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Para quem acompanha Lars von Trier, 62 anos, desde Ondas do Destino, há 20 e tantos anos, é certamente reconfortante ver o diretor de volta ao Festival de Cannes. Há sete anos, ele chamado de nazista por ter feito declarações consideradas racistas durante a coletiva de Melancolia. Na ocasião, o cineasta disse que entendia Adolf Hitler. Von Trier virou persona non grata e, banido da Croisette, foi exibir Ninfomaníaca, seu filme seguinte, em Berlim.

De volta a Cannes, algo terrível se passou. A assessora do cineasta informou: “Ele sempre foi ansioso e, há tempos, sofre de depressão. Toma drogas cada vez mais pesadas e substâncias para tentar minimizar os efeitos: tremor das mãos, movimentos rígidos, fala entrecortada”.

Mas o cineasta dinamarquês está lúcido. “Depois do sexo em Ninfomaníaca, um bom tema para causar é a violência. Diz respeito a todos, no atual estado do mundo. Os assassinos em série sempre me interessaram. Só falta agora me chamarem de serial killer, o que não sou, claro. Mas, nesse mundo de fake news, ninguém está nem aí para julgamentos morais. Se ajudar a vender jornais e criar sensacionalismo, está valendo.”

 

Na ficção de seu novo filme, The House that Jack Built, o personagem mata mais de 60 pessoas, a maioria mulheres, ao longo de 12 anos. Depois de nazista, o mínimo que você está sendo chamado agora é de machista. Jack é a sua reação ao movimento #MeToo?
Você não é a primeira pessoa a dizer isso. Acho que vivemos numa era de reducionismo, em que as mensagem têm de ser reduzidas ao mínimo. Menos toques. Jack tem uma mente descompensada e sofre de transtornos. Achei que seria divertido criar cenas como a da obsessão dele por limpar o local do crime, ou a do piquenique familiar que termina em banho de sangue. Mas a essência do filme é a cultura da indiferença.

Como assim?
A mulher que vai à polícia, que grita por socorro na janela. As mulheres estão protestando e forçando todo mundo a ouvir suas vozes. Mas as mudanças, aqui mesmo nesse festival, ainda têm sido tênues.

Por que escolheu Matt Dillon para o papel?
Você já falou com ele, não? Matt deve ter dito que foi a primeira coisa que ele mesmo se perguntou. Escrever esse filme não foi fácil e, na produtora [Zentropa], as pessoas diziam que não seria fácil encontrar um ator. Matt quase desistiu quando foi me visitar em Oslo para fazermos a leitura do roteiro. Prometi que seria um set ameno, a despeito do tema, e creio que conseguimos. O escolhi por seu rosto bonito. A gente valoriza muito a beleza das mulheres, mas e a dos homens? As mulheres adoram essas carinhas de anjo, principalmente quando os sujeitos as surpreendem com uma pegada forte.

Durante todo o tempo, Jack está querendo construir uma casa. Quer mostrar para ele mesmo que é um arquiteto, um artista, mas local está sempre sendo demolido. Finalmente, é uma arquitetura de horror, mas não vamos dar spoilers. O assassinato em série é uma forma de arte?
É um pouco a ideia que está em discussão, mas é como já falamos no início. Era importante que Matt [Dillon] entendesse a mente de Jack e não o julgasse do ponto de vista moral, mas nunca é fácil para os outros aceitar. Mas ele é um ator, todos sabem que o autor sou eu. A fatura vem para mim. Viro um monstro. Esse julgamento das ruas é a coisa mais fácil de manipular.

E como foram as reações?
Cheguei a Cannes ouvindo que as mulheres iam querer me trucidar. Até agora, têm sido respeitosas, mas o inimigo certamente não sou eu. Tenho criado personagens fortíssimas. Em Ondas do Destino, Dançando no Escuro, por exemplo. Acredito na paridade, mas não consigo vê-las despontando no horizonte.

Por que você dividiu a história em cinco capítulos, identificados como “incidentes”?
Creio que isso me dá uma riqueza de tom muito grande, da mesma forma que iniciar o filme com o diálogo entre Jack e esse Verge (Bruno Ganz), que só identificamos no final. Supostamente, essa é uma história de época, passada Estados Unidos, nos anos 1970. Isso me permite certa distância e também de impregnar a história de Jack com um humor absurdo. No catálogo do festival, o filme é definido como uma mistura grotesca de sofisticação com piedade quase infantil pelo personagem. Estou certo de que as pessoas pensam: “Lars está f… com a gente”.

Como você define sua colaboração com o fotógrafo chileno Manuel Antonio Claro?
Manuel Antonio Claro nasceu em Santiago do Chile, mas é um diretor de fotografia dinamarquês. Quando comecei a me aprofundar nas novas tecnologias, eu precisava de alguém como ele. Jovem, ousado. Manuel tem o sentido da luz, é econômico. E eu precisava de alguém capaz de iluminar o inferno. Ele me apresentou soluções criativas, mas basicamente partimos do conceito sartriano. O inferno são sempre os outros.