Chega ao CCBB a aguardada mostra retrospectiva de Iberê Camargo
Tão extensa quando variada e sombria, "Iberê Camargo – Um Trágico nos Trópicos", reúne 134 obras do artista gaúcho. Exposição abre neste sábado (14/11) e segue até 11 de janeiro

Certamente um dos grandes nomes da arte brasileira de todos os tempos, Iberê Camargo assina uma obra tão extensa quanto variada e sombria. Entre naturezas mortas, carretéis de linhas para costura, objeto marcante de sua infância, e fantasmagóricas figuras humanas, ele trilhou uma carreira entre o abstracionismo e o figurativismo. Neste sábado (14/11), chega à cidade a aguardada retrospectiva “Iberê Camargo – Um Trágico nos Trópicos”, com 134 obras que fornecem um panorama das diferentes fases vividas pelo pintor gaúcho.
Curador do Museu de Arte Moderna (MAM), no Rio de Janeiro, Luiz Camillo Osorio foi o responsável por organizar os títulos da mostra. O percurso do visitante começa no primeiro piso da Galeria Principal do CCBB. Ali, a partir dos anos 1950, Camargo havia retornado da Europa para o Rio de Janeiro. Criou naturezas-mortas e a série “Carretéis”, obcecado pela forma do objeto que tanto viu quando pequeno. “É nesse período em que Iberê encontra a sua singularidade”, analisa Osorio.
Ao descer para o térreo, os carretéis assumem formas cada vez mais abstratas. “Eles começam a voar. A massa de tinta fica mais densa, uma pintura mais informal e gestual”, continua o curador. Telas dos anos 1970 mostram um trânsito entre figuras humanas e carretéis, até culminar no retorno definitivo de rostos e corpos.
A exposição assume tonalidades ainda mais dramáticas na Galeria 2. São grandes telas que Camargo produziu no fim da carreira, já debilitado pela idade avançada e pelo câncer no pulmão que tirou sua vida em 1994. As séries “Ciclistas”, “As Idiotas” e “Tudo Te É Falso e Inútil” revelam imagens solitárias, com indivíduos da terceira idade entre gestos vacilantes e expressões de resignação. “É a fase mais trágica, no contato mais direto com a morte. É uma pintura muito poderosa e afirmativa, que não perdeu força com o tempo. Foi ficando cada vez mais grave”, avalia Osorio.
Veja uma galeria com obras de diferentes fases de Iberê Camargo:
O parceiro e aprendiz de Iberê Camargo na gravura
No térreo da Galeria Principal, dezenas de matrizes, estudos em desenho e gravuras evidenciam um outro lado do processo criativo do artista. “Não são preparação para as telas, mas um diálogo com elas. A pintura é um trabalho gestual e corporal. No desenho e na gravura, é como se aquela experiência de escala da pintura ganhasse uma concentração no olhar, ritmo e movimento. O ofício de gravador sempre foi muito caro a ele”, explica Osorio.
O último aprendiz de Camargo foi Eduardo Haesbaert, gravador que acompanhou o pintor em seu ateliê entre 1990 e 1994. Durante o expediente, sempre à tarde, ele preparava matrizes e fazia impressões. Tornou-se técnico do gaúcho por dica de um amigo. Mas, antes, teve que passar por dois testes: um de pontualidade – apareceu na hora marcada. E outro de tato: Camargo checou as mãos de Haesbaert e percebeu que não transpiravam, algo ideal para o ofício de gravador.

Foi a fase mais reclusa do autor. No retorno a Porto Alegre, em 1983, ele construiu uma casa na região de Nonoai, bairro afastado ao sul da capital. Mesmo solitário, vivendo com a esposa, Maria Coussirat Camargo, recebia amigos nos fins de semana e algumas visitas de escolas. Haesbaert tinha pouco mais de 20 anos e teve contato com a fase em que Camargo realizou grandes telas.
“O ateliê de gravura ficava embaixo. O de pintura ficava na parte de cima”, descreve. “Quando chegava, a primeira coisa que fazia era ver o que ele tinha feito na noite anterior. Ele disse uma vez, brincando, que ia começar a fazer quadros tão grandes que nem os ricos poderiam colocar nas paredes. Ele falava que eram os ‘quadralhões'”, recorda Haesbaert.
Hoje, o gravador coordena o ateliê de gravura da Fundação Iberê Camargo e de um projeto de residência, em que artistas convidados passam uma semana no espaço produzindo trabalhos. A instituição, aliás, começou na casa de Nonoai após a morte do pintor – atualmente, a residência funciona como depósito. Depois, foi transferida para a Avenida Padre Cacique, ainda em Porto Alegre. Uma iniciativa recente da fundação é o acervo digital, com mais de 4 mil obras.
A partir de sábado (14/11) e até 11 de janeiro de 2016. Visitação de quarta a segunda, das 9h às 21h. Entrada franca. Classificação indicativa livre.















