Professor envenenado: PCDF apreende celulares de servidores

Polícia Civil investiga a morte de Odailton Charles, que ficou cinco dias internado após ingerir um raticida e não resistiu

Facebook/Reprodução

atualizado 09/02/2020 10:54

A Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) apreendeu dois aparelhos celulares de servidores do Centro de Ensino Fundamental (CEF) 410 Norte. A escola era a unidade onde o professor Odailton Charles de Albuquerque Silva, 50 anos, estava quando foi envenenado com raticida. Ele ficou cinco dias internado e morreu na última terça-feira (04/02/2020), no Hospital Regional da Asa Norte (Hran).

“Vamos pedir uma série de medidas judiciais para ter acesso aos dados dos aparelhos”, afirmou o delegado-chefe da 2ª DP (Asa Norte), Laércio Rossetto, que comanda as investigações. Segundo áudios gravados pelo professor após passar mal, uma colega teria oferecido suco para ele.

As declarações do delegado Rossetto foram dadas ao Metrópoles na quinta-feira (06/02/2020), um dia antes de a reportagem revelar que, em áudio enviado a um amigo, Charles, como era conhecido, denunciou suposto esquema de “rachadinha” no CEF 410 Norte. Na gravação, o ex-diretor afirmou que levaria a denúncia para a Coordenação Regional de Ensino do Plano Piloto.

O docente se preparava para deixar o cargo de direção da unidade educacional e comentou que visitaria o colégio para se “acertar com o pessoal”. “Quinta-feira, eu vou lá na escola, fazer os acertos com o pessoal, passar extrato bancário, essas coisas que tenho que passar. Estou recolhendo uns documentos particulares para fazer uma denúncia formal na [Coordenação] Regional de Ensino”, diz.

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No áudio, o educador continua dizendo que a denúncia envolveria “um dinheiro” deixado por ele no colégio. “Eles [os superiores] nunca repassaram para mim. Seguraram o dinheiro e agora estão utilizando da forma como eles querem, contratando a empresa que eles querem também. Acho que está havendo ‘rachadinha’ lá”, comenta.

Segundo Charles, a acusação do esquema partiu de dentro da escola. “Andei conversando com os colegas e está havendo ‘racho’ de dinheiro, propina para beneficiar empreiteiros. Por isso que eu indiquei dois ou três empreiteiros lá e eles não aceitaram de jeito nenhum. Seguraram o dinheiro até agora em janeiro. Agora, está de vento em popa, liberando dinheiro à vontade lá. Então, vou fazer essa denúncia, vou recolher tudo que eu tenho de prova, de gravação, e vou arrebentar a boca do balão lá.”

O professor termina o áudio manifestando também o interesse de levar o caso à Justiça. “Vou botar no pau esse povo, comigo vai ser tudo na Justiça”, finaliza. Em nota, a Secretaria de Educação (SEE-DF) disse que vai aguardar as investigações policiais e a finalização do inquérito para se pronunciar.

Ouça o áudio: 

Nota da escola

A direção do CEF 410 Norte afirmou, em nota enviada à imprensa na sexta-feira (07/02/2020), que nenhum funcionário da escola serviu qualquer “substância líquida” a Charles.

“A única substância líquida que o professor Charles ingeriu no CEF 410 Norte foi água, o que o fez por vontade livre, colhendo-a na sala dos professores diante de outras pessoas que ali estavam”, diz o documento.

Ainda no comunicado, o colégio frisa que, no dia do episódio (30/01/2020), apenas alguns servidores terceirizados e educadores estavam na escola, para preparar as dependências que estavam em obras. “Não havia nenhuma reunião agendada entre a atual equipe gestora e o ex-diretor”, pontuou a direção.

O CEF 410 Norte também salientou que não houve “nenhum processo de transição” entre a administração de Charles e a da servidora escolhida como nova gestora da unidade. Em áudios enviados a amigos, o docente relata que desconfiava de “algo em sua bebida”.

Sobre a alegação, o centro de ensino foi enfático: “O professor Charles, em todo tempo que permaneceu na escola, aproximadamente duas horas, antes de passar mal, em nenhum momento ficou sozinho com a servidora apontada”.

Por fim, a direção assegurou ter realizado todos os procedimentos iniciais de socorro ao docente – ele começou a passar mal dentro da escola. O CEF 410 Norte não se pronunciou a respeito do argumento de Charles de que haveria um suposto esquema de “rachadinha” na unidade educacional.

Enterro

Na quinta-feira (06/02/2020), amigos e parentes se despediram do professor Charles. O enterro foi realizado no Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul.

O envenenamento ocorreu enquanto Charles participava de uma reunião na escola da qual foi diretor por seis anos. Ele tomou alguma bebida – acreditava-se ser suco de uva, e, poucos minutos depois, começou a passar mal.

Durante a crise, enviou áudios angustiantes a familiares e colegas, pedindo socorro e detalhando seu estado de saúde. O docente chegou a dizer nas gravações de WhatsApp que desconfiava de alguma substância estranha em sua bebida.

“Alguém me ajuda, alguém me ajuda. Eu cheguei aqui, tomei um suco e acho que colocaram laxante, estou com muita diarreia”, disse o educador.

Uma servidora que estava com o docente em reunião e presenciou o episódio telefonou para a esposa de Charles e informou que ele estava passando mal. A mulher do educador sugeriu que o marido fosse levado ao hospital. O Corpo de Bombeiros foi acionado e conduziu o ex-diretor ao Hran.

Segundo a reportagem apurou com pessoas próximas ao professor, Charles chegou a relatar dificuldade de relacionamento com uma colega da escola, justamente quem teria lhe oferecido bebida no dia da reunião. O Metrópoles não vai divulgar o nome da servidora porque o caso está sob apuração.

Em nota, a Secretaria de Educação disse que “lamenta o ocorrido e irá aguardar as conclusões do inquérito policial”. 

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