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A obra do poeta Pablo Neruda é tão densa e complexa que o chileno Pablo Larraín se esquivou de fazer uma biografia convencional. O cineasta optou por uma abordagem inventiva e sensorial, captando a inquietação política e o comportamento hedonista. O resultado é, nas palavras do próprio diretor, uma “antibiografia”.

“Neruda” é um filme peculiar na narrativa e na criação. Mistura fábula com fatos reais, conduzindo o público para dentro de uma ficção dentro da ficção, em um enredo intricado de romance policial.

No final dos anos 1940, o senador Neruda (Luis Gnecco) é cassado pelo governo por suas convicções comunistas. O fato dá início a uma perseguição implacável que o levará a viver na clandestinidade até o exílio na França.

Enquanto a vista da Torre Eiffel não é uma realidade, o bardo corta o país e vive de esconderijo em esconderijo, tendo em seu encalço o inspetor Óscar Peluchonneau — Gael García Bernal em atuação elegante. “Não vou ser um personagem secundário nessa história”, diz o policial.

Alegoria da criação
O que encanta na trama labiríntica de “Neruda” — indicado a um Globo de Ouro e candidato do Chile ao Oscar de filme estrangeiro — é o duelo delicioso entre realidade e a alegoria da criação proposto pelo jovem diretor Pablo Larraín.

Afinal, Peluchonneau existiu ou não passa de mera invenção literária? Esses acontecimentos específicos narrados no filme envolvendo o Nobel de Literatura de 1971 aconteceram ou são apenas um delírio de imagem do autor em seu discurso?

Filho de pai senador e mãe ministra de direita, Larraín, diretor de dramas pungentes sobre o sombrio passado político de seu país — como “Tony Manero” (2008) e “No” (2012) —, cria aqui, para deleite dos amantes do cinema, um belo exercício de invenção narrativa. Um inusitado recorte de um símbolo da poesia mundial que sabia encantar tanto as massas de trabalhadores, como as mulheres.

Avaliação: Ótimo

Veja horários e salas de “Neruda”.

 

 

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