Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Distrito Federal

UnB vence prêmio nacional com projeto em quilombo centenário do DF

Projeto Karambu resgata a memória da comunidade que abasteceu candangos na construção da capital, fortalecendo a renda das mulheres

27/07/2026 11:52
Material cedido ao Metrópoles
UnB vence prêmio nacional com projeto em quilombo centenário do DF

O time Enactus da Universidade de Brasília (UnB) conquistou o primeiro lugar em duas categorias do Evento Nacional Enactus Brasil (Eneb) 2026 com o projeto Karambu, desenvolvido com o Quilombo Mesquita. A iniciativa venceu o Prêmio Marqueterie de Comunicação e a categoria do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 10, voltada à redução das desigualdades.

O Eneb é o maior evento da Enactus Brasil, parte de uma organização internacional presente em mais de 30 países que impulsiona o protagonismo universitário por meio do empreendedorismo social. Neste ano, entre 133 times e 176 projetos, o Karambu se destacou pelo impacto direto no coletivo de mulheres da comunidade quilombola.

Durante o diagnóstico realizado com a comunidade, os estudantes identificaram um problema recorrente: o coletivo de mulheres do quilombo produzia cerca de 4 mil ovos caipiras por semana, mas enfrentava dificuldades para comercializar toda a produção, o que gerava desperdício e prejuízos financeiros.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles DF

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters

Para solucionar o problema, o Projeto Karambu atuou em duas frentes:

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DF
  1. Comercialização direta: conectou as produtoras a feiras, universidades e o público. A garantia de compras recorrentes criou uma fonte de renda estável e autônoma.
  2. Economia circular: desenvolveu uma tecnologia de bioinsumo fertilizante que aproveita integralmente os ovos que seriam descartados. O produto é voltado para o enriquecimento do solo e ações de reflorestamento no Cerrado.

Segundo Elisangela, integrante do coletivo de mulheres, a parceria trouxe impactos imediatos. “Foi muito bom, porque quando começou a não escoar mais, tivemos dificuldade para comprar a alimentação das galinhas. Depois que vocês vieram e passaram a comprar os nossos ovos, conseguimos manter a criação, comprar a ração e também utilizar o dinheiro para ajudar na renda da família.”

Esse impacto sustentável garantiu a vitória no ODS 10 (Redução das Desigualdades), além de dialogar com os ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e ODS 12 (Consumo e Produção Responsáveis).

Já a vitória no Prêmio Marqueterie de Comunicação reconheceu o trabalho desenvolvido para registrar e preservar a memória do território. A equipe produziu um acervo composto por fotografias, vídeos, áudios e textos que documentam práticas culturais, saberes ancestrais e a relação da comunidade com o Cerrado.

 

Ver essa foto no Instagram

 

Um post compartilhado por Karambu (@projetokarambu)

Por que trabalhar com o quilombo?

A aproximação entre a Enactus UnB e a comunidade começou após pesquisas sobre comunidades tradicionais do Distrito Federal e Entorno. Durante três meses, estudantes participaram de eventos culturais, realizaram visitas frequentes e conheceram o coletivo de mulheres do Quilombo Mesquita.

A gerente do projeto Karambu e diretora de comunicação da Enactus UnB, Júlia Beda, explicou ao Metrópoles que o grupo percebeu que os desafios da comunidade iam além das questões econômicas. “Tínhamos a certeza de que queríamos trabalhar com o resgate da memória dessa comunidade, que ao longo dos anos foi reduzida a um apagamento histórico que vinha prejudicando sua cultura e território”, contou.

“Conforme caminhamos junto a comunidade, buscamos coletar a partir da escuta, novas informações baseadas em oralidade geracional, entendendo como cada família ali presente, carrega as histórias de participação de seus ancestrais na construção de Brasília e como isso se estrutura dentro de seus costumes”, contou Júlia.

