Filmes de Glauber Rocha passam por restauro que une analógico e digital

Quatro obras do cineasta passam por restauração que combina técnicas analógicas e tecnologia digital para preservar o legado do Cinema Novo

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Reprodução/Cinemateca Brasileira
Imagem de arquivo de Terra em Transe, filme de Glauber Rocha
1 de 1 Imagem de arquivo de Terra em Transe, filme de Glauber Rocha - Foto: Reprodução/Cinemateca Brasileira

Ao longo de 24 anos de atividade, Glauber Rocha ajudou a construir alguns dos pilares do cinema brasileiro. Jornalista, intelectual, escritor, crítico e diretor de clássicos como Deus e o Diabo na Terra do Sol, o cineasta baiano completaria 87 anos neste sábado (14/3).

Mesmo após mais de duas décadas de sua morte, a obra de Glauber continua a instigar gerações de espectadores e estudiosos. Seus filmes continuam sendo referência para o audiovisual brasileiro e parte essencial da história do Cinema Novo.

Agora, em 2026, quatro títulos dirigidos pelo cineasta passam por um processo inédito de restauração, que combina técnicas analógicas e tecnologia digital de ponta para preservar esse legado. A iniciativa reúne instituições públicas e privadas no Brasil e no exterior e é liderada por Paloma Rocha, filha do diretor, que há mais de 20 anos se dedica à preservação da memória do pai.

“Este é um grande presente para Glauber Rocha”, declara Paloma. “São filmes de caráter histórico, crítico e político, alguns deles inéditos no Brasil. Este é um projeto pioneiro que valoriza a obra do diretor, que precisava de um reparo à altura.”

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Glauber Rocha e a filha, Paloma Rocha
Glauber Rocha. patrono do Cinema Novo
Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista, no sudeste da Bahia
Glauber Rocha durante a gravação de Deus e o Diabo na Terra do Sol
Glauber Rocha durante a gravação de Deus e o Diabo na Terra do Sol
Glauber Rocha (1939-1981)
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Glauber Rocha (1939-1981)

Acervo pessoal
Glauber Rocha e a filha, Paloma Rocha
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Glauber Rocha e a filha, Paloma Rocha

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Glauber Rocha. patrono do Cinema Novo
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Glauber Rocha. patrono do Cinema Novo

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Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista, no sudeste da Bahia
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Glauber Rocha nasceu em Vitória da Conquista, no sudeste da Bahia

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Glauber Rocha durante a gravação de Deus e o Diabo na Terra do Sol

Acervo pessoal

Quando o processo for concluído, 10 filmes de Glauber Rocha terão sido resgatados e preservados para a posteridade. Atualmente, quatro obras passam por restauração conduzida por uma equipe especializada de cineastas e técnicos. São elas:

  • Amazonas, Amazonas (1966) – curta-documentário publicitário produzido para incentivar o turismo no estado do Amazonas. Encomendado pela Ditadura Militar, o filme ajuda a entender as nuances da relação do cineasta com o governo da época.
  • Di Cavalcanti Di Glauber (1977) – curta-documentário, feito em homenagem ao pintor Di Cavalcanti (1897-1976). Por imbróglios judiciais, o filme nunca foi exibido no Brasil. Vencedor do Prêmio Especial do Júri para Melhor Curta-Metragem no Festival de Cannes e um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos segundo a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine).
  • História do Brasil (1974) – documentário e um dos filmes mais extensos da filmografia do diretor. Foi produzido durante o exílio de Glauber Rocha em Cuba de 1971 a 1973. Um trabalho que busca refletir de forma crítica sobre o impacto da colonização e do neocolonialismo.
  • Terra em Transe (1967) – longa-metragem e um dos trabalhos mais celebrados do cineasta. É considerado o filme mais íntimo e pessoal do diretor. Vencedor dos prêmios Luis Buñuel e Fipresci no Festival de Cannes e um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos segundo a Abraccine.

Os três primeiros filmes estão sendo restaurados no Brasil, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O projeto é conduzido pela produtora Box Cultural, em parceria com a Cinemateca Brasileira e laboratórios privados de restauração.

Já Terra em Transe passa por restauração no exterior, por meio do World Cinema Project, iniciativa ligada à The Film Foundation, organização fundada pelo diretor Martin Scorsese.

Imagem de arquivo de Terra em Transe, filme de Glauber Rocha
“Terra em Transe é o filme-ápice do movimento Cinema Novo. Nunca houve um filme como ele e não haverá de novo. Esse tal Martin Scorsese, com sua fundação, sabe das coisas”, Lino Meireles
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Segundo Sara Rocha, diretora da Box Cultural e neta de Glauber Rocha, o objetivo é trazer o que há de melhor em termos técnicos e tecnológicos para o processo de preservação e restauro da filmografia do cineasta baiano.

“A iniciativa do restauro é de fato devolver esses filmes ao público. São obras eloquentes e polêmicas, e é uma grata oportunidade devolvê-las aos brasileiros e ao mundo. É mais uma etapa em um processo que é um compromisso histórico e de vida, passado de forma geracional na família. Desde dona Lúcia [mãe de Glauber Rocha], que salvou tudo o que ele deixou”, afirma Sara.

Esta não é a primeira iniciativa voltada à preservação do legado de Glauber Rocha. Desde 1980, a obra do cineasta vem sendo alvo de projetos de conservação e restauro, viabilizados pelos vastos acervos mantidos pela família, pela Cinemateca Brasileira e pelo Arquivo Nacional.

