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Quinzenalmente, às quintas, o Cine Cleo reúne-se em Brasília para exibir somente filmes feitos por diretoras brasileiras. São longas e curtas que nem sempre chegam ao circuito, mas representam vozes artísticas e sociais frequentemente excluídas das salas de cinema convencionais.

“Temos equipe formada só por mulheres”, diz Natália Pires, uma das 10 integrantes do coletivo, composto em sua maioria por jovens do meio audiovisual. “Foi uma ideia para fortalecer nossa própria cabeça”, continua.

O nome do grupo faz reverência e referência a Cleo de Verberena, primeira mulher a dirigir um filme no Brasil – O Mistério do Dominó Preto (1931). As sessões acontecem na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, no Conic, espaço fundado pela atriz fluminense radicada em Brasília. Com entrada gratuita, títulos independentes revelados em festivais e mostras alimentam debates e conversas.

 

As atividades do cineclube começaram em outubro de 2017, mês em que estouraram denúncias de assédio sexual e estupro envolvendo o produtor norte-americano Harvey Weinstein. Centenas de outras mulheres contaram seus relatos. Semanas depois, surgiram movimentos que passaram a canalizar essas vozes no mundo inteiro, como #TimesUp e o #MeToo.

À época, as redes sociais no Brasil já viviam momento “efervescente”, segundo Isabelle Araújo. “Tínhamos a hashtag #meuamigosecreto. Muita gente tinha um nó na garganta, querendo espaço de fala. E o cinema também é um espaço. Nossa ideia é dar visibilidade para filmes de mulheres que acabam não tendo muita circulação”, explica.

Estudantes do Dulcina e gente do audiovisual figuram entre os frequentadores do Cine Cleo, mas curiosos também marcam presença. “Estamos numa área central da cidade e queremos promover acesso para pessoas que, de outra maneira, não teriam acesso a esses filmes. Elas têm a chance de se reconhecerem nos filmes”, aponta Bianca Novais.

As exibições eram organizadas na sala Conchita, nos fundos do Dulcina, desde outubro. Mas, em fevereiro, o cineclube e a faculdade sofreram um furto. Foram levados equipamentos do teatro e de companhias. O Cleo ficou sem projetor, tela e som. “Levaram até uma mesa de som desenhada pela própria Dulcina”, lamenta Natália.

O cineclube, porém, segue firme, mesmo com recursos discretos. É patrocinado pelo FAC (Fundo de Apoio à Cultura) e completa sua primeira temporada em agosto de 2018. Aos poucos, o coletivo tenta ampliar os horizontes: trazer diretoras de fora de Brasília para o debate, representantes de movimentos sociais e abrir a curadoria para filmes internacionais.

O conceito do Cleo é trafegar por tópicos importantes, mas fugir do lugar-comum. Em janeiro, por exemplo, o assunto foi maternidade, com os filmes Olmo e a Gaivota, Buscando Helena e O Lençol Branco puxando a discussão. “Mas subvertemos a maneira como se fala sobre o tema. Falamos sobre luto, perda de liberdade. Não queremos ficar no óbvio, mas desafiar certos paradigmas”, conta Glênis Cardoso.

A próxima sessão vai combinar certinho com o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, que neste ano cai numa quinta. “Será sobre como a mulher é retratada pela mídia. Um dos filmes é Cores de Botas, de Juliana Vicente. Nele, uma menininha negra não entende por que ela não pode ser paquita, o que ela mais quer ser”, adianta. Câmara de Espelhos, de Dea Ferraz, e Autópsia, de Mariana Barreiros, completam o programa.