UnB vence prêmio nacional com projeto em quilombo centenário do DF - destaque galeria
7 imagens
Mais do que criar soluções para geração de renda, o projeto busca resgatar a história do Quilombo Mesquita, comunidade que participou diretamente da construção de Brasília, mas cuja contribuição permaneceu, durante décadas, pouco conhecida
Durante três meses, estudantes participaram de eventos culturais, realizaram visitas frequentes e conheceram o coletivo de mulheres do Quilombo Mesquita
O diagnóstico realizado com a comunidade identificou um problema recorrente: o coletivo de mulheres do quilombo produzia cerca de 4 mil ovos caipiras por semana, mas enfrentava dificuldades para comercializar toda a produção
O Karambu passou, então, a facilitar a comercialização direta desses ovos, conectando as produtoras a feiras, universidades e mercados urbanos, o projeto criou uma fonte de renda mais estável para o coletivo
Além disso, a equipe desenvolveu uma tecnologia de bioinsumo fertilizante produzida a partir do aproveitamento integral dos ovos que seriam descartados. O produto é destinado ao enriquecimento do solo e a ações de reflorestamento do Cerrado
O time Enactus da Universidade de Brasília (UnB) conquistou o primeiro lugar em duas categorias do Evento Nacional Enactus Brasil (Eneb) 2026 com o projeto Karambu, desenvolvido com o Quilombo Mesquita
1 de 7

O time Enactus da Universidade de Brasília (UnB) conquistou o primeiro lugar em duas categorias do Evento Nacional Enactus Brasil (Eneb) 2026 com o projeto Karambu, desenvolvido com o Quilombo Mesquita

Material cedido ao Metrópoles
Mais do que criar soluções para geração de renda, o projeto busca resgatar a história do Quilombo Mesquita, comunidade que participou diretamente da construção de Brasília, mas cuja contribuição permaneceu, durante décadas, pouco conhecida
2 de 7

Mais do que criar soluções para geração de renda, o projeto busca resgatar a história do Quilombo Mesquita, comunidade que participou diretamente da construção de Brasília, mas cuja contribuição permaneceu, durante décadas, pouco conhecida

Material cedido ao Metrópoles
Durante três meses, estudantes participaram de eventos culturais, realizaram visitas frequentes e conheceram o coletivo de mulheres do Quilombo Mesquita
3 de 7

Durante três meses, estudantes participaram de eventos culturais, realizaram visitas frequentes e conheceram o coletivo de mulheres do Quilombo Mesquita

Material cedido ao Metrópoles
O diagnóstico realizado com a comunidade identificou um problema recorrente: o coletivo de mulheres do quilombo produzia cerca de 4 mil ovos caipiras por semana, mas enfrentava dificuldades para comercializar toda a produção
4 de 7

O diagnóstico realizado com a comunidade identificou um problema recorrente: o coletivo de mulheres do quilombo produzia cerca de 4 mil ovos caipiras por semana, mas enfrentava dificuldades para comercializar toda a produção

Material cedido ao Metrópoles
O Karambu passou, então, a facilitar a comercialização direta desses ovos, conectando as produtoras a feiras, universidades e mercados urbanos, o projeto criou uma fonte de renda mais estável para o coletivo
5 de 7

O Karambu passou, então, a facilitar a comercialização direta desses ovos, conectando as produtoras a feiras, universidades e mercados urbanos, o projeto criou uma fonte de renda mais estável para o coletivo

Material cedido ao Metrópoles
Além disso, a equipe desenvolveu uma tecnologia de bioinsumo fertilizante produzida a partir do aproveitamento integral dos ovos que seriam descartados. O produto é destinado ao enriquecimento do solo e a ações de reflorestamento do Cerrado
6 de 7

Além disso, a equipe desenvolveu uma tecnologia de bioinsumo fertilizante produzida a partir do aproveitamento integral dos ovos que seriam descartados. O produto é destinado ao enriquecimento do solo e a ações de reflorestamento do Cerrado

