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Diretores de curtas-metragens e do longa Trabalhar Cansa (2011), Juliana Rojas e Marco Dutra voltam a trabalhar juntos em As Boas Maneiras, em cartaz nos cinemas. Com grandes atuações e uma mistura de fábula e crítica social, o filme acompanha as experiências de mãe (Marjorie Estiano) e babá (Isabél Zuaa) de uma criança como nenhuma outra.

Desde o terror suburbano, cada um fez seus próprios filmes. Ela rodou um musical de coveiros e cadáveres em Sinfonia da Necrópole (2014), enquanto ele narrou repercussões de um estupro (O Silêncio do Céu, 2016) e segredos sinistros de família (Quando Eu Era Vivo, 2014). As experiências solo deram segurança para que os dois arriscassem um voo mais ambicioso em As Boas Maneiras.

 

Caprichados efeitos visuais, animatrônica e maquiagem ajudam a ambientar a história em uma São Paulo mágica, como definem os diretores. A produção atraiu mais de 20 prêmios em festivais ao redor do mundo entre 2017 e 2018. Ano passado, venceu troféu especial do júri em Locarno (Suíça) e foi o grande vencedor da Première Brasil, no Rio de Janeiro.

Leia entrevista com Juliana Rojas e Marco Dutra, autores de As Boas Maneiras:

Juliana e Marco, vocês fizeram filmes solo (Sinfonia da Necrópole, O Silêncio do Céu e Quando Eu Era Vivo) antes de voltarem a dirigir um longa juntos. De que maneira essas experiências colaboraram para a realização de As Boas Maneiras? O que cada um trouxe de novo para o
filme?

Todo filme é um processo intenso de aprendizado, então é impossível saber como seria As Boas Maneiras se o tivéssemos dirigido logo depois de Trabalhar Cansa. Por outro lado, estamos trabalhando no filme há muitos anos, concomitantemente aos outros projetos. Este tempo de escrita e de financiamento foi muito importante para As Boas Maneiras crescer em nós e se transformar. Ter feito outros filmes no caminho nos deu segurança para, juntos, arriscarmos bastante neste.

Muita gente tem classificado o filme como terror, mas talvez o gênero mais forte seja a fantasia. Que liberdades o cinema de gênero permite em termos de narrativa?

A fantasia é muito libertadora porque nos permite criar um mundo com regras e feições próprias. Ao mesmo tempo, precisamos entender estas regras e também os nossos motivos para inventá-las. Gostamos de falar de temas e universos reconhecíveis fazendo uso de elementos fantásticos, então é importante entendermos o que a fantasia revela sobre o real.

Os filmes de vocês dialogam muito com a vida urbana, muitas vezes servindo como alegoria da experiência das pessoas que habitam uma metrópole. Qual era a intenção de vocês ao contar a história de uma criança com poderes especiais?

Queríamos fazer um filme sobre a formação de uma família estranha para explorar os diversos laços afetivos que as personagens criam entre si. É um filme sobre amor, seja ele passional ou maternal. Joel é, de certa forma, uma criança como as outras, num processo de descoberta de sua identidade e dos seus desejos. Sua metamorfose representa uma dualidade que está presente na maioria de nós: um conflito interno entre desejo e repressão, entre impulso e bom comportamento.

Vejo no filme uma relação muito intensa com a experiência de quem vive à margem na sociedade, dos excluídos. Esse tipo de crônica é muito próprio da fantasia. Que atmosfera vocês quiseram dar à narrativa de As Boas Maneiras?

Sua percepção ecoa em nós: sempre vimos os personagens do filme como párias, cada um à sua maneira. Para nós, As Boas Maneiras é um conto de fadas moderno, que lida com questões morais sem chegar a uma moralidade limitadora ou castradora. As personagens lidam com suas próprias contradições e dualidades na tentativa de encontrar uma forma de resistir a pressões externas e imposições sociais.

Fazendo uma comparação com os outros filmes de vocês, acreditam que este foi o mais bem realizado? O que vocês conseguiram fazer aqui que não tinha sido possível nos trabalhos anteriores?

Temos muito carinho por todos os filmes que realizamos. As Boas Maneiras é uma produção maior do que Sinfonia da Necrópole e Quando Eu Era Vivo, mas também nestes filmes investimos a mesma carga afetiva. Ter agora mais recursos e a possibilidade de uma coprodução com a França nos ajudou
bastante por causa das demandas próprias da história.

Rui Poças/Divulgação

A São Paulo de Rojas e Dutra: desenhos do brasileiro Eduardo Schaal e fotografia do português Rui Poças

 

Por outro lado, um dos nossos próximos filmes, Todos os Mortos (a ser dirigido por Marco e por Caetano Gotardo e montado por Juliana), tem orçamento bem menor, mas suas necessidades são também completamente diferentes. Tudo depende das necessidades específicas de cada projeto.

As Boas Maneiras tem tanto efeitos especiais quanto um elenco de grandes interpretações. Qual desses elementos foi o mais desafiador para vocês durante a produção?

Os efeitos visuais foram um grande desafio pelo seu caráter múltiplo: trabalhamos com matte paintings à moda antiga, com efeitos de animatrônica e de maquiagem e com efeitos digitais – uma empresa brasileira e duas francesas ao todo.

Algo que me chamou a atenção foi a maneira muito particular com que vocês filmaram São Paulo. Como é tentar trazer para a tela e para a história uma cidade pessoal, autêntica e ao mesmo tempo reconhecível?

Foi muito prazeroso encontrar a nossa versão mágica de São Paulo. Quando decidimos usar matte paintings ao longo de todo o filme, trouxemos a bordo o artista brasileiro Eduardo Schaal. Ele desenhou todos os horizontes, prédios, luas e nuvens que vemos através das janelas e ao fundo dos planos.

Nós queríamos partir de elementos reais como o rio Pinheiros, as pontes sobre ele e o Shopping Eldorado e transformá-los para que fizessem parte de nossa fantasia, mas sem perder a conexão com a cidade que conhecemos e habitamos.