Para os procuradores do Ministério Público Federal (MPF) responsáveis pela Operação Circus Maximus, não resta dúvida: Ricardo Leal (foto de destaque) encabeçava o suposto esquema de corrupção dentro do Banco de Brasília (BRB). Ele era visto como um “portal de desejos”. O arrecadador de campanhas do ex-governador Rodrigo Rollemberg (PSB) recebia pedidos para acomodar pessoas em órgãos do Governo do Distrito Federal antes mesmo de o socialista tomar posse.

As informações constam da denúncia feita pelo MPF no âmbito da Circus Maximus, que investiga prejuízo de R$ 358 milhões ao banco, sendo R$ 40 milhões destinados ao pagamento de propinas.

Segundo os procuradores, Ricardo Leal, indicado por Rollemberg para ser conselheiro do BRB em 2015, seria o líder da organização, e o Banco de Brasília, o ralo para escoar dinheiro de transações ilícitas. Além de Leal, outras 16 pessoas foram denunciadas nesta quarta-feira (13/2).

As 117 páginas da denúncia do MPF, encaminhada à Justiça Federal, trazem e-mails trocados entre Leal e o ex-presidente do BRB Vasco Gonçalves. Os dois foram presos em 29 de janeiro e soltos alguns dias depois. Ricardo Leal está em prisão domiciliar, segundo determinação judicial.

O material foi recolhido durante cumprimento de mandados de busca e apreensão no dia da operação. As mensagens são provas, na avaliação dos procuradores, de que Ricardo Leal tinha influência “sólida” no GDF, e que seus indicados no banco estavam “dispostos a seguir suas orientações para prática de atos ilícitos”. De acordo com a denúncia, eles ocupavam áreas estratégicas na estrutura do BRB, “representando setores que permitiam a monetização de interesses privados”.

Em um dos e-mails, datado de 6 de outubro de 2014, no dia seguinte ao primeiro turno das eleições, Vasco Gonçalves enviou a Ricardo Leal o currículo dele e o do cunhado, Marco Aurélio. Um dia antes, Rollemberg e Jofran Frejat (PR) avançaram ao segundo turno. O mesmo e-mail foi reencaminhado, em 5 de dezembro, quando o socialista já havia sido eleito governador do DF. Um mês depois, Vasco Gonçalves, servidor do banco, foi anunciado presidente do BRB.

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Ainda em novembro de 2014, outro e-mail foi enviado por Vasco a Ricardo Leal. Dessa vez, o pedido veio para acomodar a mulher dele na estrutura do GDF: “Ricardo, curriculum da minha esposa que é concursada de nível superior do DF, já trabalhou na Secretaria da Criança e hoje está na Secretaria de Desenvolvimento Social. Se puder aproveitar em alguma subsecretaria como SUBSAS. Abraço, Vasco Gonçalves”.

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Segundo o MPF, são pelo menos uma dezena de e-mails nesse estilo, cuja reprodução tornaria a peça extensa.

Após envio de currículo por e-mail a Ricardo Leal, o cunhado de Vasco se tornou o responsável pela Diretoria de Controle do BRB. Passou a chefiar a área de auditoria e compliance do banco. Houve até uma mudança  no estatuto para permitir a nomeação de Marco Aurélio. A intenção com a nomeação era a de que não houvesse “empecilhos ao andamento e ao desenvolvimento da organização criminosa recém-instalada”, destaca denúncia do MPF.

Ricardo Leal ampliou esquema
Segundo detalha a denúncia, as ingerências no esquema criminoso foram ampliadas com a chegada de Leal. Os promotores apontam que, em 2014, havia uma associação entre pai e filho para cometerem crimes, referindo-se a Henrique Leite, ex-diretor da BRB DTVM, e seu pai, Henrique Neto.

No entanto, o cenário se tornou mais complexo no início de 2015, com a troca de governo e “a costumeira realocação de indicados políticos”. “Ricardo Leal passa a operar a renovação da composição da instituição com pessoas de sua confiança, significando dizer que eram pessoas dispostas a seguir suas orientações para a prática de atos ilícitos. Nesse momento, no começo de 2015, assume Vasco Gonçalves como presidente do BRB e Nilban Júnior, como presidente da BRB DTVM”, diz a denúncia do MPF.

Tudo sob tutela e indicação de Leal, ressalta o MPF: “A pluralidade de crimes fica caracterizada por aproximadamente 50 pagamentos detectados entre os anos de 2013 e 2017. Mesmo com alguma variação, nenhum dos membros permanentes da organização criminosa a que se imputa este crime atuou em período menor do que dois anos”.

O outro lado
O advogado de Vasco Cunha Gonçalves, Iuri Cavalcante Reis, informou, por meio de nota, que a denúncia oferecida pelo Ministério Público Federal tem como fundamento “meras conjecturas e presunções”.

“Será  comprovado que o sr. Vasco não teve nenhuma participação nos fatos denunciados, os quais ocorreram no âmbito da empresa coligada denominada BRB DTVM e são anteriores a sua nomeação ao cargo de diretor-presidente do BRB”, ressaltou.

Metrópoles tentou entrar em contato com os advogados de defesa de Ricardo Leal e Nilban Júnior, mas eles não atenderam as ligações.