Suposto bilionário comprador da Naskar morava em kitnet de estudantes
Douglas Silva de Oliveira morou em prédios no DF que destoam do patrimônio de R$ 2,4 bilhões das empresas do jovem de 25 anos
atualizado
Compartilhar notícia

Após constatar que a Azara Instituição de Pagamento Ltda nunca esteve no endereço indicado pela empresa como sede, o Metrópoles foi até três endereços no Distrito Federal ligados a Douglas Silva de Oliveira, dono da instituição. Os locais destoam do patrimônio de R$ 2,4 bilhões indicados pelas empresas cujo Douglas aparece como administrador.
A reportagem localizou e visitou três endereços no DF que teriam ligação com Douglas. Os pontos ficam no Setor de Indústrias de Ceilândia, no Guará e na Asa Norte.
No primeiro visitado, no lote 8 do Setor de Indústrias de Ceilândia, funciona um restaurante. Ao lado, está uma oficina. Em ambos os comércios, funcionários dizem não conhecer nenhuma pessoa de nome Douglas Silva de Oliveira.
Já no segundo endereço, na QI 31 do Guará II, colaboradores do prédio confirmaram que Douglas já havia morado lá como inquilino (pagando aluguel). Os funcionários não souberam especificar por quanto tempo o jovem de 25 anos permaneceu no residencial, mas informaram que ele deixou o local há cerca de dois anos.
Neste prédio havia uma correspondência enviada pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT) a Douglas Silva de Oliveira, mas a carta não pôde ser entregue porque o rapaz já havia se mudado.
Por fim, na 410 Norte, Douglas já morou em um prédio de kitnets (foto em destaque) de preço relativamente acessível em comparação a outras quadras da região. A maioria dos moradores são estudantes da Universidade de Brasília (UnB).
Um funcionário da imobiliária que administra o prédio informou que Douglas morou no residencial por um ano e se mudou há cerca de cinco anos. O rapaz disse aos administradores que estudava medicina na UnB.
Entenda o caso
- A Azara Instituição de Pagamento Ltda tem o mesmo nome “Azara” que o suposto banco Azara Capital LLC, com sede nos Estados Unidos. A Naskar Gestão de Ativos declarou, na semana passada, que esta instituição bancária compraria a fintech brasileira e assumiria o diálogo com os investidores.
- Como o Metrópoles vem noticiando nas últimas semanas, a Naskar deixou de pagar os seus 3 mil clientes neste mês, cortou o acesso ao aplicativo da fintech e deixou os investidores desesperados.
- A notícia de que um banco dos EUA compraria a Naskar e resolveria as pendências com os clientes deveria deixá-los aliviados. No entanto, a Azara apresenta diversas inconsistências, e o dono, Douglas Silva de Oliveira, idem.
- Douglas Silva de Oliveira já declarou publicamente que não mora mais no Brasil, o que dificulta o acesso dos clientes da Naskar; a Azara não possui sede no DF e nem nos EUA.
- A Naskar já aparece nos sistemas da Receita Federal sob posse de Douglas Oliveira. Os clientes da fintech, porém, não foram formalmente contatados da mudança, tampouco sabem se receberão os valores investidos na instituição. “Não sei nem o que fazer”, declarou ao Metrópoles um dos investidores, o taxista Luciano Oliveira, 53 anos.
Sede da Azara não existe
Além do tal banco com sede nos EUA, consta no nome de Douglas Azara uma empresa chamada Azara Instituição de Pagamento Ltda., criada em fevereiro deste ano com suposto capital social de R$ 13 milhões e sede registrada no seguinte endereço: Setor Hoteleiro Sul, Quadra 06, Conjunto A, Bloco A, salas 501 e 512.
O Metrópoles foi ao local indicado, na tarde de terça-feira (19/5), e descobriu que nunca houve instituição de nome Azara sediada no prédio. Nas salas 501 e 512, funciona uma empresa chamada Concept Offices, um coworking que cede espaço a instituições e empresários para estada diária, realização de eventos, entre outras atividades.
A equipe do Concept Offices confirmou que nunca possuiu contrato firmado com empresa de nome Azara, tampouco com pessoa física chamada Douglas Silva de Oliveira ou Douglas Silva de Oliveira Azara. A recepção do Complexo Brasil 21 também verificou que jamais se instalou, na unidade, uma empresa com nome Azara ou algo similar. O nome “Douglas Azara” também não traz resultados nas buscas do centro comercial.
Os responsáveis pela criação da Azara Instituição de Pagamento, portanto, teriam informado como endereço-sede as salas do coworking Concept Offices no Complexo Brasil 21 de forma ilegal.
12 empresas e R$ 2,4 bilhões: quem é Douglas?
Douglas Silva de Oliveira, de codinome Douglas Azara, tem 25 anos e possui endereços residenciais no Distrito Federal e em Uberlândia (MG). Apesar da pouca idade, aparece como suposto administrador, sócio-administrador e/ou representante legal de pelo menos 12 empresas brasileiras, entre fintechs, fazendas, postos de combustíveis e transportadoras. Somados, os capitais das 12 empresas chegam a R$ 2,4 bilhões.
A grande maioria das empresas tem capital social milionário, com uma delas chegando à casa do bilhão. Douglas é representante legal e sócio-administrador do Banco Phoenix, por exemplo, que tem R$ 1 bilhão de investimento. A instituição, de razão social Jabuti Capital Venture Group Ltda., nasceu em 9 de janeiro de 2024 e tem sede em Uberlândia (MG).
A maioria das empresas foi criada entre janeiro e setembro de 2024. Algumas delas foram instituídas no mesmo dia, como a Fazenda Jabuti e a Fazenda Tel-Aviv, em 9 de janeiro; e a Sommerlath Armazéns Gerais e a Fazenda Jerusalém, em 19 de fevereiro.
Apesar de gerir empresas de aporte bilionário, Douglas Silva de Oliveira tem renda mensal declarada de R$ 1,8 mil.
Há poucas informações de fácil acesso sobre Douglas. Os perfis dele nas redes sociais são trancados, e no LinkedIn, possui apenas sete conexões e nove seguidores.
Outro lado
O Metrópoles fez contato com o gerente comercial do Banco Phoenix, Hadhasse Sardi, que, até essa quarta-feira (20/5), se colocava como porta-voz de Douglas Oliveira. Hadhasse indicou que, a partir de agora, a comunicação se dará por meio de uma assessoria de comunicação.
A reportagem, então, contatou a assessoria de comunicação, que recebeu a demanda e prometeu retornar “assim que possível”. O espaço segue aberto.







