Grafiteiros lançam “Tinder” da arte de rua para unir casas e artistas

O projeto Obra à Frente propõe reunir grafiteiros e donos de casas da W3 para valorizar o espaço com pinturas

JP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 07/04/2019 21:01

Um coletivo de artistas está de romance com os moradores da W3 Sul: o grupo criou o projeto Obra à Frente, cuja principal função é ser uma espécie de Tinder para unir paredes e artistas. No site da iniciativa, é possível se inscrever e oferecer voluntariamente o próprio trabalho ou o muro de casa. A iniciativa será inaugurada no próximo dia 27, mas já conta com intervenções urbanas em oito diferentes pontos da tradicional avenida.

“Criamos um site facilitador, no qual os moradores podem cadastrar suas casas para serem pintadas e os artistas exibem o catálogo deles. É como um Airbnb de arte, eles entram em contato um com o outro e negociam a obra entre eles”, comenta uma das idealizadoras do projeto, Patrícia Del Rey. Por enquanto, os grafiteiros participantes são Alerrandro Rodrigues, Ju Borgê, Clarice Gonçalves, Lucas Gehre, Pedro Sangeon, Thaís Mallon, Pomb, Coletivo Transverso, Mão e Felipe Cavalcante.

Uma vez em contato, artistas e proprietários acertam o procedimento: quem contribuirá com o quê, compra de tintas, sprays e outros materiais.

A maior das oito casas do projeto piloto foi colorida por Pedro Sangeon, o autor do personagem Gurulino. “Sinto que as pessoas estão disponíveis para a arte urbana, elas têm vontade de pintar as paredes, contribuir com uma cidade mais criativa. A moradora, que recebeu a arte gigantesca, foi superdisponível, até deixou a gente guardar os andaimes por lá”, lembra Patrícia.

Julia Bandeira/Especial para o Metrópoles
Pedro Sangeon, criador do Gurulino, em frente à imensa obra na W3 Sul

A obra de Sangeon – Gurulino, seu personagem, arranca do peito uma de várias flechas que o acertaram, como um São Sebastião moderno – é a que o artista mais gosta em todo seu extenso catálogo. “É como se fosse uma alegoria gigante da arte e da cultura alvejadas pelo governo, que está eliminando políticas públicas de fomento. A gente corre muito perigo, estamos sendo atacados. A ideia é que a arte sobreviva independentemente do momento difícil”, comenta.

No braço da figura, os dizeres “a arte nunca morre”, como se fosse uma tatuagem, dão o tom que o artista quis passar. “Tem quem diga que não podemos usar palavras negativas, que o ideal seria escrever ‘a arte vive’. Mas a escolha é essa mesmo, pelo momento que estamos vivendo. A arte sempre vai viver. Estou fazendo uma denúncia. É importante que as pessoas entendam que a arte não morre, mas está correndo sérios riscos”, argumenta.

Nem só de artistas urbanos conhecidos pelas ruas da cidade se faz o projeto: a artista plástica Clarice Gonçalves teve a primeira incursão fora de seu ateliê com o Obra à Frente. “Foi um desafio bem bacana. Fiquei um pouco insegura por conta da dinâmica, estou acostumada a trabalhar com o isolamento, o silêncio, o processo de ir e voltar para a obra. Na rua, não. Você está ali e as pessoas passam, olham, tem quem elogie, mas há críticas… Essa interferência acaba sendo coletiva, esse zumbido mexe com o processo”, descreve a brasiliense.

JP Rodrigues/Metrópoles
A arte de Clarice Gonçalves em banca da W3 Sul

Clarice pintou uma banca de revistas na 708 Sul. A imagem escolhida foi a de uma mulher internada no Hospital da Salpêtrière, um antigo hospício francês. “Existia ali uma construção de um discurso sobre a histeria das pacientes. Escolhi algumas dessas imagens de época e pintei uma personagem fazendo careta bem na quina. A ideia é provocar esse estranhamento na paisagem, mas também quis falar um pouco sobre essa hipnose coletiva pela qual o país está passando”, comenta a artista.

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Antes mesmo do lançamento oficial do projeto, mais três moradores da W3 Sul disponibilizaram suas fachadas. O Obra à Frente não vai só facilitar o contato entre artistas e donos de casas na avenida, também promoverá a ocupação das calçadas: a ideia é criar uma visita guiada partindo do Espaço Cultural Renato Russo, na 508 Sul. “A gente participa tão pouco da rua, estamos sempre de carro. O tour é um ato político também, de pertencer e ocupar a cidade. Perceber uma fachada que pode passar poesia, arte e ideias contribui para os passantes”, argumenta Patrícia.

É importante ocupar a cidade inteira com arte. Tudo que vemos na rua são palavras de ordem: ou sinalizações de trânsito, ou publicidade. Acho que a rua é um lugar de pertencimento, toda pessoa tem direito à cidade onde mora ou pela qual passa. A gente a transforma num local de encontro por meio da arte, e não apenas de consumo.

Patrícia Del Rey, uma das idealizadoras do Obra à Frente

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