“Moro tem a segurança da PF”, diz Ibaneis sobre líder do PCC no DF

Governador analisa se vai entrar com medida judicial para fechar Presídio Federal em Brasília, onde Marcola está preso

atualizado 26/03/2019 15:23

HUGO BARRETO/METRÓPOLES

O governador Ibaneis Rocha (MDB) não desistiu da transferência imediata do líder do Primeiro Comando da Capital (PCC), Marcos Willians Herbas Camacho, do Presídio Federal de Brasília. Desde sexta (22/3), quando Marcola desembarcou na capital da República, o emedebista critica a medida tomada pelo Ministério da Justiça. Preocupado com o aumento da violência no DF e a segurança da população, o emedebista voltou a alfinetar o ministro Sergio Moro nesta terça (26): “Ele tem a segurança da Polícia Federal”.

A declaração foi feita após a manifestação de Moro, na noite de segunda (25), de que Ibaneis teve uma “reação exagerada” à chegada de Marcola. “A liderança criminosa vem para um presídio de segurança máxima, onde ela fica em um sistema carcerário bastante rígido. Sem condições de, lá de dentro, controlar a atividade criminal de fora”, afirmou o ministro.

Ibaneis reagiu: “Eu continuo insistindo que essa é uma medida jabuticaba. Não existe um presídio federal a 6 km do Palácio do Planalto em lugar algum do mundo. O problema não são os que estão presos e, sim, os soltos”.

Conforme disse ao Metrópoles ainda na sexta, Ibaneis estuda entrar com ação judicial, baseada na Lei de Segurança Nacional, para que o presídio seja fechado. A decisão pode ser tomada a qualquer momento. Segundo o governador, o GDF reuniu informações que confirmam a presença do PCC no DF. O material será apresentado para o governo federal.

“Brasília não pode faltar”
Segundo o diretor-geral do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), Fabiano Bordignon, a vinda do líder do Primeiro Comando da Capital (PCC) a Brasília é uma “ação estratégica” do governo federal que não acarreta risco para a população. “O Brasil precisa da união de todos, sem demonstrar fraqueza”, argumentou Bordignon, que ainda pediu a “compreensão” do GDF a respeito da medida.

As declarações, dadas ao Metrópoles nessa segunda, ocorreram no dia em que o governador Ibaneis Rocha (MDB) disse que não vai desistir de transferir o líder do PCC, “seja pela negociação com o governo federal, seja pelas vias judiciais”.

De acordo com Bordignon, Marcola e os demais presos serão realocados novamente, “em breve”, dentro de uma estratégia de rodízio entre os complexos justamente para desarticular as organizações criminosas. “Não é uma transferência definitiva. É estratégica”, salientou. Nesse contexto, continuou o diretor-geral do Depen, o governo federal pede a compreensão e o apoio do DF: “Brasília não pode faltar ao Brasil”, disse, emendando que “o crime organizado não vai conseguir vencer o Estado organizado”.

Reação
Desde que Marcola foi transferido de uma unidade prisional de Rondônia para a Penitenciária Federal em Brasília, Ibaneis passou a criticar publicamente a medida, determinada pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro.

Além de reclamar por não ter sido informado, o governador disse que a presença de Marcola atrai o crime organizado para a capital.

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A chegada de Marcola
O avião Hércules da Força Aérea Brasileira (FAB) com o líder da facção criminosa pousou por volta das 13h20 de sexta (22) na capital federal. Marcola chegou à penitenciária federal por volta das 14h26. Além do criminoso, outros três integrantes do PCC vieram no mesmo voo e vão ficar em Brasília: Cláudio Barbará da Silva, Patrik Wellinton Salomão e Pedro Luiz da Silva Moraes, o Chacal.

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Marcola foi preso pela primeira vez pela polícia paulista no final da década de 1990, por roubos a carros-fortes e bancos. Já na prisão, também foi condenado por formação de quadrilha, tráfico de drogas e homicídio. Até hoje, no entanto, Marcola nega que seja chefe da facção criminosa.

Recentemente, foi condenado a 30 anos de prisão no processo da Operação Ethos, que investigou o setor jurídico da organização criminosa. Com essa decisão, o total das penas impostas a Marcola já ultrapassa 300 anos.

Para justificar a transferência de Marcola de Presidente Venceslau (SP), promotores do Ministério Público de São Paulo afirmaram que a organização planejava resgatá-lo. De acordo com os membros do MP, foram gastos dezenas de milhões de dólares no plano, investidos em logística, compra de veículos blindados, aeronaves, material bélico, armamento de guerra e treinamento de pessoal.

No DF em 2001
Esta, contudo, não é a primeira transferência de Marcola para o DF. Diligências policiais apontam que a história do PCC em Brasília começou em 5 de março de 2001, após o chefe máximo da organização desembarcar na capital.

Depois de peregrinar por diversos presídios do país, Marcola foi recolhido ao Centro de Internação e Reeducação (CIR). Apesar da estada ter sido curta – ficou encarcerado até 8 de fevereiro de 2002 –, deixou marcas profundas tanto na mentalidade da massa carcerária quanto na segurança pública candangas.

No curto período em que esteve na Papuda, Marcola criou um braço do PCC chamado pelos criminosos de Partido Liberdade e Direito (PLD). Investigadores identificaram que a facção havia sido criada nos mesmos moldes da organização paulista, inclusive em relação às regras contidas em seu estatuto.

A organização criminosa definiu uma série de termos para facilitar a comunicação dentro da Papuda. As ordens da cúpula eram transmitidas de dentro dos presídios pelos “torres”, bandidos responsáveis pelo repasse de informações aos “pilotos”, presidiários escolhidos para coordenar os integrantes do PCC que estavam atrás das grades.

Os levantamentos feitos pela polícia mapearam que o organograma do PCC seria rígido e semelhante a uma estrutura militar, com níveis de comando hierarquizados, divididos em escalões de acordo com o poder exercido pelos membros e suas respectivas funções. A organização criminosa ainda construiu uma rede de colaboradores, formada por advogados, familiares, namoradas de detentos e visitantes.

Conduzidas pelo regimento da organização, essas pessoas são responsáveis pela articulação dos interesses dos encarcerados fora dos presídios, dando suporte jurídico, psicológico e, principalmente, financeiro, inclusive com o gerenciamento de contas bancárias alimentadas com dinheiro faturado em ações criminosas.

Sobre as contas bancárias ligadas ao PCC, as apurações policiais apontam que apenas 20% delas estariam relacionadas a movimentações financeiras de alto valor, acima de R$ 100 mil. O restante seria por meio de pequenos depósitos.

Além das contas administradas pelos colaboradores da facção, grande parte dos recursos do PCC estaria ligada a empresas de fachada, como pequenas redes de supermercados, negócios imobiliários, restaurantes, agências de automóveis e, até, cooperativas de transporte de São Paulo.

 

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