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Enquanto o Governo do Distrito Federal tenta implantar um novo modelo de gestão da saúde pública local, com a controversa “terceirização” de parte dos serviços, as unidades de atendimento e os hospitais continuam à míngua. Onde quer que se vá, sobram relatos de precariedade. Um dos episódios de descaso mais recentes ocorreu no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), onde pacientes foram obrigados a tomar banho gelado neste início de inverno.

Parentes da aposentada Kimio Ueda, de 84 anos, internada no Hran há 20 dias, fizeram uma série de denúncias sobre a falta de estrutura da unidade, como a ausência de medicamentos básicos; de insumos, como gaze e termômetros; e a falta de médicos especialistas em proctologia, além da ducha fria.

Segundo Tatiana Ueda, neta da aposentada, a avó é moradora de Valparaíso (GO) e peregrinou por várias unidades de saúde, como a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Recanto das Emas, antes de ser internada. Sentindo fortes dores abdominais, Kimio acabou transferida para o hospital da Asa Norte. “Sofremos para receber o primeiro atendimento. Depois, conseguimos ficar no box antes da transferência para o quarto, mas a situação não está fácil”, disse.

Tatiana, que trabalha como consultora em Fortaleza (CE), teve que deixar o trabalho para acompanhar a avó no DF e ficou assustada com a precariedade no atendimento de um dos principais hospitais da capital da República.

Minha avó precisou tomar banho frio durante sete dias depois que a água quente parou de chegar ao chuveiro do quarto. Para uma pessoa de idade avançada e com esse tempo frio, não ter água quente é um transtorno, pois coloca em risco a saúde do paciente"
Tatiana Ueda, neta de paciente do Hran

Os relatos informam ainda que o hospital não tem em estoque medicamentos básicos, como Plasil — usado no tratamento de náuseas e vômitos — e materiais essenciais, como ataduras. “Quem tem uma condição financeira um pouco melhor é orientado pelos servidores a comprar o que está em falta”, diz Tatiana.

Falhas pontuais
Ao ser questionada sobre os problemas relatados, a Secretaria de Saúde informou ao Metrópoles que houve falha nas bombas que enviam água quente para os chuveiros, o que prejudicou alguns setores do Hran. Entretanto, a pasta assegura que nenhuma ala ficou longos períodos sem água quente. “A direção esclarece que todos os pacientes foram comunicados sobre a falha e que o problema já foi corrigido”, afirmou o órgão, por meio de nota.

Ainda de acordo com a pasta, a direção do hospital nega que os itens básicos citados acima estejam em falta. “Somente no Hran há, neste momento, 720 unidades de Plasil e 2 mil pacotes de gaze. Também há estoque desses produtos na Farmácia Central.”

Sobre a falta de proctologistas, a secretaria esclareceu que não se trata de especialidade oferecida no Hospital Regional da Asa Norte. “A referência de atendimento para essa especialidade é o Hospital de Base”, informou.

Fiscalização
Embora o GDF conteste os relatos de pacientes e argumente que os problemas são pontuais, o Hran é o que teve o pior desempenho em fiscalização promovida pelo Tribunal de Contas do DF (TCDF) no primeiro bimestre de 2016.

A avaliação da Corte — que apontou várias falhas no acolhimento dos pacientes e na utilização dos protocolos de classificação de risco de quem buscava atendimento  — motivou uma visita do presidente do TCDF, Renato Rainha, e de auditores em 19 de abril. O objetivo foi verificar a eficiência do atendimento prestado.

Esses são problemas graves, que comprometem não apenas a estrutura das nossas unidades de saúde, mas também o próprio atendimento oferecido à população"
Renato Rainha, presidente do TCDF

Além de equipe reduzida, ele viu de perto a falha na adoção de procedimentos básicos e o sofrimento de quem precisa de atendimento. Isso porque o que se vê no Hran está longe do recomendado, inclusive, pelos padrões da própria Secretaria de Saúde do DF. Quem chegava ao local dificilmente conseguia passar pela triagem. Funcionários sem qualquer qualificação faziam o registro dos pacientes, que aguardavam por horas até serem chamados, ou acabavam por desistir do atendimento.

Foi o que aconteceu com a auxiliar de jardinagem Francisca Xavier. Chorando, a mulher chegou ao hospital com fortes dores na cabeça e no corpo. Depois de ser informada de que não havia médicos na emergência, deixou o Hran e seguiu para outra unidade de saúde. Apesar de ter preenchido ficha de atendimento, Francisca, assim como todos que procuram o hospital, não foi classificada de acordo com o Protocolo de Manchester.

Essa metodologia estabelece que cada paciente deve receber uma pulseira colorida de acordo com a gravidade do caso: vermelha (atendimento imediato), laranja (até 10 minutos), amarela (até 1 hora), verde (até 2 horas) e azul (até 4 horas). O não cumprimento do protocolo impede os pacientes de receberem os cuidados necessários no tempo adequado. Outras unidades do DF contam com o sistema, a exemplo do Hospital de Base.

Ratos
Outro episódio polêmico ocorreu em abril deste ano, quando um vídeo com ratos na emergência do Hran foi divulgado nas redes sociais. Na época, a direção do Hran informou que desratizações periódicas são realizadas na unidade.

Veja o vídeo:

 

 

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