Risco de vazamento de chorume em novo aterro ameaça Rio Melchior

Local fica próximo ao curso d'água em Samambaia, que foi tomado por espuma na sexta-feira

Michael Melo / MetrópolesMichael Melo / Metrópoles

atualizado 11/01/2020 16:13

Uma grande mancha de espuma foi flagrada na manhã de sexta-feira (10/01/2020) no curso do Rio Melchior, nas proximidades do Aterro Sanitário de Brasília (ASB), localizado às margens da DF-080, em Samambaia. A imagem foi registrada pelo repórter fotográfico Michael Melo, do Metrópoles.

Segundo a Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), o rio recebe os efluentes (esgotos tratados) de duas estações de tratamento, que “apresentam elevada eficiência na remoção de matéria orgânica”.

Nesse processo, afirma a companhia, “pode ocorrer espuma, causada em função do residual de detergentes presentes nos esgotos tratados e do processo de agitação ocasionado pelo desnível existente entre as estações e o ponto de lançamento no rio. Essa espuma não é tóxica e é dispersada logo abaixo dos pontos de lançamento das estações”.

À reportagem, o Brasília Ambiental, instituto responsável pela fiscalização do meio ambiente no DF, afirmou que vai monitorar o recurso natural.

O caso ocorre em meio a debates entre a Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento do Distrito Federal (Adasa) e o Serviço de Limpeza Urbana (SLU) sobre o limite da capacidade de armazenamento de chorume nas lagoas de contenção da estação de descarte. Os dois órgãos estão trabalhando em conjunto para buscar as soluções técnicas mais adequadas para o esvaziamento das lagoas.

A agência tem alertado o SLU porque os depósitos estão atuando na capacidade máxima, o que pode ser considerado um problema, especialmente em período chuvoso.

Há grande risco de que o volume de água causado pela estação chuvosa faça essas piscinas transbordarem, o que poderia, inclusive, fazer com que o líquido formado pelo lixo chegasse diretamente ao Melchior.

O rio corre por Ceilândia e Samambaia, dentro da Área de Relevante Interesse Ecológico JK, e deságua no Rio Descoberto, na altura da cidade de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, depois da Barragem do Descoberto, em Águas Lindas (GO).

O chorume é um líquido de coloração escura e “odor nauseante” proveniente de processos de decomposição dos resíduos orgânicos. É um material de carga orgânica muito alta e, por isso, tem um grande potencial poluidor e de contaminação de recursos hídricos e lençóis freáticos.

Os problemas com o chorume não são uma novidade para o governo local. Em janeiro de 2019, um relatório do SLU apontou o vazamento do líquido em pelo menos dois pontos do aterro sanitário.

Na época, o órgão de limpeza informou que “tão logo o problema foi detectado, foram tomadas todas as providências para interromper o fluxo”, incluindo o isolamento da caixa de passagem pela qual ocorreu o vazamento e a instalação de um desvio provisório para direcionar o chorume ao local correto do descarte.

Veja as lagoas de chorume no aterro:

Ampliação de capacidade

O SLU reconhece o perigo e sustenta que o contrato com a empresa Hydros Soluções Ambientais, responsável pelo tratamento do chorume, prevê trabalhar com até de 400 m³ por dia.

Contudo, o valor foi calculado para períodos de estiagem e não projetou o volume das chuvas que ocorrem até maio. Por problemas de armazenamento, no ano passado, a empresa chegou a interromper o tratamento do chorume por falta de espaço para reservação do efluente tratado.

“Neste sentido, e considerando que temos a capacidade de tratamento do dobro solicitado anteriormente, sugiro encaminhar à Adasa a solicitação de modificação da outorga”, afirma o SLU em documento interno.

Para dobrar a capacidade, o SLU decidiu lançar novo edital a fim de regularizar a situação de forma permanente. O SLU tenta, com isso, aumentar a capacidade de vazão máxima outorgada de lançamento do efluente no Rio Melchior. Por mês, o GDF gasta R$ 138.092,00 com a empresa.

O volume a ser tratado diariamente também depende do período considerado. “No primeiro, de chuvas intensas, considerou-se que a empresa possuía capacidade máxima de tratamento de 950 m³ por dia e que, até o presente momento, tratou cerca de 18.000 m³, possuindo, ainda, previsão de tratamento de 54.000 m³ até o fim do contrato”, pontua o documento do SLU.

“Nos demais períodos, foi levado em consideração um novo contrato emergencial que prevê o tratamento de 800 m³/dia. Dessa forma, o total de dias necessários para a eliminação do passivo acumulado é de 170 dias”, acrescenta o Serviço de Limpeza Urbana.

O SLU acredita que o processo terminará até o final de junho. “Após esse período, o tratamento será apenas do efluente gerado diariamente. Com base nisso, reforça-se a necessidade urgente de aumento da vazão máxima outorgada de lançamento do efluente no Rio Melchior”, afirma.

O outro lado

O Metrópoles procurou a Adasa, o Brasília Ambiental e o Serviço de Limpeza Urbana e, em nota conjunta, os órgãos afirmaram o seguinte: “O Brasília Ambiental informa que vai incluir o Córrego Melchior no cronograma de fiscalização do instituto, a fim de verificar o ocorrido”.

Além disso, frisa o texto, “a Adasa emitiu, na sexta-feira (10/01/2020), nova outorga que flexibiliza o lançamento de efluente tratado do Aterro Sanitário de Brasília (ASB) no córrego, dentro dos parâmetros ambientais adequados e seguros, sem aumento da carga orgânica (prevista na outorga anterior). Com isso, as lagoas de chorume continuarão com seus volumes adequados e com tratamento contínuo para redução até o ponto de água de resíduo”.

Já o Serviço de Limpeza Urbana garante que não há risco de descontinuidade do serviço. “O órgão informa ainda que o contrato emergencial com a empresa Hydros Soluções Ambientais – com vencimento em 7 de fevereiro de 2020 – está em fase final de renovação, que deve ocorrer antes do fim da data de validade do contrato atual. Com isso, o serviço de tratamento de chorume continua regularmente.”

Ainda segundo a nota do GDF, “o SLU também se reuniu com o Brasília Ambiental e com a Adasa quando foi acertado ajuste na outorga para descarga de material do Aterro Sanitário de Brasília no Rio Melchior, dentro dos parâmetros ambientais adequados e seguros, sem aumento da carga poluente”.

A Adasa informa que tem realizado frequentes ações de fiscalização para acompanhamento da situação.

SOBRE O AUTOR
Caio Barbieri

Cursou jornalismo no Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Passou pelas redações do Correio Braziliense, Agência Brasil, Rádio Nacional e foi editor-adjunto da Tribuna do Brasil. Ocupou a assessoria especial no Ministério da Transparência e foi secretário-adjunto de Comunicação do GDF. Chefiou o relacionamento com a imprensa na Casa Civil, Vice-Governadoria, Secretaria de Habitação e na Secretaria de Turismo do DF. Fez consultoria para vários partidos, entidades sindicais e políticos da Câmara Legislativa e do Congresso Nacional. Assina a coluna Janela Indiscreta do Metrópoles e cobre os bastidores do poder em Brasília.

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