“Tempo de cantar chegou”, diz mãe de jovem que foi preso injustamente no DF

Lucas Moreira de Souza, 26 anos, foi detido em 2017, condenado por um crime que não cometeu. Ele só deixou o presídio nesta quinta-feira

atualizado 22/10/2020 12:45

Preso injustamente por três anos no DF, Lucas Moreira da Silva é soltoHugo Barreto/Metrópoles

Emocionada, a mãe do jovem que ficou preso injustamente por quase 3 anos no DF comemorou o reencontro com o filho, nesta quinta-feira (22/10). “Tempo de cantar chegou, porque Deus é fiel”, comemorou Maridalha Moreira Conceição, 47 anos, após abraçar e beijar Lucas Moreira de Souza, 26, mais velho da prole.

Lucas recebeu a reportagem do Metrópoles na manhã desta quinta na casa da tia, em Ceilândia, poucas horas depois de deixar o Complexo Penitenciário da Papuda. Ele foi solto após determinação da Vara de Execuções Penais (VEP), que atendeu a solicitação do Ministério Público do Distrito Federal (MPDFT) em uma ação movida pela Defensoria Pública do DF.

O jovem deixou o presídio à meia noite desta quinta. “Fui caminhando do Jardim Botânico até a Rodoviária do Plano Piloto a pé. Quando eu saí, parecia que estava sonhando. Fiquei me beliscando no caminho para saber se era verdade”, relembra Lucas.

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Na casa da tia, já durante esta manhã, Lucas reencontrou a mãe, a tia e o filho, de 5 anos. Ao avistar o rapaz, Maridalha não conseguiu conter as lágrimas. “Acho que hoje posso dizer que sou a pessoa mais feliz do mundo porque vi verdadeiramente a justiça ser feita”, conta.

Maridalha estava há 10 meses sem ver Lucas presencialmente, por conta das medidas impostas durante as visitas em presídios de todo o país, devido à pandemia do novo coronavírus. “Foi muita dor, muito sofrimento, muita vergonha, muita humilhação. Mas acabou”, comemorou a mulher, ainda incrédula no final feliz.

No próximo dia 31, Lucas completa 27 anos e diz que “presente melhor não poderia receber”. “Agora só quero ficar com meu filho, com a minha mãe, com as pessoas que não esqueceram de mim enquanto eu estava naquele lugar.”

“Errar a gente erra muito na vida, mas eu estava preso por algo que não fiz. Perdi muito tempo, perdi a infância do meu filho, senti muita falta dele nesse tempo”, completou.

A primeira coisa que Lucas ao chegar na casa da tia foi comprar um sorvete e um brinquedo para o filho, em um comércio próximo. “Eu queria muito tomar sorvete com meu pai, agora a gente pode”, afirmou o pequeno Kauã Lucas, de 5 anos.

Quando pensa no futuro, o rapaz diz que pretende voltar a estudar. “Se Deus abençoar, vou seguir minha vida, ajudar a minha tia e a minha mãe, criar o meu filho. Estou muito feliz em revê-lo”, completou Lucas.

Veja o vídeo do reencontro de Lucas com a família:

 

Defensores Públicos

Nos braços da família, Lucas ressaltou a importância do trabalho dos quatro defensores públicos envolvidos no processo – Antônia Carneiro, Jonas Monteiro, Fernando Calmon e Daniel de Oliveira.

“Eu acreditei [na liberdade] quando eles apareceram, porque eu tinha um advogado particular e ele não fez muita coisa. Eu já estava condenado quando eles (Defensoria Pública do DF) foram lá, acreditando em mim, coisa que pouca gente acreditou. Porque pelo fato de você ser negro e morar na periferia, você já é suspeito”, disse.

Ao Metrópoles, Daniel de Oliveira, um dos defensores públicos que atuaram no processo, elogiou o trabalho dos profissionais que conseguiram comprovar a inocência do jovem. “Há dois anos recebemos esse caso, quando um policial chegou até a gente e falou que tinha ciência que ele era inocente. Chegar aqui hoje e entregar o Lucas para a família dele é como tirar um peso das nossas costas”, comentou.

“Quando eu dei abraço no Lucas ali pareceu que tudo que toda a minha carreira valeu a pena. Todos esses anos de trabalho valeram a pena por esse momento. Falei para ele: ‘Agora vamos te devolver para aquele café da manhã que você tinha com a sua tia no dia em que foi preso”, destacou.

Ainda segundo Daniel, agora a Defensoria Pública do DF vai “buscar que o Estado repare esse erro”. “Vamos em busca de uma indenização. Mesmo que não repare todos os danos que ele sofreu, é alguma coisa, para que o Estado entenda que errou e para que isso não aconteça mais”, ressaltou Oliveira.

A condenação de Lucas se deu com base em reconhecimento de vítimas. No entanto, segundo os defensores, as evidências não corroboram que ele tenha participado dos crimes cometidos em Ceilândia.

Quando enfim deixou o presídio nesta madrugada, Lucas não acreditou que aquele momento fosse real. “Eles me liberaram meia-noite. Fui caminhando do Jardim Botânico até a Rodoviária do Plano Piloto a pé. Quando eu saí, parecia que estava sonhando. Fiquei me beliscando no caminho para saber se era verdade”, contou.

O caso

Na noite de 20 de dezembro de 2017, dois homens cometeram um roubo em Ceilândia. Os bandidos seguiram em um carro até o Recanto das Emas e praticaram outros crimes ao longo do caminho, entre eles uma tentativa de latrocínio.

À época, informação da polícia do Recanto da Emas detalhava que um dos suspeitos seria manco. A característica do bandido foi passada para os policiais de Ceilândia, que, então, procuraram o suspeito que se encaixasse nessa característica. Lucas foi abordado pelos policiais na manhã do dia seguinte, enquanto soltava pipa.

O rapaz foi submetido ao reconhecimento de pessoas roubadas em Ceilândia e no Recanto das Emas. As testemunhas de Ceilândia não o reconheceram, mas as vítimas da outra cidade disseram ser ele o responsável pelos crimes.

Um policial acreditou em Lucas e levantou evidências da inocência do jovem. O primeiro deles é que o rapaz não tem a principal característica procurada pelos policiais naquele dia, pois Lucas não é manco.

Além disso, 10 dias depois da prisão, um crime com as mesmas características daqueles praticados em Ceilândia e no Recanto das Emas repetiu-se em Samambaia. Um mês depois, foram presos dois homens, com o mesmo veículo e arma usados nos delitos atribuídos a Lucas. Um dos detidos era manco. Enquanto isso, o jovem permanecia preso.

Metrópoles entrou em contato com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para comentar as inconsistências na investigação do caso, mas, até a última atualização dessa reportagem, não obteve resposta. O espaço segue aberto para manifestações.

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