Crítica: “O Bom Gigante Amigo” é fantasia infantil tocante, mas morna
Novo filme de Spielberg adapta livro de Roald Dahl sobre a amizade improvável entre uma órfã e um gigante
atualizado
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O sentimentalismo de “O Bom Gigante Amigo”, filme que marca a primeira colaboração de Steven Spielberg com os estúdios Disney, parece estar mais no entorno do que na realização. O cineasta adapta o livro homônimo do inglês Roald Dahl, publicado em 1982. Mesmo ano de “E.T. – O Extraterrestre”, um clássico sobre a infância. Nos créditos finais, o autor dedica a obra a Melissa Mathison, roteirista de “E.T.” que faleceu no fim de 2015.
A garotinha Sophie (Ruby Barnhill) representa o que existe de mais íntimo no universo Spielberg: uma órfã solitária que prefere o mundinho fantástico dos livros à companhia de adultos e crianças. Uma noite, a curiosa menina entrevê um gigante caminhando pelas ruas de Londres. Ele percebe e precisa tomar medidas drásticas: capturar a observadora e levá-la para a terra dos gigantes.
Construída por meio da motion capture, técnica que lê e converte os movimentos de um ator em traços de animação, a criatura é interpretada por Mark Rylance, vencedor do Oscar 2016 de melhor coadjuvante pelo trabalho no filme anterior de Spielberg, “Ponte dos Espiões” (2015).
Com todos esses elementos em mente, é de se estranhar que “BGA”, abreviação do título original “BFG” (“Big Friendly Giant”), pareça um filme tão morno e distante. As relações mais óbvias trazem à tona as tantas crianças solitárias e desconfiadas de outros dramas infantis do cineasta, como “E.T. – O Extraterrestre” (1982) e “Império do Sol” (1987).
Uma fábula tocante, mas distante
No filme, essas referências surgem como miragens. A trama principal tanto constrói a amizade entre Sophie e o BGA quanto revela um conflito que ameaça a vida dos dois. Os outros 9 gigantes que moram na ilha adoram devorar humanos. São sujeitos rudes, grosseiros e violentos. Os novos parceiros colaboram com o que têm: a criatura com seu tamanho, a menina com sua coragem.
A historinha parece envolvente, mas se arrasta na maior parte do tempo em trechos expositivos e morosos. Um filme doido para agradar na marra e que nunca consegue encontrar uma voz própria. Outros aspectos essenciais à narrativa também parecem incapazes de animar o texto – até a trilha sonora de John Williams, maior colaborador do cineasta, soa estranhamente sonolenta.
Quando Spielberg consegue dar um tempo na trama, entrega alguns momentos graciosos: o Gigante caçando e fabricando sonhos e pesadelos, uma hilária cena de banquete na residência oficial da Rainha da Inglaterra, as brincadeiras visuais com as diferentes escalas do filme – o BGA é um nanico na comparação com seus conterrâneos.
Sobra apuro técnico, mas falta aquele senso de aventura e melancolia tão presente nos bons filmes recentes do diretor, como “Cavalo de Guerra” (2011).
Avaliação: Regular
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