Crítica: A Árvore dos Frutos Selvagens é crônica sobre Turquia de hoje

O premiado diretor Nuri Bilge Ceylan usa personagem aspirante a escritor para debater a condição humana em um país instável

Fênix Filmes/DivulgaçãoFênix Filmes/Divulgação

atualizado 05/07/2019 19:05

A Árvore dos Frutos Selvagens, novo filme do premiado diretor turco Nuri Bilge Ceylan, acompanha as andanças do jovem Sinan (Dogu Demirkol) em seu retorno à terra natal. Ao contrário da maioria de seus conhecidos da aldeia, ele saiu do interior para estudar. Mas, uma vez fora da faculdade, está desempregado e tenta emplacar a publicação de seu primeiro livro ao voltar à cidade de Çan. As dívidas do pai, metido em apostas de corridas de cavalos, vão tornar tudo mais difícil para o aspirante a escritor.

Vencedor da Palma de Ouro, prêmio máximo do Festival de Cannes, por seu filme anterior, Sono de Inverno (2014), Ceylan, de 60 anos, figura como nome de respeito no cinema contemporâneo. Dos oito longas que dirigiu, incluindo A Árvore, seis passaram na mostra principal do evento francês, acumulando prêmios. Seu primeiro curta, Koza (1995), também foi exibido por lá.

Encontros

Famoso por planos longos, de diálogos “em tempo real”, sem cortes bruscos, e pelo uso de fotografia naturalista, com locações de cores e temperaturas diversas, o diretor agora volta suas lentes a um realismo de fundo literário para comentar a Turquia atual: instável, em crise financeira e política. Um cenário que, todos sabemos, costuma penalizar quem pretende viver de arte e cultura.

Ceylan divide o roteiro com sua esposa, Ebru, habitual colaboradora, e o autor estreante Akin Aksu. Apesar de se estender por pouco mais de três horas de duração, o filme é de estrutura simples, praticamente capitular.

O longa se constrói a partir de encontros do protagonista com diferentes tipos que habitam Çan. Da moça por quem foi apaixonado, e hoje parece fadada a uma modorrenta vida doméstica, ao prefeito da cidade, que se recusa a financiar um livro sem fins turísticos ou laudatórios sobre a região. Sinan define seu manuscrito como um metarromance de autoficção.

Um empresário da construção civil, também procurado pelo autor, é outro que não entende por que o jovem simplesmente não escreveu algo, digamos, mais “útil”, sobre a história da cidade, seus mártires e heróis.

Visual belíssimo, narrativa claudicante

Se a fotografia de espaços abertos atrai o olhar do espectador em busca de beleza visual, a narrativa não conjuga interesse semelhante. O percurso do personagem e suas conversas soam, por vezes, esquemáticas. Sobram temas em discussão – religião, tradição, cotidiano no interior, política, trabalho –, mas poucos deles exibem, de fato, um ar pensante, literário, denso.

Nada contra a longa duração de um filme. O filipino Lav Diaz e suas obras com mais de quatro horas estão aí para relativizar metragens padrões. Mas, no caso de A Árvore dos Frutos Selvagens, as cenas dilatadas jogam contra o potencial de crônica social com viés particular que o filme propõe.

Certas passagens, como o debate com um escritor consagrado e experiente, perdem força em meio a digressões pouco produtivas, a exemplo das cenas sobre a religião muçulmana. Esse ar temático totalizante, em seus piores momentos, chega a lembrar os longas (grandiosos e ocos) do russo Andrey Zvyagintsev (Sem Amor, Leviatã). Um filme de superfície belíssima, mas de ritmo vacilante.

Avaliação: Regular

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