: como transmitir idéias intelectuais! Então, todo o gênero mudou o centro de gravidade de ser literário/intelectual e ser visual / emocional.

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