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Enquanto isso na sala de justiça

A advogada que lutou em causa própria pela vida

“Sua cliente está então com câncer e o plano recusa a cobrir a quimio?”, fala a juíza. “Não. Sou eu mesma"

28/05/2017 05:11, atualizado 28/05/2017 13:40
iStock
A advogada que lutou em causa própria pela vida

Quinta-feira final do expediente. Eu já exausta. Vêm me dizer que uma advogada quer falar sobre uma liminar. Rotina. Entra uma advogada jovem, um pouco abatida, o que só vi depois, me chamando atenção como a moça falava e se expressava com extrema habilidade e clareza. Sou boba com essas coisas, gamo na hora.

Fui folheando o processo enquanto a escutava, apenas para não interromper o raciocínio perfeito, pois o que eu tinha para entender já tinha entendido em dois minutos. Plano de saúde, negativa de cobertura. Rotina. “Sua cliente está então com câncer, com metástase, e o plano recusa a cobrir a quimio?”, falo mais para impulsionar a conversa. “Não. Sou eu mesma. Estou em causa própria, doutora.”

Estar sozinha com uma das partes e ela estar suspensa no ar com uma notícia de câncer importante; ouvir sua história sobre a doença e o arranjo dolorido que estava tentando fazer com ela. Não é rotina.

Levei um susto que já sabia que iria virar água no meu rosto em 3, 2, 1… Ela lê meu pensamento e diz que vai acabar chorando, que eu perdoe a sua emoção. Retruco: “só perdoo se você perdoar a minha”, levantando os olhos e mostrando a ela as lágrimas já pingando.

Levanto, fecho a porta da sala, e choramos alguns instantes, uma mão na outra, eu e essa estranha, que na sua falibilidade, nas suas impossibilidades diante de uma doença que levou seu útero, sua chance de ser mãe e agora se espalhava, me era tão conhecida.

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Pedi que esperasse um pouquinho para já sair dali com o que pediu. Não podia fazer (quase) nada por ela, mas dormir algo mais feliz aquela noite, ah, eu podia, e ela iria.

Pedi mais uma coisa: que voltasse para contar que estava curada. Mais choro. Um abraço. É trabalho. É rotina. Mas às vezes não é nada disso.


Gabriela Jardon é juíza do Distrito Federal desde 2005. Formada em Direito pelo UniCeub com mestrado em Direitos Humanos pela Universidade de Essex, na Inglaterra, escreve no Metrópoles todo domingo.