Região onde fica o Distrito Federal é habitada há 8.414 anos

A descoberta histórica foi constatada por arqueólogos durante estudos no sítio arqueológico de Cachoeirinha, no Paranoá

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 08/10/2019 14:28

Uma descoberta de pesquisadores no Distrito Federal começou a revelar a história dos primeiros habitantes da capital do Brasil. Após três anos de estudos, arqueólogos de Aparecida de Goiânia (GO) desvendaram que humanos pisaram em solo candango há 8.414 anos.

A datação inédita foi constatada pelo arqueólogo Edilson Teixeira de Souza, da empresa AL Consultoria, após análises no sítio arqueológico de Cachoeirinha, localizado na região do Paranoá. O complexo foi encontrado em 2016, durante estudos orientados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Na ocasião, tal descoberta foi noticiada pelo Metrópoles.

Conforme Margareth Souza, arqueóloga do Iphan-DF, as pesquisas começaram em 2016, na área que atualmente comporta o sítio arqueológico. “Haviam começado obras em uma rodovia e em um condomínio e, como é uma área com grande potencial arqueológico, nós fomos avaliar o que precisava ser feito. Foi então que descobrimos o sítio”, contou.

Sobre a datação, a profissional ressaltou a importância da novidade para estudos futuros de história. “Vai contribuir muito para banco de dados sobre primeiros habitantes da América Latina, até”, destacou.

Fragmentos de carvão

Pós-graduado em geofísica e professor de geologia da Universidade de Brasília (UnB), Elder Yokoyama é um dos pesquisadores que compõem os estudos no complexo de Cachoeirinha. À reportagem, ele contou que a datação partiu de análises de fragmentos de carvão encontrados em uma escavação no local.

“A maior parte dos sítios não tem carvão associado, então não é tão simples encontrar carvão e associar a algum tipo de uso humano. Mas, nesse sítio, a cerca de 60 centímetros do chão, foram detectados fragmentos com cinzas associadas, mostrando uma fogueira ali”, explicou o geólogo.

As partículas preservadas durante milênios foram encaminhadas para um laboratório nos Estados Unidos. “A gente não tem no país um laboratório com certificação, por isso mandamos para fora. Foi então que confirmamos essa idade de mais de 8 mil anos”, disse.

Arqueóloga coordenadora da segunda fase dos estudos – iniciada em agosto deste ano –, Carolina Abreu contou que as pesquisas atuais vêm de uma parceria entre a UnB e a sua empresa, Cerrado Rupestre. Assim como Yokoyama, ela reforçou a importância do carvão na exploração.

“Em Brasília, tem pouco mais de 60 sítios arqueológicos, e esse é o primeiro que teve material para podermos datar. O sítio é de material lítico, pedra lascada. Mas a pedra a gente não consegue datar, só matéria orgânica, então utilizamos o carvão.”

De acordo com a arqueóloga, a segunda fase da pesquisa visa buscar novos materiais, além dos mais de 10 mil que já foram descobertos. A escavação deve durar mais um mês e a pesquisa, oito meses.

“Quando falamos que é uma pesquisa arqueológica, a gente pensa só na escavação. Mas, neste caso, grande parte do material está na superfície, então temos duas etapas. A primeira buscava saber sobre o sítio e qual o tipo dele, chamada de prospecção. A segunda chamamos de resgate, porque temos algumas etapas: coleta, abertura de sondagens [busca por locais para escavar] e escavação”, descreveu.

Fazendas coloniais

Para Carolina, o resultado da datação mostra a importância da região em que se localiza a capital da República. “Brasília tem essa história de que surgiu em 1960, mas temos outros fatos históricos de fazendas coloniais que já existiam aqui. Mas isso tudo é do século 19 para cá. Com isso, a gente acaba apagando a história de ocupação humana aqui. E obter essa data mostra que é uma região habitada há 8 mil anos, uma região rica de recursos.”

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