Crítica: Cemitério Maldito arrisca atualizar livro de Stephen King

Nova adaptação chega 30 anos depois da primeira versão lançada nos cinemas. No terror, uma família é assombrada pelo luto

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atualizado 09/05/2019 17:37

Cemitério Maldito (Pet Sematary, em inglês), um dos livros mais populares de Stephen King, retorna aos cinemas 30 anos depois da primeira adaptação. E as diferenças não poderiam ser mais gritantes.

Enquanto o filme de 1989 – um bom terror, mas nada além disso – teve roteiro do próprio escritor, o que garantiu fidelidade quase total às páginas, a nova versão propõe um rearranjo um tantinho arriscado da história original.

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Assombro em família: o que era para ser uma mudança rumo à tranquilidade do interior vira um catálogo de tragédias domésticas

 

Sob direção da dupla Kevin Kölsch e Dennis Widmyer, a obra de King é reformatada para se parecer com outros exemplares do terror contemporâneo: menos atmosfera – algo que exige um mínimo de apuro na condução das atuações e do ritmo da narrativa – e mais sustinhos (os tais jump scares), esses facilmente realizados com rodopios de câmera e um par de violinos estridentes.

Em miúdos, dilui-se o peso psicológico que se abate sobre uma família recém-chegada ao interior do Maine. O livro se desenrola como uma intensa reflexão alegórica a respeito dos perigos (sobrenaturais) do luto reprimido, da negação aos horrores da vida comum, às nossas inevitáveis desgraças. Podem existir coisas bem piores do que a morte pura e simples.

 

Louis Creed (Jason Clarke), médico de Chicago, larga o caos da cidade grande para assumir o cargo de responsável pelo hospital universitário da pequena cidade de Ludlow. A família vai junto: Rachel (Amy Seimetz), sua mulher, e os filhos, Ellie (Jeté Laurence) e Gage (Hugo e Lucas Lavoie).

A casa para onde se mudam, porém, dá para uma rodovia movimentada por caminhões que passam por ali a toda. Do outro lado da rua, mora Jud Crandall (John Lithgow), um senhor solidário, mas falastrão.

Se há uma coisa em que Kölsch e Widmyer acertam é na caracterização do cemitério de animais de estimação, um lugar exótico praticamente no quintal da residência dos Creed. Quando o gatinho da família, Church, aparece morto, Crandall mostra a Louis que existe um outro refúgio para os mortos, um nível acima daquele frequentado por crianças e seus animaizinhos sem vida.

Um cemitério indígena que, de tão sinistro, afastou os próprios índios da região. Tudo que é ali enterrado volta à vida por ação do espírito Wendigo. Mas nada será como antes. Ninguém retorna do além ileso. Adivinha o que acontece quando alguém da família morre por acidente?

Se o máximo de criatividade alcançado pela direção são reles piscadinhas ao filme original – tendão de Aquiles cortado, por exemplo –, o roteiro de Jeff Buhler, a partir da versão elaborada por Matt Greenberg, só compromete ainda mais o projeto.

As mudanças em relação ao livro tentam intensificar o que já soa óbvio – a família, em especial Rachel, tem sérios problemas para lidar com a ordem natural das coisas – e criar saídas “surpreendentes” para quem já conhece o desfecho. No fim das contas, temos mais um decalque do que uma adaptação bem pensada de uma das histórias mais intimistas de King.

Avaliação: Regular

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