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Cinema

Crítica: Alguém Como Eu reúne tudo de ruim das comédias românticas

Da protagonista sofrendo por estar solteira ao amigo gay acessório, o filme nacional parece um checklist de clichês dos anos 1990

Clara Campoli24/05/2018 05:30, atualizado 23/05/2018 21:16
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Paris Filmes/Divulgação
Crítica: Alguém Como Eu reúne tudo de ruim das comédias românticas

Uma mulher na casa dos 30 anos, bonita, bem-sucedida, rica, cercada de amigos, moradora de um palacete em uma das maiores cidades de seu país, Portugal. Só há um problema: ela não consegue encontrar um homem que a ame, e isso suga toda sua autoestima. Poderia ser qualquer comédia romântica passada na Nova York da década de 1990, mas esta é a premissa de Alguém Como Eu, longa de Leonel Vieira com Paolla Oliveira e Ricardo Pereira no elenco.

Na tentativa de fazer uma comédia romântica, o roteiro escorrega em grandes clichês que simplesmente não funcionam mais. É inacreditável uma mulher como Helena, a protagonista vivida por Paolla, ter comportamentos absurdos como passar dias a fio chorando por causa de um homem praticamente desconhecido, ou ligar para o amigo gay pedindo conselhos de roupa. O figurino desenhado para a atriz em todo o filme é tão estiloso e bem resolvido que fica difícil acreditar numa dúvida real sobre roupas e looks.

Fred (Arlindo Lopes), o amigo gay, talvez seja o maior dos arquétipos ruins da produção. Como a maioria dos homossexuais retratados em comédias românticas dos anos 1990, ele não tem família, vida pessoal ou profissional: vive para aconselhar e acalmar a amiga. O pior é o ator protagonizar uma das cenas mais infelizes do filme: quando Helena, ao telefone, reclama com o amigo sobre a solidão em Portugal. Nesse momento, ao ver um homem negro passar na rua – um dos poucos não brancos da produção –, ele faz a mais repugnante das perguntas: “Não é aí que tem um monte de africano?”.

Outro imenso problema do filme é a publicidade descarada dos patrocinadores. A companhia aérea pela qual a mocinha viaja, uma famosa franquia carioca de mate, outra ainda mais reconhecida produtora de cerveja… tudo passa longe da sutileza. Aliás, o consumo é parte crucial da narrativa do longa: se Helena não está chorando por um homem, está fazendo compras.

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Fred, o amigo de Helena, só existe para acalmar a protagonista e não tem vida própria: um desserviço à comunidade gay
No filme, toda tensão se resolve com compras: marcas bastante aparentes nos takes
A oração maldita cria uma narrativa de loucura para a mulher insatisfeita no relacionamento
A versão feminina de Alex poderia ter sido uma boa saída, mas só serviu para reforçar estereótipos lesbofóbicos
Helena e sua amiga, Júlia: homens são o único assunto entre as duas
Helena e Alex são um casal como qualquer outro: o relacionamento começa quente, depois esfria e eles não sabem lidar com isso
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Paris Filmes/Divulgação
Fred, o amigo de Helena, só existe para acalmar a protagonista e não tem vida própria: um desserviço à comunidade gay
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Fred, o amigo de Helena, só existe para acalmar a protagonista e não tem vida própria: um desserviço à comunidade gay

Paris Filmes/Divulgação
No filme, toda tensão se resolve com compras: marcas bastante aparentes nos takes
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No filme, toda tensão se resolve com compras: marcas bastante aparentes nos takes

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A oração maldita cria uma narrativa de loucura para a mulher insatisfeita no relacionamento
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A versão feminina de Alex poderia ter sido uma boa saída, mas só serviu para reforçar estereótipos lesbofóbicos
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Paris Filmes/Divulgação
Helena e sua amiga, Júlia: homens são o único assunto entre as duas
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Paris Filmes/Divulgação
O pôster do filme
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O pôster do filme

Paris Filmes/Divulgação

Narrado pela protagonista, o filme tem um roteiro extremamente preguiçoso, ao ponto do voice over adiantar inúmeras reviravoltas que teriam sido muito melhor saboreadas sem o spoiler. Outra falha técnica é a passagem do tempo. Ao fazer travellings incansáveis pela janela do apartamento onde Helena vive em Portugal, a edição aproveita para indicar quantos meses se passaram desde sua mudança à Europa.

Alguém Como Eu se concentra na narrativa de uma imigrante que, entediada com a passagem do tempo num relacionamento, passa a imaginar o namorado como uma mulher. Poderia ter suscitado reflexões sobre a bissexualidade, mas o filme apenas reforça estereótipos de gênero, raça e sexualidade: Helena, ao conversar com uma amiga sobre a persona feminina do namorado, pergunta se ela já havia “beijado uma mulher como se fosse homem”.

A relação de Helena só melhora quando ela passa a ver o amado como uma mulher: o sexo é mais ardente, os pequenos gestos amorosos tornam-se mais frequentes e a namorada é a pessoa mais atenciosa com quem a protagonista se relacionou na vida. Ainda assim, ela confessa preferir as desatenções e o desapego do homem que a fazia tão infeliz. O tipo de conclusão que, assim como nas divertidas comédias românticas estreladas por Julia Roberts e Meg Ryan, deve ficar guardada no humor e nas concepções dos anos 1990.

Avaliação: Ruim