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A carta de despedida do marido de Ney Matogrosso, morto pelo HIV

Em carta de despedida, ex-companheiro de Ney narra os últimos dias de vida antes de morrer por complicações do HIV, em 1993

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Ney Matogrosso e Marco de Maria
1 de 1 Ney Matogrosso e Marco de Maria - Foto: Reprodução/Instagram

O lançamento do filme Homem com H, que retrata a trajetória de Ney Matogrosso, reacendeu o interesse do público pela trajetória intensa e marcante do artista. Entre os muitos capítulos, um dos mais dolorosos foi o período da epidemia de HIV entre as décadas de 1980 e 1990, quando Ney perdeu amigos e amores para a doença.

Entre essas perdas, uma das mais profundas foi a do médico Marco de Maria, um de seus grandes amores, que morreu aos 32 anos após uma longa luta contra a Aids. Mesmo separados, os dois mantinham uma relação de afeto, e Ney o acompanhou até os últimos instantes.

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Jesuíta Barbosa (Ney Matogrosso) e Bruno Montaleone (Marco de Maria) nos bastidores de Homem com H
Marco de Maria, médico que foi casado com Ney e morreu em decorrência do HIV
Ney Matogrosso  em 1976
Ney Matogrosso na juventude
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Marco de Maria, marido de Ney Matogrosso, e Bruno Montaleone, que intepretou-o em Homem com H

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Jesuíta Barbosa (Ney Matogrosso) e Bruno Montaleone (Marco de Maria) nos bastidores de Homem com H

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Marco de Maria, médico que foi casado com Ney e morreu em decorrência do HIV

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Ney Matogrosso em 1976

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Ney Matogrosso na juventude

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Após passar uma temporada com o irmão, Mauro, e Ney em Praia Grande, Marco deixou cartas que registravam seus últimos sentimentos. Os escritos são mencionados na biografia Matogrosso — A Biografia (Companhia das Letras) e revelam a força do sentimento entre eles.

“Saudade do tempo em que eu era possibilidade, o mar era possibilidade, minhas fantasias eram possibilidade, e eu era livre. Agora vejo a amendoeira, não mais a que eu subia, mas uma amendoeira onde não posso subir e construir cabanas. Vejo um mar tão longe de mim e das minhas corajosas investidas de golfinho”, escreveu Marco, já debilitado.

Despedida

A despedida aconteceu na madrugada de 16 de fevereiro de 1993. Marco havia resistido a três paradas cardiorrespiratórias. Ney deitou-se ao lado do amigo e sussurrou sua última mensagem:  “Marco, chega. Não se esforce mais. Você já sofreu muito. O amor da gente continua”, disse. Marco respondeu com um leve movimento de cabeça, antes de partir.

Nas cartas, Marco relembra os últimos dias felizes ao lado de Ney e do irmão Mauro, durante uma temporada em Praia Grande (SP).

“Eu e meu amigo nadávamos e nadávamos, íamos longe nesse mar, éramos levados pelas correntezas e saíamos da água muito longe do lugar onde tínhamos entrado. Íamos os dois, um confiando na confiança do outro, um ancorando o outro”, escreveu. “Que saudade da liberdade!”

No dia seguinte à morte, o corpo do médico foi levado a São Paulo, onde foi cremado, conforme seu desejo. Marco, que tinha 1,80 m de altura, pesava pouco mais de 20 kg quando faleceu.

“Saudade de voltar para casa, fechar as janelas para os insetos não entrarem e dormir feliz. E amanhã cedo acordar para todas as possibilidades”, finalizou a carta.

Leia na íntegra a carta uma das cartas escritas por Marco:

“Saudade de quando o verde penetrante da amendoeira ao sol servia de abrigo para minhas cabanas e minhas fantasias, do tempo em que eu olhava o mar de cima e, de tardezinha, quando o sol não machucava mais, eu e meu amigo nadávamos e nadávamos, íamos longe nesse mar, éramos levados pelas correntezas e saíamos da água muito longe do lugar onde tínhamos entrado. Íamos os dois, um confiando na confiança do outro, um ancorando o outro. Saudade do tempo em que eu era possibilidade, o mar era possibilidade, minhas fantasias eram possibilidade, e eu era livre. Agora vejo a amendoeira, não mais a que eu subia, mas uma amendoeira onde não posso subir e construir cabanas. Vejo um mar tão longe de mim e das minhas corajosas investidas de golfinho. O tempo me vendo passar, e o espaço pequeno demais para aventuras reais. Os amigos cada vez mais distantes, os dias menos excitantes e sem a bicicletinha que se impregnava de areia salgada das praias que eu e meu amigo costumávamos visitar! Não há mais vento noroeste que impedia a gente de andar e respirar; não há mais para mim microalgas nas noites de lua cheia nem banhos de mar em água morna dos verões em que eu pulava a janela de madrugada e corria para a praia; e nos temporais eu corria na chuva julgando aquele o ato de maior liberdade para qualquer ser. Que saudade da liberdade! E depois da chuva, procurar cobras nos montes de mato que a maré devolvia e procurar algo muito precioso que o tempo poderia me ofertar. Saudade de voltar para casa, fechar as janelas para os insetos não entrarem e dormir feliz. E amanhã cedo acordar para todas as possibilidades.”

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