Reação de policial federal foi “proporcional”, diz advogado
Defesa de agente alega legítima defesa no caso que levou à morte de Cláudio Moreira. Mas especialista diz que o policial agiu de forma abusiva
atualizado
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O policial federal Ricardo Matias Rodrigues, 44 anos, agiu corretamente ao disparar contra duas pessoas e matar uma delas durante a festa no barco Lake Palace na noite de sábado (8/10). Pelo menos essa é a opinião do advogado Antônio Rodrigo Machado, responsável pela defesa do agente. “Ele agiu de maneira proporcional ao que estava acontecendo”, disse Machado ao Metrópoles.
O defensor nega que o cliente estivesse alcoolizado no momento em que atirou em Fábio da Cunha, 37 anos, e em Cláudio Muller Moreira, 47. Cunha sobreviveu, mas Muller morreu pouco depois de chegar ao Hospital de Base. “Foram apenas duas ou três taças de vinho”, acrescentou Machado. O advogado disse ainda que o policial federal Ricardo Rodrigues não cometeu infração por consumir bebidas alcoólicas enquanto portava a pistola em uma festa.Segundo Machado, o policial federal “trabalha na área de inteligência e precisa andar armado 24 horas por dia devido à função que executa. E ele atirou no abdômen para imobilizar de vez os dois homens. Foi uma atitude de proteção com as crianças e as demais pessoas que estavam no barco.”
Críticas
Os argumentos do advogado, no entanto, são questionados pela especialista em segurança pública Maria Stela Grossi Porto. “O policial federal usou a arma de forma exagerada, abusiva e desnecessária. Ele não estava a serviço e não tinha por que estar armado. Foi um abuso de força e de poder”, afirmou Maria Stela, que é professora de sociologia da Universidade de Brasília (UnB)
A especialista também criticou o fato de Ricardo Matias Rodrigues ter ingerido bebidas alcoólicas, conforme o próprio policial federal admitiu, em depoimento prestado na 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), na noite da tragédia.
Independentemente de ser uma ou três taças de vinho, a quantia é mais do que suficiente para que o policial não portasse uma arma. Ele agiu como civil, não como como policial. Se eu vou para uma festa e sei que vou beber, é melhor deixar a arma em casa. Naquele momento ele pensou apenas nele, e não no bem da sociedade
Maria Stela Grossi Porto, especialista em segurança pública
Diferentes versões
A confusão que resultou na tragédia ocorreu no fim de uma festa no barco Lake Palace, atracado no Clube Motonáutica, no Setor de Clubes Norte. A esposa de Cláudio Muller, Valderly da Silva Feitosa, teria se desentendido com uma das três aniversariantes que tinham alugado a embarcação.
Valderly levou um tapa no rosto e, ao comentar o caso com o marido, Cláudio Muller e o amigo Fábio da Cunha foram reclamar com a suposta agressora.
As vítimas alegaram, em depoimento, que o policial federal Ricardo Rodrigues, cuja esposa era a organizadora da festa, teria visto Muller e Cunha exaltados. Rodrigues começou a discutir com eles, sacou a arma e atirou.

Sepultamento
Na tarde de segunda-feira (10), durante o sepultamento de Cláudio Muller no Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul, uma testemunha que presenciou a confusão contou ao Metrópoles como foi a confusão. A mulher, que pediu para não ter o nome divulgado, disse que em momento algum Ricardo Rodrigues avisou que era policial federal. “Quando a mulher do Cláudio contou que teria apanhado de uma das aniversariantes, ele ficou muito nervoso e retornou ao barco com o Fábio. Os dois homens começaram a bater boca com a aniversariante, e a Renata — que é a mulher do policial federal — tentou acalmar os ânimos. Ao ver que a esposa estava no meio da confusão, Ricardo se aproximou, sacou a arma e atirou contra Cláudio e Fábio”, disse.
A defesa de Ricardo Rodrigues, no entanto, contestou o relato. O advogado Antônio Rodrigo Machado ressaltou que o policial seguiu o procedimento padrão. “De uma forma tranquila, o Ricardo sacou a arma com uma mão e, com a outra, pediu para os homens se afastarem, avisando que era da polícia. Eles não obedeceram. Por isso ele atirou contra o Cláudio e, mesmo assim, o Fábio foi para cima dele. Houve uma atitude proporcional ao risco que o Cláudio e o Fábio representavam diante de tamanho destemperamento”, afirma Machado, acrescentando que o policial foi a um psicólogo nesta segunda (10) “para lidar com tudo que ocorreu”.
Nesta segunda-feira (10), a Polícia Federal informou que o agente não Será afastado das funções. Por meio de nota, a corporação disse que vai instaurar um procedimento administrativo disciplinar para apurar a conduta do servidor e acompanhar as investigações da Polícia Civil.
A defesa segue a linha de que os tiros foram disparados em legítima defesa. No entanto, fontes da Polícia Civil disseram à reportagem que essa tese dificilmente se sustentará. Há a possibilidade de o autor dos disparos ser indiciado por homicídio qualificado e até um agravante de motivo fútil.
Oficialmente, a Polícia Civil afirmou que “a legítima defesa, assim como um homicídio qualificado, serão aferidos,
Segundo amigos de Cláudio Muller ouvidos pelo Metrópoles, o bancário era uma pessoa tranquila e pacífica, que nunca se envolvia em confusões. Assessor empresarial de tecnologia de informação do Banco do Brasil, ele nasceu no Rio de Janeiro e veio para Brasília em 1998. Cláudio deixa uma filha de 22 anos, do primeiro casamento, e outra de 9 anos, além da esposa e de um enteado.
Colaborou João Gabriel Amador
