Sede da Azara, suposta compradora da Naskar, não existe em Brasília
Azara Instituição de Pagamento afirma ter sede no DF. Metrópoles foi ao local e confirmou, no entanto, que empresa nunca foi instalada
atualizado
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Desconhecido até este mês de maio, o nome Azara passou a circular no mercado financeiro após a Naskar anunciar que um suposto banco com sede nos Estados Unidos compraria a fintech em meio ao sumiço dos sócios e ao desespero de 3 mil clientes que, juntos, têm mais de R$ 900 milhões investidos.
Cinco dias após o anúncio, porém, os clientes não foram formalmente informados sobre a negociação e seguem sem ter acesso aos seus patrimônios. Tudo o que se têm são dúvidas sobre o banco Azara Capital LLC e o proprietário, Douglas Silva de Oliveira, de codinome Douglas Azara.
Além do tal banco com sede nos EUA, consta no nome de Douglas Azara uma empresa chamada Azara Instituição de Pagamento Ltda., criada em fevereiro deste ano com suposto capital social de R$ 13 milhões e endereço registrado no Complexo Brasil 21, no Setor Hoteleiro Sul (SHS). O Metrópoles foi ao local indicado, na tarde dessa terça-feira (19/5), e descobriu que nunca houve uma instituição de nome Azara sediada no prédio.
Em sites de consultas de empresas, a Azara Instituição de Pagamento possui como endereço-sede o seguinte logradouro: Setor Hoteleiro Sul, quadra 06, conjunto A, bloco A, salas 501 e 512. A localização aponta para o Complexo Brasil 21, um dos maiores centros comerciais do Distrito Federal.
Ao visitar o prédio, a reportagem do Metrópoles foi até as salas 501 e 512. Nelas, não funcionam a Azara, mas sim uma empresa chamada Concept Offices, um coworking que cede espaço a instituições e empresários para estadia diária, realização de eventos, entre outras atividades.
A equipe do Concept Offices confirmou que nunca possuiu contrato firmado com empresa de nome Azara, tampouco com pessoa física chamada Douglas Silva de Oliveira ou Douglas Silva de Oliveira Azara. A recepção do Complexo Brasil 21 também verificou que jamais se instalou, na unidade, uma empresa com nome Azara ou algo similar. O nome “Douglas Azara” também não traz resultados nas buscas do centro comercial.
Os responsáveis pela criação da Azara Instituição de Pagamento, portanto, teriam informado como endereço-sede as salas do coworking Concept Offices no Complexo Brasil 21 de forma ilegal.
O Metrópoles fez contato com o porta-voz de Douglas Azara, Hadhasse Sardi, para entender o problema envolvendo o endereço da Azara Instituição de Pagamento. Até o fim da noite dessa terça-feira (19/5), Sardi não havia se posicionado.
Endereço nos EUA
O Metrópoles já havia revelado que o site do banco Azara Capital LLC indica o endereço 1000 Brickell Avenue, em Miami, na Flórida (EUA). O prédio é um conhecido centro empresarial localizado no distrito financeiro de Brickell, mas não há escritório, sala ou espaço comprovados com nome Azara no local. Quando se digita o termo “Azara Capital” em sites e apps de geolocalização, a busca não traz resultados.
Além disso, o e-mail indicado no site da Azara Capital LLC não funciona (as mensagens retornam em qualquer tentativa de contato).
A Azara Capital não aparece como regulada e/ou cadastrada em órgãos de fiscalização americanos, como a Securities and Exchange Comission (SEC) e a Financial Industry Regulatory Authority (Finra).
O dono da Azara
Quem se apresenta como comprador da Naskar e dono da Azara Capital LLC e da Azara Instituição de Pagamentos é Douglas Silva de Oliveira.
Douglas tem 25 anos e possui endereços residenciais no Distrito Federal e em Uberlândia (MG). Apesar da pouca idade, aparece como administrador, sócio-administrador e/ou representante legal de pelo menos 12 empresas brasileiras, entre fintechs, fazendas, postos de combustíveis e transportadoras.
