Crítica: apesar do ranço televisivo, "Vidas Partidas" traz tema pertinente
Domingos Montagner protagoniza o filme, no papel de um marido que aos poucos revela a personalidade dominadora e possessiva

Nos anos 1940, o ator e galã Ray Milland era o genro que toda mãe queria ter. Mas, cínico que era, o cineasta Billy Wilder não perdoou. Para provocar, escalou o astro para encarnar um bebum de primeira no polêmico filme “Farrapo Humano”. Foi um choque,, porque ninguém queria ver um dos rostos mais belos do cinema num papel hostil, mas Milland não fez de rogado. Não só topou o desafio, como arrebatou um Oscar de melhor ator por sua atuação visceral.
Um dos protagonistas da novela Global “Velho Chico”, Domingos Montagner, que começou a carreira nos picadeiros, como palhaço, também tem carisma e simpatia de sobra para não radicalizar e espantar seus fãs com atuações tão grotescas assim. Mas acontece que o desafio falou mais alto e lá está ele na pele do antipático personagem de “Vidas Partidas”, que tem como tema a violência doméstica.
De sedutor a dominador
Recife. Anos 1980. No filme, ele é Raul. Um marido que se mostra sedutor e completo na cama – é o que mostra as tórridas cenas iniciais da fita –, mas aos poucos vai revelando uma persona perversa e patológica. Dominador, ele se sente ameaçado pela mulher (Naura Schneider), independente e esbanjando vigor no auge de sua beleza como mulher. Para piorar as coisas, ele está desempregado e é ela quem consegue um trabalho. Ciúme + machismo.
“O que você teve que fazer para conseguir esse emprego”, ironiza.
Assim, como num processo de camadas psicológicos, lento e gradual, os dramas desse casal da vida comum vão do ciúme à violência sádica, culminando num estranho caso policial quando um assalto, em março de 1982, a deixa paralítica. O que o público vai descobrir mais tarde, se tratar de um crime premeditado.
Esquema melodramático televisivo
Com direção de Marcos Schechtman, diretor de novelas estreando no cinema, “Vidas Partidas”, infelizmente, se perde no esquema melodramático televisivo. Normal. É o tal do ranço. É como os diretores de propaganda que vão para trás das câmeras de cinema e não conseguem se desvincular do estilo pomposo de suas peças publicitárias.
Mas se você conseguir bloquear tal deslize narrativo, perceberá a importância sintomática do tema, tendo em vista que a Lei Maria da Penha completa agora em agosto 10 anos de existência e a situação para as mulheres não parece ter melhorando tanto. Ou quase nada. Tanto que o enredo do filme parece ter sido construído a partir de um mosaico ou síntese de vários casos do gênero.
No que diz respeito ao clima, há bons momentos de suspense no filme norteado por trilha sonora envolvente. Também por tomadas de câmeras surpreendentes, como aquela em que foca a fuga dos amantes à beira mar. Uma pena que o desfecho desse romance será perturbador.
Avaliação: Regular
Veja salas e horários de “Vidas Partidas”


