Assunto de Família, novo filme do diretor japonês Hirokazu Koreeda, narra experiências cotidianas de personagens às margens do progresso capitalista.

Em Tóquio, mãe, pai, tia, vovó e duas crianças não compartilham laços de sangue, mas vivem juntos, dividindo refeições, a cama onde dormem e, sobretudo, frutos de pequenos furtos em mercados, mercearias e lojas de roupas. Sobrevivem e, quando possível, se divertem, amam, gargalham, celebram.

Queridinho do Festival de Cannes – Koreeda é habitué da croisette desde 2001 –, o cineasta finalmente levou a Palma de Ouro após variadas indicações. A consagração mira justamente em, talvez, seu filme mais sóbrio.

Koreeda sempre foi um diretor de histórias de famílias, com relatos apegados a sentimentos diversos, das dores às alegrias. Assunto que repete sua já conhecida discrição e naturalidade – herança do mestre Yasujiro Ozu – ao tratar da individualidade de cada personagem. É aí que o elenco brilha mais do que a direção singela do autor.

Osamu (Lily Franky), o pai, e Nobuyo (Sakura Andô), a mãe, têm empregos na construção civil e numa lavanderia, mas o sustento vem dos já citados golpes em comércios locais.

A dinâmica da casa, já habitada por Aki (Mayu Matsuoka), modelo de uma boate voltada para os prazeres masculinos, pelo garotinho Shota (Kairi Jō) e pela anciã Hatsue (Kirin Kiki), ganha novos contornos quando eles decidem acolher Yuri (Miyu Sasaki), garotinha abandonada pelos pais.

Apesar de uma aparente conveniência – afinal, torna-se mais fácil sobreviver em grupo do que sozinho –, as relações humanas entre os membros da família vão muito além disso. A comunicação se revela sempre íntima e direta, sobretudo quando eles precisam surrupiar roupas e frutas.

Koreeda preserva um olhar de observação até a meia hora final, quando o filme finalmente passa a jogar mais francamente com as emoções contidas dispostas ao longo dos 90 minutos anteriores.

Assunto de Família não é nenhuma obra-prima – nem o melhor do diretor –, mas merece atenção por usar um tema típico do cinema contemporâneo – a pobreza nas grandes cidades – e tratá-lo sem romantizações exageradas ou fatalismos preguiçosos.

Avaliação: Bom