*
 

Chico Buarque leu e ficou “chapado”. O ator Lázaro Ramos também não resistiu e postou uma foto nas redes sociais com o livro na mão. Já o cineasta João Moreira Salles foi mais longe ao dizer que a obra forjou uma nova língua brasileira. O rebuliço foi gerado por O Sol na Cabeça, a grande sensação literária do momento, lançada por um jovem de 26 anos morador da favela do Vidigal. Seria um James Joyce da periferia?

Autor dessa façanha, Geovani Martins, até pouco tempo atrás, não tinha casa. Aliás, como naquela canção da Legião Urbana, ele já tinha morado em tanta casa que nem se lembrava mais. Sua mãe, a cozinheira Dona Neide, lhe estendeu as mãos e abriu o coração quando o filho pediu para ser sustentado até escrever um livro.

Deu certo. Mas de onde vem tamanha autoconfiança? “Do desespero”, gosta de dizer o rapaz. Nascido em Bangu, Zona Oeste do Rio de Janeiro, Geovani Martins vive no Morro do Vidigal, Zona Sul. O gosto pelas palavras nasceu graças a uma avó que lia para ele gibis da Turma da Mônica. Até ter um “papo reto” com a mãe sobre viver de literatura, transou zilhões de trampos, desde atendente de lanchonete a garçom de bufê infantil, zanzando pelas ruas do Rio como homem-placa.

O choque de realidade empírica sentido na carne pelos lugares que passou expõe o aviltante drama da desigualdade no Rio. A experiência brutal serviu de fonte para os incisivos 13 contos do livro. Com tiragem inicial de 10 mil exemplares, a obra teve o feito inédito de ser vendida para nove países antes mesmo do lançamento. Além dos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, as tramas serão lidas na China!

Divulgação

 

E não é tudo. Produtor do elogiado Me Chame Pelo Seu Nome, Rodrigo Teixeira comprou os direitos de adaptação da obra para o cinema. O cineasta Karim Ainouz (Madame Satã) foi o escolhido tocar o projeto. “Gostei da escolha, pois ele filma principalmente os sentimentos dos personagens”, comentou o autor.

Morro e asfalto
As coisas começaram a mudar para Geovani Martins quando ele participou, em 2013, da Festa Literária das Periferias (Flup). Dois anos depois, foi atração da mostra paralela da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), apresentando ao lado de colegas da Rocinha, Manguinhos e Complexo do Alemão, edições da revista Setor X. Nascida das oficinas de texto, foto e edição realizada com o pessoal do morro, a publicação reportava dramas suburbanos.

Em 2017, com os rascunhos do que viria a ser O Sol na Cabeça debaixo do braço, Geovani marcou presença na Flip. Mas, dessa vez, teve sorte de ser indicado pelo jornalista e escritor Antonio Prata, ao editor da Cia. das Letras, Ricardo Teperman. O resto é história.

Despojada e realista, a narrativa de O Sol na Cabeça conquista o leitor logo na primeira frase de Rolézim, poderoso conto de abertura.

“Acordei, tava ligado o maçarico! Sem neurose, não era nem nove da manhã e a minha caxanga parecia que tava derretendo”, diz o personagem sobre queda de braço entre jovens da periferia com a PM nas areias da Zona Sul. “Sei é que quando eu vejo cana querendo muito trabalhar fico logo bolado. Coisa boa não é”, ironiza.

No angustiante Espiral, a tensão psicológica, no melhor estilo Rubem Fonseca, dá as caras nessa relação tensa e estranha de gato e rato entre um morador de classe média e um adolescente do subúrbio. Uma quase pirraça social. O desfecho é exemplar e externa de forma consciente o tamanho da desigualdade entre o asfalto e o morro.

É tudo muito próximo e distante. E, quanto mais crescemos, maiores se tornam os muros"
Giovani Martis, sobre o fosso social entre morro e asfalto

O lirismo e crônica de costume abrem trilha na pesada crítica social destilada por Geovani em contos tocantes, como O Caso da Borboleta e O Mistério da Vila. No primeiro, o encontro entre um garoto e uma borboleta descuidada que cai numa panela de óleo, enquanto sua avó ronca diante da novela das sete. No segundo, a trama segue o imaginário folclórico e juvenil em torno de uma velha macumbeira.

“Meu pai disse que macumba é igual maconha: coisa do diabo! Se fosse bom não começava com ‘ma’”, sentencia um dos personagens.

Muito do sucesso do livro tem a ver com o perfil, trajetória e realidade vivida pelo escritor, mas, sobretudo, pelo talento e habilidade do jovem em retratar essa experiência com sensibilidade sem igual. Giovani dá novo olhar à temática saturada e envolta em clichês, não tratando os personagens como coitadinhos. Uma bela estreia literária!

O Sol na Cabeça
De Geovani Martins. Companhia das Letras. 119 páginas. R$ 36,90