Crítica: “Blow-Up – Depois Daquele Beijo” é um ensaio instigante
A produção, do italiano Michelangelo Antonioni, reflete sobre uma efervescente Londres dos anos 1960
atualizado
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Reza a lenda que o Velvet Underground faria pequena ponta no filme do cineasta italiano Michelangelo Antonioni, “Blow-Up – Depois Daquele Beijo”. Mas o “dono” do grupo, Andy Warhol, não gostou da ideia e vetou o convite. Então, os dois guitarristas do Yardbirds, Jimmy Page e Jeff Beck, assumiram a vaga e quase roubaram a cena do protagonista David Hemmings, tocando em uma cena icônica nos minutos finais da fita.
Verdade ou não, o fato é que esse episódio ilustra um dos vários folclores em torno desse clássico cinquentão do cinema. Para celebrar a data, uma cópia restaurada da obra ganha projeção na cidade a partir desta quinta-feira (8/12). Baseado no conto “Las Babas Del Diabo” (1959), de Julio Córtazar, o filme é o primeiro projeto de Antonioni em inglês. Os outros seriam “Zabriskie Point” (1970) e “Profissão: Repórter” (1975), esse último protagonizado por Jack Nicholson.Antonioni é talvez o mais “estrangeiro” de todos os cineastas da fase de ouro do cinema italiano (entre os anos 1950 e 1960). Em “Blow-Up”, ele realiza um instigante e elegante ensaio sobre o comportamento dândi da efervescente Londres — com todas as loucuras em torno do sexo livre, o vazio da moda com suas sensuais minissaias e as drogas.
Nas entrelinhas, aparece uma discussão pertinente e atual sobre o fascínio pela imagem e — a partir desta obsessão —, o que é real ou não. Afinal, foi assassinato ou só uma miragem o que as lentes do esnobe fotógrafo Thomas (Hemmings), registraram naquele parque? Cabe ao espectador decifrar o enigma. “Não, não nos conhecemos! Você nunca me viu”, comenta a personagem de Vanessa Redgrave, pivô de toda a confusão “ilusória”.
As sofisticadas sutilezas de Michelangelo Antonioni surgem, por exemplo, entre uma cena e outra, na associação oportuna dos pigmentos das fotos ampliadas (blow-up) com os detalhes da textura de uma tela. Aliás, a figura do fotógrafo aqui surge como uma espécie de artista renascentista em pleno êxtase de sua atividade. É o que todos nós somos, quando enfeitiçado pelo prazer inebriante da arte, certo?
Avaliação: Excelente
