Cansados da estrutura precária da rede pública de saúde do DF, funcionários de hospitais públicos denunciaram mais um descaso. Desta vez, a falta de materiais, como luvas de procedimento (simples), afeta a rotina dos hospitais de Santa Maria, de Base e de Taguatinga. Em alguns casos, eles dizem que estão precisando tirar dinheiro do próprio bolso para não deixar os pacientes desassistidos.

Na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Santa Maria, a lista é grande. Faltam sondas, luvas, fraldas de todos os tamanhos, esparadrapos, agulhas e coletores de urina. “Estamos fazendo vaquinha para comprar fraldas usadas pelos pacientes”, disse uma funcionária que trabalha no local.

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No Hospital de Santa Maria, caixas de luvas estão vazias

Já no Hospital Regional de Taguatinga (HRT), luvas estéreis, próprias para procedimentos cirúrgicos, estão sendo usadas para tarefas simples, como dar banho nos pacientes, limpeza de materiais, manuseio de roupa suja. Os funcionários deveriam utilizar, neste caso, luvas de procedimento (comuns). O problema é que elas estão em falta. Há informações que, no Hospital de Base, ocorre a mesma situação.

As luvas estéreis são bem mais caras. Em uma pesquisa feita na internet, uma caixa com 50 pares custa R$ 59,50, e a de luvas de procedimento, R$ 25,65.

A Secretaria de Saúde confirma que o estoque de luvas de procedimento está zerado na rede. No entanto, diz que as unidades de saúde estão recebendo luvas sintéticas, que podem ser utilizadas sem nenhum prejuízo ao paciente ou profissional. Informa ainda que há um processo de dispensa de licitação para a aquisição do material, em caráter emergencial.

No Hospital de Base, a pasta também admite que os servidores estão utilizando as luvas estéreis, até que o estoque da rede seja reabastecido. “Já no Hospital Regional de Taguatinga, a direção conseguiu adquirir as de procedimento com verba do Programa de Descentralização Progressiva das Ações da Saúde (PDPAS). Portanto, o estoque é reduzido, mas não há falta do insumo no HRT”, ressalta, em nota, a Secretaria de Saúde.

No hospital de Taguatinga, um funcionário, que preferiu não se identificar, denunciou outros problemas: a falta de óleo nas caldeiras do hospital, o que impossibilita a esterilização das roupas usadas pelos pacientes, além do baixo efetivo de enfermeiros e auxiliares. “No pronto-socorro, são três funcionários para 120 pacientes, porque as enfermarias estão fechadas, devido à falta de profissionais. Como prestar um atendimento de qualidade dessa forma?”, questiona o trabalhador.

A presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde de Brasília (SindSaúde-DF), Marli Rodrigues, disse que a situação só piora na rede pública. “Parece uma roleta. A cada dia, faltam materiais em um hospital diferente. Isso acarreta um atendimento de má qualidade e agrava o quadro dos pacientes”, disse.

E os trabalhadores que estão denunciando os casos de precariedade da rede têm sido punidos, segundo Marli Rodrigues. “No Hospital de Samambaia ficamos sabendo que funcionários da lavanderia reivindicaram direitos e denunciaram problemas, sendo punidos com a mudança de horário de trabalho. Com filhos, eles não têm com quem deixá-los para ir trabalhar”, relata.

Nos últimos meses, o Metrópoles publicou diversas reportagens mostrando os problemas da rede pública de saúde, como filas na madrugada para conseguir remédios de alto custo; cadáveres e alimentação de doentes sendo transportados no mesmo elevador no Hospital Regional da Asa Norte (Hran); necessidade de mutilar pacientes para que fosse possível fazer cirurgias com o material adequado; falta de água quente para o banho; e até cheiro de corpos se espalhando no ar devido à falta de refrigeração das câmaras mortuárias também no Hran.

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Cartaz mostra a falta de materiais no Hospital de Santa Maria

Crise antiga
Entre março e outubro de 2016, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MDDFT) e membros de seis conselhos regionais de saúde, visitaram oito hospitais da rede pública do DF e puderam constatar a falta de estrutura com a qual pacientes, médicos e enfermeiros precisam lidar diariamente.

Foram vistoriados os hospitais regionais de Taguatinga (HRT), do Gama (HRG), de Sobradinho (HRS), da Asa Norte (Hran), de Ceilândia (HRC) e do Paranoá (HRPa), além do Materno Infantil de Brasília (Hmib) e do Base (HBDF).

As visitas resultaram na elaboração de um relatório, que, de acordo com o promotor de Justiça de Defesa da Saúde, Jairo Bisol, do MPDFT, será usado para firmar termos de ajustamento de conduta (TACs) com o governo, a fim de garantir investimentos na saúde.  “Se o diálogo não se mostrar viável, seguiremos o caminho da judicialização.”

“Culpa do fornecedor”
Em nota, a Secretaria de Saúde informou que, no fim de 2016, iniciou processo de compra de fraldas para toda a rede, mas a empresa vencedora do processo licitatório apresentou um produto que já estaria com fornecimento suspenso. Por isso, houve atraso na entrega. “A pasta informa que está tomando todas as providências para que o estoque seja regularizado o mais rápido possível.”

No que se refere ao HRT, o órgão negou que esteja faltando óleo nas caldeiras. Sobre o número reduzido de profissionais, “a unidade está redistribuindo técnicos de enfermagem e enfermeiros para melhor atendimento à população.”

Em Santa Maria, confirmou  “o baixo estoque de fraldas da unidade e que está zerado o de alguns tipos de coletores de urina e micropore (esparadrapo antialérgico).” Contrariando a informação dada por um funcionário do local, a secretaria diz que “não estão em falta sondas uretrais e luvas.”