Somados, os capitais das 12 empresas chegam a R$ 2,4 bilhões. Veja abaixo a relação dos nomes, com datas de instituição e valores investidos:
A maioria das empresas foi criada entre janeiro e setembro de 2024. Algumas delas foram instituídas no mesmo dia, como a Fazenda Jabuti e a Fazenda Tel-Aviv, em 9 de janeiro; e a Sommerlath Armazéns Gerais e a Fazenda Jerusalém, em 19 de fevereiro.
Apesar de gerir supostas empresas de aporte bilionário, Douglas Silva de Oliveira tem renda mensal declarada de R$ 1,8 mil.
A reportagem procurou o porta-voz de Douglas Azara para comentar o rol de empresas. Hadhasse Sardi não retornou a respeito. O perfil de Azara, porém, comentou em postagem do Metrópoles no Instagram negando que possui os rendimentos mencionados no texto. Leia na íntegra:
“Desconheço a origem da informação errônea que estipula meus rendimentos no valor citado. Solicito que, em futuras menções, a minha equipe de Relações Públicas seja devidamente consultada para evitar a propagação de dados falsos. Cumpro rigorosamente com minhas obrigações fiscais e mantenho a total transparência de todo o meu patrimônio desde o início da minha trajetória, desde meu primeiro IRPF… e mesmo não morando no Brasil já há algum tempo, mantemos tudo nos conformes”.
O Caso Naskar
- A Naskar Gestão de Ativos é uma fintech com 13 anos de atuação. A empresa operava captando recursos de clientes com promessa de retorno de 2% ao mês, valor muito acima do operado pelo mercado.
- Por exemplo: se uma pessoa investisse R$ 1 milhão, receberia R$ 20 mil mensais pagos pela fintech, enquanto a empresa se comprometeria a cuidar do patrimônio investido pelo cidadão.
- Apesar de o valor prometido ser bem maior do que o praticado por bancos tradicionais, a Naskar atuou durante os 13 anos de existência sem que clientes tivessem problemas.
- Até que, no início da última semana, o pagamento mensal de rendimentos, que era previsto para 4 de maio, não foi realizado.
- Os clientes, então, buscaram contato com os sócios para entender o que estava ocorrendo, mas nenhum respondeu. Os empresários em questão são Marcelo Liranco Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, o ex-jogador de vôlei e apresentador de TV Maurício Jahu.
- Sem contato com os sócios da Naskar, os investidores logo foram ao aplicativo da instituição para verificar se o patrimônio investido ainda estava ali. O app, porém, deixou de funcionar em 6 de maio e ainda não voltou ao ar.
- A Naskar chegou a ter sede no DF e, mais recentemente, tinha endereço fixo em São Paulo (SP). Contudo, mudou-se desse local fixo sem informar os clientes, conforme noticiou o Metrópoles em 9/5.
- Na manhã de quinta-feira (14/5), a Naskar anunciou que uma empresa norte-americana chamada Azara Capital teria comprado por R$ 1,2 bilhão a fintech brasileira. A tal Azara é que supostamente ficará responsável por ressarcir os clientes, movimento que começaria a ocorrer a partir desta segunda-feira (18/5), segundo ambas as empresas.
- A Azara Capital apresenta várias inconsistências: o site não informa nomes de presidente, diretores ou de qualquer pessoa; o endereço físico informado é de Miami, na Flórida, mas o Google Maps aponta a localização informada para o Ocean Bank, banco comercial independente; o perfil @azara.capital no Instagram foi criado há apenas três meses; entre outras questões.
- Até o momento, os clientes da Naskar não obtiveram retornos concretos sobre quando (e se) receberão os valores de volta.
Uma das empresas administradas por Douglas Azara, a TRX Investimentos S. A., tem o mesmo nome fantasia que a TRX Investimentos Real Estate, outra instituição sem ligação com Douglas. Em contato com o Metrópoles, a TRX Investimentos Real Estate solicitando o reforço da informação.
“Por uma questão de homonímia, existe a TRX Investimentos, citada neste texto, e a TRX Investimentos Real Estate, gestora de FIIs, listada em bolsa e dona de dois grandes fundos imobiliários, o TRXF11 e o TRXY11. Esta não tem nenhuma ligação com a Azara ou empresas do mesmo grupo”, afirma a TRX Investimentos Real Estate, em nota emitida na tarde dessa terça-feira (19/5).







