O escultor Ricardo Stumm revela o que faz dele um realizador singular nas artes plásticas da cidade
Em cartaz até dia 17/1 em coletiva na Caixa Cultural, o artista abre seu ateliê ao “Metrópoles” e explica a técnica de cera perdida, a mesma usada pelo mestre surrealista Salvador Dalí nos anos 1970
atualizado
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Manhã de terça-feira, Ricardo Stumm abre a porta de casa para a reportagem do Metrópoles. Ele toma um chimarrão, erva fresquinha que trouxe dia desses do Rio Grande do Sul, e ouve Radiohead, “Airbag”, faixa do clássico disco “OK Computer” (1997) a brotar de sua playlist eletrônica e ecoar pela sala, pelos jardins. No fogareiro de seu ateliê, ali embaixo no quintal, uma panela de cera líquida já está fumegando.
Antes de se tornar um dos mais singulares artistas em atividade no Distrito Federal, o gaúcho Ricardo Stumm teve aulas formais e informais com seus conterrâneos Danúbio Gonçalves, lá no prestigioso Ateliê Livre da Prefeitura de Porto Alegre, e Glenio Bianchetti, já aqui no Clube da Gravura de Brasília. Mas há tempos largou a pintura e a gravura para se dedicar exclusivamente à escultura.
Para fazer suas peças em bronze e alumínio, ele usa de uma técnica ancestral que envolve terra, fogo e metal. Praticamente um processo de alquimia, como brinca Stumm, a transformar um material em outro. Trata-se da chamada modelagem por cera perdida. Para se ter uma ideia, esse é o mesmo procedimento usado pelo mestre surrealista Salvador Dalí (1904-1989), na década de 1970, para uma série de esculturas que já foi exibida aqui em Brasília, na Caixa Cultural, há um par de anos.
A primeira parte desse trabalho, lento, rigoroso e detalhista, Stumm desenvolve em sua casa no Jardim Botânico, dentro de seu arejado ateliê, um puxadinho em frente à churrasqueira. A segunda parte, mais calculada e perigosa por envolver fornos ligados durante horas e materiais em altíssimas temperaturas, ele faz numa pequena fundição artística montada por ele mesmo no Lago Oeste.
“É um trabalho de maluco”, ele define, numa risada, admitindo que muitos de seus amigos e aprendizes desistiram de se aventurar pela escultura só de vê-lo passando por três ou quatro diferentes materiais até chegar à obra definitiva.
Pois essa “maluquice” segue assim…
Do barro ao bronze
Aquela panela a fumegar no fogareiro de seu ateliê, Ricardo Stumm preparou ali uma mistura de parafina e breu. Lentamente aquecida no fogo, a parafina sólida derrete e, junto ao breu em pó, vira um líquido. Neste caso específico, um líquido esverdeado, graças ao pigmento escolhido por Stumm para facilitar sua visualização do trabalho. Essa cera será derramada, ainda quente, dentro de um molde em gesso.
Esse molde, por sua vez, foi feito previamente a partir de uma escultura em argila. Essa escultura primeira, trabalhada a mão pelo artista, é exatamente a mesma peça que – ali adiante quando esta alquimia se encerrar – poderá ser vista em metais como bronze ou alumínio. Mas como moldar esse tipo de material com a mão é impossível, tudo começa com a argila, tudo começa com o barro.
Essa escultura de argila, quando finalizada, é envolta e moldada em gesso ou em silicone. Essa forma então é partida em três ou quatro pedaços (os tacellos) que, quando reunidos novamente, recebem no oco de seu interior a cera líquida (a 60 ou 70 graus Celsius).
Ali a cera fica descansando, esfriando e lentamente endurecendo a partir das bordas, igual uma sopa esfria num prato. Assim começa a formar uma casquinha que acompanha todo o relevo interno do molde de gesso. Depois de um tempo, a parte da cera ainda líquida é derramada e jogada fora. Quando os tacellos então forem novamente separados, o interior do molde revelará uma peça oca de cera com o mesmo desenho externo daquele original em argila.
Dali ela segue para a fundição de Ricardo Stumm no Lago Oeste. Onde essa casca de cera endurecida é, por sua vez, envolvida por gesso refratário. Quando o gesso solidifica, ele vai para dentro de um forno a 700 graus Celsius. O gesso fica ainda mais firme, com o calor, enquanto a cera em seu interior derrete e depois evapora – vai daí o nome “cera perdida”.
Esse novo molde de gesso recebe em seu interior metal líquido (bronze ou alumínio). Quando esse metal esfriar e se solidificar, o molde pode ser quebrado para revelar enfim a escultura final… Ou quase final… Pois ainda há o cinzel e a pátina para o acabamento, para emprestar texturas e cores.
De Paris a Barcelona
Ricardo Stumm, 52 anos, morou por quatro anos em Paris, onde fez artes gráficas na Académie Julian, e visualizou muitas esculturas em praça pública, não apenas em museus, obras de César Baldaccini e Auguste Rodin em espaços abertos. “Dali ficou incubada em mim essa ideia de fazer escultura”, acredita.
Em seguida, depois de mais três ou quatro anos de volta a Brasília, Stumm retornou à Europa, desta vez para Barcelona, para estudar especificamente fundição e a técnica de cera perdida. Frequentou a Escuela Massana, do mestre ceramista Joaquin Chabarria. Foi onde aprendeu todos os passos desse trabalho minucioso que, hoje em dia, ensina aqui na cidade em seus workshops.
Um pouco da produção de Ricardo Stumm pode ser vista na Caixa Cultural, dentro da mostra coletiva “Brasília 12 Ateliês”. Bolada por Lêda Watson e Newton Scheufler para ser um panorama da criação brasiliense, essa exposição segue em cartaz até 17 de janeiro e traz nomes já conhecidos como Glenio Bianchetti, Betty Bettiol, Omar Franco e Darlan Rosa.
Nesse conjunto heterogêneo de práticas e de biografias, no entanto, sobressai a contribuição de Stumm. Foram escolhidas três peças em alumínio para representar seu trabalho atual, e elas pontuam o centro da Galeria Principal da Caixa Cultural, emprestando volume e movimento, amarrando as demais obras ao seu redor.
“Reflexão” (2014), “Musa Infinita” (2014) e “Musa Dual” (2015) são representantes recentes da série “Além dos Limites”, na qual Ricardo Stumm vem trabalhando desde que voltou de Barcelona, e que já lhe rendeu uma mostra individual, na Caixa Cultural de São Paulo, no ano de 2009.
Todas essas peças refletem um pouco de sua influência do surrealismo e do mundo dos sonhos. As musas de Ricardo Stumm, em bronze ou alumínio, não são frias ou distantes. Elas trazem elementos orgânicos e fantásticos em pátinas, texturas e dinâmicas. De modo que Stumm ainda enxerga ali boa parte do interesse que o levou ao desenho e à gravura tantos e tantos anos atrás, conciliando rigor e sensualidade.
“Brasília 12 Ateliês”. Até 17/1, na Caixa Cultural (Setor Bancário Sul , Quadra 4, Lotes 3 e 4; 3205-9448). Terça a domingo, das 9h às 21h. Entrada franca. Livre.


















