Cannes: La Vénus Électrique, de Pierre Salvadori
Filme de abertura é um romance de época sem eletricidade alguma.

O começo de um festival, como este de Cannes deseja ser animador, deixando os trabalhos mais polêmicos e desafiadores a serem descobertos lentamente nas semanas que se seguem. A Croisette, trecho da orla em que o centro de convenções da mostra competitiva se situa, nunca está mais pululante de celebridades e beldades quanto nesse dia de abertura. É de se imaginar, então, que o trabalho apresentado como filme de abertura (geralmente fora da competição pela sagrada Palma de Ouro) seja um filme alegre e até brincalhão.
Só isto pode explicar a inserção de uma comédia romântica francesa pelo segundo ano consecutivo no espaço de projeção. Ano passado, em Partir un Jour, uma chef bem sucedida, grávida do namorado mais ainda incerto do que fazer, retorna à cidade pequena para ajudar os pais idosos, reencontrar um crush da adolescência, e eventualmente retornar para a cidade grande, mais segura de si mesma. Desta vez, os personagens são mais interessantes. O filme, porém, ficou mais sem graça.
O cenário é uma trupe circense nos arredores de Paris em 1920. Suzanne (Anaïs Demoustier) é a mulher elétrica do título. Sua performance envolve ser levemente eletrocutada enquanto uma fila de homens curiosos paga um pequeno ingresso para lhe dar um selinho nos lábios. Para isso ela é paga quase que miseravelmente pelo organizador da trupe, Titus (Gustave Kervern). Se pudermos deixar de lado o perverso abuso do ato, podemos enxergar em Suzanne uma representação da robô-mulher que aparece desde o filme Metrópolis, do alemão Fritz Lang. Trazendo de volta o abuso, nota-se que a primeira obviedade comercial de tal ser é seu uso, digamos, amoroso.
Tratamos aqui de uma comédia romântica, lembre-se, então, apesar da óbvia depressão de Suzanne, ela se envolve em subterfúgios próprios. Um dia, a colega cartomante está fora da cabine e Suzanne, desprevenida, é acossada pelo viúvo Antoine (Pio Marmaï), um pintor deprimido que busca contactar a esposa morta. Ele oferece um bom dinheiro, então Suzanne improvisa. A sessão vai tão bem que eventualmente o marchand de Antoine, Armand (Gilles Lellouche), convence Suzanne a manter a mentira para que seu artista volte a pintar. Armand, aliás, ainda consegue lhe passar informações sobre a morta para que Suzanne melhore sua performance.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesEntre protagonistas deprimidos, possíveis abusos sexuais aonde ela beija filas inteiras de homens e ele a beija achando que está beijando a esposa falecida, o filme ainda incorpora flashbacks sobre a vida desta, chamada Irene (Vimala Pons). O que aconteceu entre ela, o pintor em que ela acreditava (Antoine) e o marchand que ela convenceu a representá-lo (Armand) requer um filme à parte. Todo o desenrolar das várias decepções é o mais formulaico possível, o que é a verdadeira surpresa. O filme aqui apresentado, talvez requeira um diretor à parte.
Avaliação: Regular (2 estrelas)
