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O menino Luís Guilherme Coelho Caxias, baleado por um policial civil em 6 de janeiro de 2017, quando tinha 6 anos, perdeu as funções do pulmão direito. A cirurgia para a retirada da bala feita um mês após o episódio foi bem-sucedida, mas, no fim do ano passado, médicos descobriram que uma artéria vital havia sido seriamente lesionada, retirando qualquer funcionalidade do órgão.

Enquanto Luís Guilherme trava uma batalha diária para retomar o curso normal de vida, o policial civil Sílvio Moreira Rosa vive como se nada tivesse acontecido. Após passar pouco mais de oito meses detido em Goiânia, conseguiu habeas corpus em setembro de 2017. Desde então, permanece nos quadros da corporação, trabalhando normalmente. Atualmente lotado no Centro de Progressão Penitenciária (CPP), no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA), desfruta da liberdade e de um belo salário.

Segundo o Portal da Transparência do DF, o policial indiciado por tripla tentativa de homicídio recebeu R$ 14.389,13 em outubro; e R$ 13.998,37 em novembro e dezembro de 2017. Apesar de atentar contra a vida de Luís Guilherme e ter um longo histórico de violência, o processo administrativo disciplinar instaurado na Corregedoria da Polícia Civil parece ter empacado.

Mas Luís Guilherme ainda carrega as sequelas de quando foi atingido na BR-070, na altura de Águas Lindas (GO), Entorno do DF. Naquela manhã de sexta-feira, um congestionamento de carros se formou no local por conta de reparos na estrada. O pai do garoto teria cortado a fila de veículos parados, o que despertou a ira de Sílvio Moreira Rosa. Irritado, ele sacou a pistola e abriu fogo contra o carro. Um dos três disparos atravessou a cadeirinha, entrou pelas costas e se alojou no pulmão da criança.

Arquivo pessoal

Luís Guilherme até hoje lida com os traumas do episódio que quase lhe custou a vida

 

Rotina de fisioterapia
Desde o diagnóstico, o menino adotou uma rotina que consiste em passar boa parte do dia em sessões de fisioterapia respiratória. A família também matriculou-o em uma escola de natação, modalidade que estimula o fôlego. Além da difícil adaptação de viver com apenas um pulmão performando, há o receio de o outro ficar necrosado, o que obrigaria Luís Guilherme a voltar à mesa de cirurgia para removê-lo.

O laudo médico é taxativo ao retirar qualquer esperança de recuperação do órgão afetado. “A trombose é permanente. Vale a pena ressaltar que a área de lobo médio e inferior direito não tem funcionalidade respiratória, estando a função pulmonar da criança comprometida para toda sua vida”, atestam os profissionais num dos trechos do documento.

O relatório – assinado por um cardiopediatra, um pneumologista e um cirurgião – ainda esclarece que, apesar do procedimento cirúrgico, ainda há pequenos estilhaços da bala no pulmão do menino.

Os fragmentos do projétil ainda estão presentes em hilo pulmonar e não há como serem removidos. Dessa forma, o dano causado atingiu o segmento pulmonar em questão de forma irrecuperável"
Trecho do relatório médico

A criança também faz acompanhamento com psicólogo e terapeuta ocupacional para tentar apagar da mente o terror vivido há pouco mais de um ano. Em função do trauma, fica inquieta ao passar muito tempo no banco de trás do carro. Inevitavelmente, recorda-se da dor, do sangue e do desespero dos pais.

Governador surpreso
Em 12 de janeiro, em entrevista ao Metrópoles, o governador Rodrigo Rollemberg (PSB) comentou o caso. Mostrou-se surpreso com o fato de Sílvio Moreira Rosa não ter recebido punição da Polícia Civil e prometeu avaliar o caso. “Um policial como este é absoluta exceção no âmbito da Polícia Civil. Vou saber do diretor da Polícia Civil [delegado Eric Seba] o que levou esse policial a não ser afastado da corporação”, disse o chefe do Executivo. Apesar da promessa, nada aconteceu com o agente.

Em nota, a Corregedoria-geral de Polícia Civil informou que instaurou processo administrativo disciplinar, que se encontra em fase de instrução. O órgão confirmou que ele permanece nos quadros da corporação, recebendo salários.

O advogado do policial, Paulo Roberto Borges da Silva, disse que durante a instrução processual ficou comprovado que ele só sacou a arma por achar que estava lidando com algum bandido. “Ele atirou para o chão para conter a ameça, mas a bala atingiu o garoto. A linha de defesa vai provar que ele agiu em legítima defesa putativa”, alegou o defensor.

 

 

 

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