Após descoberta de maníaco, medo ronda mulheres nas paradas de ônibus

Advogada e funcionária terceirizada do MEC foi assassinada por Marinésio Olinto, que se passou por loteiro em Planaltina

Allane Moraes/Especial para o MetrópolesAllane Moraes/Especial para o Metrópoles

atualizado 01/09/2019 17:37

Mais de meia hora esperando o próximo ônibus depois de um dia inteiro de trabalho. A parada não fica em um lugar seguro e já está escurecendo. Um carro desacelera, buzina, oferece o destino. O preço da passagem é o mesmo dos coletivos e a chegada será mais rápida. O motorista é desconhecido, mas o cansaço fala mais alto e a corrida é aceita.

Essa é a rotina de muitas mulheres no Distrito Federal. A prática é tão antiga e parece natural. Ou pelo menos parecia. A morte da advogada Letícia Sousa Curado, 26 anos, provocada pelo cozinheiro Marinésio dos Santos Olinto, 41, que se passou por motorista de lotação, em Planaltina, para atrair, assediar e depois matar a advogada e funcionária terceirizada do Ministério da Educação (MEC), trouxe a insegurança mais uma vez ao holofote.

A questão, no entanto, está longe de ser um problema exclusivo de Planaltina, onde o transporte é precário em muitas áreas. O Metrópoles percorreu paradas de ônibus em outras quatro regiões administrativas e conversou com outras mulheres, que relatam o medo de utilizar esse tipo de meio de locomoção.

É o caso da diarista Ozima Rodrigues, 45. Todos os dias ela sai da QNQ, em Ceilândia, para trabalhar no centro da mesma cidade e admite que era usuária frequente de transportes piratas. “Geralmente, passam primeiro que o ônibus, por isso eu pegava, mas também só se o carro estivesse cheio. Depois desses casos, eu não pego mais”, garante.

Ozima é mãe de duas filhas, uma de 16 e outra de 22. Segundo ela, a mais velha trabalhava no MEC com Letícia, o que causou ainda mais temor na família. “Ela chegou me dizendo que conhecia a menina que foi assassinada, ficou muito triste. Agora está todo mundo proibido de pegar lotação lá em casa”, afirma.

A mesma ordem foi dada na residência de Rose Teixeira, 57, no Recanto das Emas. A fabricante de bolos diz que nunca pegou transporte irregular por ser “muito sistemática”. “Já tinha medo antes dos casos do Marinésio, agora que não pego mesmo. Até quando um carro passa mais devagar na minha frente eu já assusto”, comenta.

Para ela, este tipo de problema é um reflexo de uma questão ainda maior na sociedade. “Infelizmente está difícil confiar até no vizinho hoje em dia. A gente que é mais velha começa a ficar desconfiada de tudo”, justifica.

No Núcleo Bandeirante, a suspeita é a mesma. A atendente do MEC Juliane Fernandes, 38, diz que nunca entraria em um transporte pirata. “Prefiro ficar duas horas esperando a embarcar no carro de um desconhecido. Eu mesma moro no Guará, aqui perto, e o transporte demora uma eternidade”, reclama.

Já em Samambaia, as amigas Verônica Rodrigues, 23, Joice Mota, 22, e Franciele Ribeiro, 30, preferem andar juntas para pegar o transporte coletivo. “Só de ficar sozinha na parada já dá medo”, afirma Franciele. Verônica é ainda mais radical e diz que até aplicativos de transporte ela evita. “Ficou com medo de pegar algo assim. É muita insegurança”, assegura.

Números são altos

De acordo com levantamento feito pelo (M) Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles, de janeiro a julho de 2019, foram 1.106 autos de infração relacionados a transporte pirata no DF. Os números, disponibilizados pelo Departamento de Estradas de Rodagem (DER), mostram que a maior concentração de flagrantes ocorre entre as 6h e 9h, exatamente no horário de pico: 70,1% do total.

No mapa abaixo, você pode clicar em cada uma das mais de mil ocorrências registradas neste ano e identificar qual o tipo de veículo usado, a data e a hora do delito.

Especialistas culpam o descaso

Para Leonardo Sant’Anna, especialista em segurança pública, o ponto a ser debatido deve ser o que leva a população a procurar um transporte tão precário. “Quando se alia uma parada sem segurança nenhuma com ônibus que não se sabe o horário que irá chegar, o espaço para esse tipo de modalidade é aberto”, opina.

O especialista explica que essa situação é uma armadilha em que a mulher não se sente segura nem esperando o ônibus, nem no transporte pirata. “Tudo isso é facilitador para que pessoas desconhecidas, em carros cuja origem também é desconhecida, possam ganhar dinheiro rápido e fácil”, diz.

Já Fabrízio Lara, advogado especialista em segurança pública do Escritório Alcoforado Advogados Associados, afirma que só quando a população se posicionar de maneira forte por melhores condições de transporte a situação poderá ser revertida. “São nada mais do que direitos constitucionais, de um transporte público de qualidade. Não dá para as pessoas saírem de casa e não terem garantia de que vão voltar. É preciso que haja mobilização da sociedade para que o governo tome alguma atitude”, ressalta.

O que diz o governo

Procurada, a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob) disse, por meio de nota que “alerta sobre o perigo que o passageiro corre ao usar o transporte irregular, já que os veículos utilizados para esse fim não são vistoriados e podem se envolver em acidentes. Além disso, não há como saber se o motorista que presta serviço deste tipo de transporte responde por algum processo criminal, o que acaba colocando em risco a segurança dos passageiros.”

Questionada a respeito das reclamações sobre a demora dos ônibus, a pasta disse que o “Governo do Distrito Federal está atento às demandas da população e destaca que a frota do DF já está sendo renovada. Mais de 230 novos ônibus já foram entregues para os usuários do transporte público no DF.” A secretaria disse também que “fiscaliza diariamente a operação de mais de mil linhas e de aproximadamente 3 mil veículos que compõem a frota do sistema de transporte para garantir a oferta de serviço de qualidade à população do Distrito Federal”.

Já a Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal (SSP-DF) informa que não dispõe de estudo que relacione diretamente a prática de transporte irregular de passageiros a crimes como o do referido caso, ocorrido em Planaltina.

A secretaria ainda afirma que a Polícia Militar realiza operações diárias para reprimir a prática do transporte pirata. “Esse trabalho é feito, também, em conjunto com outros órgãos, como Semob, Departamento de Trânsito do DF (Detran), Departamento de Estradas e Rodagens do DF (DER) e Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT)”, destaca a SSP-DF.

De acordo com o Detran, nos sete primeiros meses deste ano, 3.008 motoristas foram notificados pelos órgãos de fiscalização do DF por transporte irregular. Com a Lei nº13.885/19, a pena para este tipo de infração passará a ser considerada gravíssima. Ou seja, a multa pula dos atuais R$ 195,23 para cinco vezes R$ 293,47, totalizando R$ 1.467,35, além do veículo ser removido ao depósito e registrados sete pontos no prontuário do condutor.

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