Em 2022, Deus e o Diabo na Terra do Sol voltou ao Festival de Cannes — evento que lançou o longa para o mundo — após ter sua cópia restaurada em 4K e exibida na 75ª edição do festival. O trabalho foi resultado de uma parceria entre Paloma Rocha e o cineasta Lino Meireles, que celebra mais uma restauração da obra de Glauber Rocha.

“Acontece em tempos recentes uma onda de restauração de clássicos do cinema brasileiro”, afirma. “O mais importante é que tudo está sendo feito no Brasil, com equipes técnicas nacionais. Então nós rompemos esta barreira.”

Para Rodrigo Mercês, coordenador de preservação da Cinemateca Brasileira, essas iniciativas não apenas mantêm viva a memória do diretor, como também ajudam a abrir caminhos para todo o audiovisual do país.

“Glauber é um diretor cuja filmografia vem sendo preservada e restaurada há mais de 40 anos. É impressionante pensar que uma mesma coleção tenha atravessado tantos processos e contextos históricos diferentes, que acabam influenciando a forma como a obra é recebida. Sempre que falamos de avanços no cinema brasileiro, ele aparece”, avalia.

União do analógico ao digital

Para restaurar os filmes no Brasil, a equipe utiliza um método que combina técnicas analógicas — voltadas à preservação dos materiais originais — com tecnologias digitais capazes de adaptar o acervo do diretor a novas mídias, na maior resolução atualmente disponível. É a primeira vez que um projeto com esse nível de complexidade técnica é realizado no país.

O primeiro e mais importante passo do processo é a pesquisa dos materiais que servirão de base para o restauro. Apesar do vasto acervo disponível, muitos negativos originais foram severamente danificados pela ação do tempo ou simplesmente se perderam.

Esse é o caso, por exemplo, de Terra em Transe. Há 35 anos, os negativos originais do filme foram destruídos em incêndio em um laboratório em Paris. No Brasil, restava apenas um negativo de câmera com granulação muito forte, o que inviabilizava o uso da imagem. Para viabilizar o restauro, foi necessário combinar uma cópia de positivos franceses, usada como base visual, com um negativo preservado em Cuba, de onde foi recuperado o áudio.

Nos casos de Di Glauber e História do Brasil, os desafios são ainda maiores. No primeiro, o material disponível é precário e apresenta forte deterioração, com fungos e manchas. Já o segundo enfrenta uma camada adicional de complexidade: o documentário, de longa duração, foi montado a partir de imagens de arquivo de baixa qualidade, as únicas às quais o diretor teve acesso em Cuba durante o exílio político.

Rodrigo Mercês, da Cinemateca Brasileira, explica que um dos principais objetivos do restauro — e o que torna o projeto revolucionário — é preservar as características da obra original. Isso inclui não apenas as escolhas estéticas do diretor, mas também as limitações tecnológicas da época e até eventuais imperfeições do material utilizado. Por isso, segundo ele, a combinação entre processos analógicos e digitais é fundamental. “A tecnologia digital e a Inteligência Artificial (IA) não resolvem tudo”, afirma.

“Esses processos mecânicos e fotoquímicos muitas vezes trazem resultados até melhores do que o digital e ajudam a preservar a essência do filme. São elementos como profundidade de campo, iluminação e granulação que dão aquela ‘cara de cinema’. E isso é crucial para entender o que foi e como era aquela época”, explica.

O restauro, ainda em fase inicial, é conduzido por um grupo seleto de cineastas e especialistas que já colaboraram com Paloma Rocha e com a Cinemateca Brasileira em projetos anteriores. Integram a equipe o diretor de fotografia Luís Abramo, o especialista em som José Luiz Sasso e o restaurador João Sócrates.

Para recuperar as imagens, está sendo aplicada uma metodologia inédita no Brasil, que combina duas técnicas distintas: a duplicação fotoquímica — responsável por gerar novas cópias duráveis a partir das matrizes originais — e o escaneamento em “janela molhada”, processo em que um fluido especial é utilizado para preencher arranhões, riscos superficiais e outras imperfeições físicas durante a digitalização do filme.

“O Glauber nos deixou um legado de genialidade incomparável a qualquer outro diretor nacional ou internacional. A obra dele é importantíssima e estamos tendo essa preocupação de que ela não dure só por cinco ou 10 anos, mas por 500 até 1000 anos”, promete o restaurador João Sócrates.

A combinação dessas técnicas não garante apenas maior fidelidade à obra original e melhor qualidade de preservação do acervo. Ela também reduz a dependência de ferramentas digitais mais complexas, o que ajuda a conter custos. A restauração de um filme pode exigir investimentos que variam de R$ 200 mil a R$ 2 milhões, dependendo da duração da obra e do estado de conservação do material.

Este é um trabalho que merece ser feito“, destaca Paloma Rocha. “Os restauros possibilitam que essas obras estejam disponíveis ao público e sirvam de inspiração para novos projetos, como documentários, exibições em alta qualidade ou lançamentos para o streaming. Nós queremos que a obra do Glauber Rocha possa ser usada para alavancar a qualidade da restauração no Brasil, que ainda não tem uma indústria consolidada. Porque se até para o Glauber é difícil, imagina para tantos outros cineastas.”

A previsão da equipe de restauração é que os primeiros resultados estejam prontos até o fim do primeiro semestre de 2026. A partir de 2027, a ideia é que os filmes integrem mostras especiais pelo país e, posteriormente, sirvam de base para novas produções voltadas ao streaming — ampliando a circulação da obra de Glauber Rocha e levando seu legado a novas mídias e gerações.

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