Prêmio Jabuti de 2020 reconhece autores negros e literatura preta

Mais tradicional prêmio literário do país têm seguido tendência de destacar autores negros e temas relacionados ao racismo e à desigualdade

atualizado 04/12/2020 23:19

Itamar Vieira Júnior, ganhador do JabutiReprodução

É imensa a lista de autores negros que ajudaram a construir a história da literatura brasileira, mas dá para contar nos dedos os que gozaram de espaço e reconhecimento. Esse silenciamento, no entanto, tem sido rompido graças à contribuição de editoras menores e do próprio consumidor, que mudou de perfil e, hoje, demanda mais representatividade — um movimento que teve como precursores muitos autores clássicos, mas que talvez esteja vivendo seu auge na literatura contemporânea.

Com isso, as maiores e mais tradicionais premiações brasileiras também têm exercitado uma mudança de olhar sobre seus postulantes.

Em sua 62º edição, no final de novembro, o Prêmio Jabuti seguiu a tendência recente de reconhecer obras com temáticas associadas ao racismo e à desigualdade social, assim como autores negros e de origem periférica. No ano passado, o academia já havia dado um passo importante e histórico nesse sentido, entregando à Conceição Evaristo o prêmio de Personalidade Literária do Ano. Foi a primeira vez que uma escritora negra foi homenageada no evento, em mais de seis décadas.

Em 2020, Solo para Vialejo, da poeta sertaneja Cida Pedrosa, publicado pela Cepe Editora, foi eleito livro do ano. Na cerimônia apresentada pela jornalista Maju Coutinho, Cida falou sobre a obra. “É um livro sobre nossas negritudes várias, nossas indigenices várias, nossas branquitudes, em busca da música, em busca de mim e das minhas raízes sertanejas”, explicou.

Outros dois destaques foram Djamilla Ribeiro, com seu Pequeno Manual Antiracista, (Companhia das Letras), na categoria Ciências Humanas, e Itamar Vieira Júnior, como Melhor Romance, com Torto Arado (Todavia), tido como um dos favoritos ao prêmio.

Torto Arado: narrativa atual ambientada no passado

Além do Jabuti, Torto Arado recebeu o Prêmio Leya, de Portugal, em 2018. Desde que foi lançado no Brasil, em 2019, já vendeu mais de 20 mil exemplares e se tornou um clássico instantâneo pelos fãs.

Sua narrativa é ambientada no interior da Chapada Diamantina, na Bahia, e retrata, para além da relação entre duas irmãs marcadas por um acidente, a luta por moradia e alimento herdada pelos descentes de escravos.  Uma temática importante ainda hoje para a compreender a gênese das desigualdades racial e social no Brasil.

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Em meio aos preparativos para participar de outro grande evento da literatura brasileira, a FLIP 2020, neste final de semana, Itamar Vieira Júnior falou ao Metrópoles sobre a contemporaneidade de sua obra. “É um livro atual, presente. Aliás, a literatura está sempre refletindo as questões do nosso tempo. Todo autor dá um testemunho do seu tempo. Hoje, mesmo que a gente escreva sobre o passado, vai ser sempre sobre a perspectiva do presente”, reflete.

Geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos,  pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Itamar começou a escrever Torto Arado aos 16 anos, mas só foi amadurecê-lo anos depois, com a vivência junto a comunidades quilombolas, ribeirinhas e assentadas, como servidor público do INCRA.

Lembro de, nas primeiras vezes, ter ficado muito chocado com a semelhança daqueles cenários às narrativas como Vidas Secas, de Graciliano Ramos; O Quinze, de Rachel de Queiroz; e Meninos de Engenho, de José Lins do Rego

Itamar Vieira Junior, Melhor Romance no Jabuti 2020

Com as escolhas que fez em Torto Arado, Itamar também marcou um capítulo da história do Jabuti.

“Fui buscar o último prêmio concedido a um romance literário com protagonistas negros e encontrei pouquíssimos, há muito tempo. Gabriela, de Jorge Amado [em 1959] e Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo [em 1984]”,destaca.

Estereótipos do escritor brasileiro

A falta de representatividade racial na literatura nacional pode ser aferida em números. Uma pesquisa coordenada pela professora Regina Dalcastagnè, da Universidade de Brasília (UNB), por exemplo, mostra dados indiscutíveis sobre a publicação de romances nas principais editoras do país. Entre 2004 e 2014, apenas 2,5% dos autores publicados não eram brancos.

No mesmo recorte temporal, só 6,9% dos personagens retratados nos romances eram negros, sendo que só 4,5% eram protagonistas da história. E, entre 1990 e 2004, o top cinco de ocupações dos personagens prestos era bandido, empregado doméstico, escravo, profissional do sexo e dona de casa.

Por isso, reconhecimentos como o obtidos por Itamar, Djamilla, Conceição Evaristo, Rafael Calça e Jefferson Costa e outros artistas indicados ao Jabuti nos últimos anos é tão importante — ainda que insuficiente.

É importantíssimo termos diferentes perspectivas sociais, políticas e estéticas – de mulheres, negros, indígenas, moradores das periferias, de trabalhadores, da comunidade LGBT – compondo a literatura contemporânea nacional. São perspectivas que só a enriquecem ampliando sua diversidade e aprofundando discussões muitas vezes silenciadas

Regina Dalcastagnè, escritora, crítica literária e professora titular da UNB

“Esses prêmios dão visibilidade a essa produção, ajudam a aumentar o número de leitores e, principalmente, dizem a muitos jovens escritores e escritoras desses estratos que eles podem, sim, ter a ‘pretensão’ ou a ‘ousadia’ de investir em sua própria escrita. Porque o que eles se costumam ouvir da sociedade brasileira, o tempo todo, é que sua expressão, quando não a sua própria existência, não interessa”, completa.

Dívidas históricas

A pesquisa e a fala de Regina vão ao encontro da experiência de Itamar. “Nunca fui encorajado a encarar a atividade de escritor como algo que me desse autonomia” recorda.

Ao refletir sobre eventos recentes que levaram mais homens e mulheres negras a ocupar espaços de destaque, como ele mesmo, no Jabuti, o autor baiano destaca a política de cotas — cujo objetivo é justamente atenuar a dívida histórica do país com aqueles que ainda sofrem os efeitos da escravidão.   “Gera uma demanda por textos que se aproximem da sua vida, que narrem suas histórias e ancestralidades. E as grandes editoras estão despertando pra isso. Virou um nicho de mercado”.

Ele ainda menciona a contribuição das editoras independentes e dos milhares e escritores que, a despeito de seus talentos, nunca puderam ser reconhecidos.   “Não gosto de pensar que esse é um movimento novo, porque muitos continuaram escrevendo, quando nada favorecia”, opina. “Fico feliz que isso esteja mudando.  É inadmissível que um país em que 55% da população do país é negra, não possamos nos ver representados na literatura, na dramaturgia, no cinema, enfim, nas artes”, conclui Itamar.

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