Material cedido ao Metrópoles
O projeto está na fase final de validação do bioinsumo e pretende iniciar a comercialização do fertilizante ecológico nos próximos meses, ampliando as possibilidades de geração de renda e de recuperação ambiental no Cerrado
7 de 7

O projeto está na fase final de validação do bioinsumo e pretende iniciar a comercialização do fertilizante ecológico nos próximos meses, ampliando as possibilidades de geração de renda e de recuperação ambiental no Cerrado

Material cedido ao Metrópoles

Quilombo Mesquita

Mais do que criar soluções para geração de renda, o projeto buscou resgatar a história do Quilombo Mesquita, comunidade que participou diretamente da construção de Brasília, mas cuja contribuição permaneceu, durante décadas, pouco conhecida.

Localizado a cerca de 8 quilômetros da atual Cidade Ocidental, próximo a Luziânia (GO), o Quilombo Mesquita forneceu alimentos e apoio logístico aos trabalhadores que ergueram a nova capital.

Segundo o livro Quilombo Mesquita – História, Cultura e Resistência, de Manoel Barbosa Neres, moradores da comunidade abasteciam os candangos com frutas, verduras, doces, leite e derivados.

Um dos principais personagens dessa história foi Sinfrônio Lisboa da Costa, falecido em 2015. Ele participou das primeiras etapas da construção de Brasília e relatou sua experiência em um depoimento gravado pela jornalista Daiane Souza.

“Nós fomos abrir as primeiras cantinas para quando chegassem os candangos. Ficamos um mês trabalhando, bandeirando a área. Fomos os primeiros trabalhadores da construção. Quando terminamos essa etapa, fizemos as repartições — cozinhas, hospedagens e escritórios. Então começaram a chegar os trabalhadores.”

De acordo com registros históricos, Costa também hospedou o presidente Juscelino Kubitschek e o engenheiro Bernardo Sayão em sua casa, transformando o quilombo em um importante ponto de apoio durante a construção da capital.

Luiza Marques do Valle, presidente da Enactus UnB, relata que o resgate histórico foi o ponto de partida de tudo.

“Foi conhecendo essa história que passamos a construir uma relação do projeto com a comunidade. Aliás, esse foi o primeiro passo: entender o passado e conhecê-lo o mais a fundo possível para que pudéssemos começar a construir algo que gerasse valor para o futuro”.

Vindo de Minas Gerais para estudar na UnB, Rhauender Mota, gerente do projeto Recalcário (desenvolvido pelo mesmo time), pontua que não conhecia a comunidade até entrar na organização. “O Karambu me mostrou a importância do quilombo e suas contribuições para Brasília e para os saberes tradicionais”, afirma.

A percepção é compartilhada por Raissa Brito, analista financeira do projeto Karambu. Para ela, o trabalho em campo revelou a profundidade do território quilombola.

“Aprendi que o território vai muito além de um espaço físico: ele faz parte da identidade, da história e da resistência das mulheres da comunidade. Preservar esse território é preservar a herança cultural, a ancestralidade e os saberes transmitidos entre gerações”, ressalta.

Próximos passos

O projeto está na fase final de validação do bioinsumo e pretende iniciar a comercialização do fertilizante ecológico nos próximos meses, ampliando as possibilidades de geração de renda e de recuperação ambiental no Cerrado.

Segundo a coordenação, o principal desafio agora é captar apoio institucional, firmar parcerias com centros de pesquisa e atrair investidores para fortalecer as etapas de produção e logística.

“Nossa missão é mostrar que o Cerrado permanece em pé porque existem pessoas que aprenderam a viver com a terra, e não contra ela”, conclui a gerente do projeto.

A população pode acompanhar o trabalho do Karambu e apoiar a iniciativa por meio do perfil oficial do projeto no Instagram, onde também são divulgadas informações sobre a comercialização dos ovos e, futuramente, do bioinsumo.