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Distrito Federal

Prima desmente dom mediúnico de Maira Rocha: "Não passaria despercebida"

Prima de Maira conta que mediunidade seria notada pela família. Ela também contradiz história de que um apelido teria sido dado por espírito

07/09/2026 20:02
Metrópoles
Prima desmente dom mediúnico de Maira Rocha: “Não passaria despercebida”

Uma prima da médium Maira Rocha veio a público e desmentiu a líder espírita, alegando que a família nunca soube do dom mediúnico da mulher — ao contrário do que ela afirma nas redes sociais. “A minha mãe conta as primeiras experiências a partir dos 4 anos, eu me recordo a partir dos 7 anos”, alega Maira nas redes sociais. “Novidade para todos nós. Como a cidade é pequena, essa mediunidade que ela alega ter não passaria despercebida”, afirmou Márcia Rocha em entrevista ao Fantástico, da TV Globo. O caso foi revelado em primeira mão pelo Metrópoles.

A declaração de Maira viralizou nas redes sociais, em um vídeo gravado e publicado por ela por mesmo no próprio perfil. A médium chegou a dizer que os sinais foram notadas pela família ainda durante a infância. Márcia Rocha, no entanto, desdiz a parente. A prima detalha que o dom não passaria despercebido pela família nem pelos moradores da cidade em que ambas cresceram — Jati, cidade do interior do Ceará, com aproximadamente 8 mil habitantes.

A prima da médium contou, ainda, outra versão  sobre o apelido “Lê”, dado a Maira. Segundo a médium, um espírito que a ensinou ler se referia a ela dessa forma. Márcia Rocha, entretanto, disse que o apelido não passa de uma abreviação do segundo nome da espírita. “Na verdade, o apelido Lê veio do nome dela, Alexandrina. Maira Alexandrina”. 

Maira Rocha foi procurada pela reportagem em mais de uma ocasião, por meio do Instagram da Casa de Caridade Inácio Daniel e, também, pelo número de telefone dela. A médium, porém, não respondeu a nenhuma das tentativas. O espaço segue aberto para qualquer manifestação.

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Leilões, inquérito civil e cartas falsas

A médium Maira Rocha comanda a Casa de Caridade Inácio Daniel, localizada em Águas Claras (DF). Ela chegou a receber R$ 57 mil em apenas um vestido, durante um leilão de roupas utilizadas por ela enquanto escrevia cartas psicografadas. As pessoas eram ludibriadas a comprar os itens, acreditando ser um objeto “ungido”, visto que foi usada pela médium no momento em que “trabalhava espiritualmente”.

Ao longo das últimas semanas, o Metrópoles investigou o serviço ofertado pela médium e publicou várias reportagens detalhando o sentimento de enganação das vítimas de Maira Rocha.

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Na reportagem veiculada pela TV Globo, neste domingo (6/9), a mulher que comprou o tal vestido disse que, a princípio, acreditava que o valor era justo, já que as roupas tinham sido usadas por Maira enquanto se encontrava com os entes queridos no plano espiritual. Veja a peça de roupa abaixo:

Médium arrecadou mais de R$ 50 mil com roupa que usou enquanto psicografava cartas

Um casal também chegou a pagar R$ 11 mil em um amuleto que, segundo a médium, estava com todas as energias dela. “Coloquei todas as minhas energias neste amuleto. Todas as energias ruins que eu tinha, ele me tirou e me trouxe muitas alegrias. Entro em casa todos os dias e vejo muitos espíritos ali perto dele”, relatou a gestora da Casa de Caridade Inácio Daniel.

Médium leiloou amuleto que, segundo ela, a protegia de todo mal

Relembre os casos

Diversos ex-frequentadores e membros influentes do meio espiritualista afirmam categoricamente que as psicografias de Maira são profundamente imprecisas e repletas de conceitos errôneos e mal interpretados, coletados às pressas na internet.

As vítimas explicam que, no auge do desespero, a imensa carga emocional impede a percepção imediata das falhas e das discrepâncias. Contudo, superado o impacto inicial, a constatação da má-fé se torna cristalina. Neste momento é percebido que as informações dos textos psicografados por Maira teriam sido retiradas de postagens no Instagram, Facebook e outras redes sociais. Algumas das mensagens, inclusive, contém informações falsas.

Em uma nota publicada no site oficial da Casa de Caridade Inácio Daniel, a equipe explica como funciona a elaboração das cartas. De acordo com as regras, qualquer pessoa pode receber uma mensagem de um ente querido. Para isso, basta inserir o próprio nome em um livro disponível nas sessões. Em seguida, é necessário comparecer a mais um evento e, “caso seja permitido à quem se foi ditar uma carta, a Maira irá escrever e te entregar”.

O serviço é gratuito, porém, não é garantido que todos recebam o recado. “O telefone só toca de lá pra cá, ou seja, você só receberá a carta se quem for escrever tiver permissão para isso”.

Entretanto, muitos dos que receberam o serviço afirmam que a realidade não é bem essa. O conteúdo dos textos vêm de publicações feitas em alguma rede social, segundo relatos obtidos pelo Metrópoles.

É o caso de Paulo*, 52 anos, que recebeu um bilhete da falecida mãe, Gabriela*. Ao ler o conteúdo escrito por Maira Rocha, ele se emocionou, mas só depois percebeu que algumas informações estavam erradas e outras haviam sido retiradas do Instagram e do Facebook.

O texto começa: “Meus amados filhos, lembro que quando pequenos eu ensinava a Salve Rainha com a régua na mão, era preciso viu”. Um comentário na conta pessoal de Gabriela no Facebook diz exatamente a mesma coisa: “Lembro como se fosse hoje, ela batendo a régua na perna e nos ensinando a Salve Rainha”.

O padrão segue ao longo de todo o texto. O problema maior é quando a carta, supostamente ditada pela falecida, cita o nome de uma neta que simplesmente não existe. A família acredita que é porque uma das noras fez algumas publicações falando que amava a filha, Fernanda*— só que esta é de outro casamento, ou seja, não é neta de Gabriela. A mensagem ainda esqueceu de mencionar o nome de alguns netos.

Uma contradição percebida pela família é que a Juliana*, irmã de Gabriela, usa o nome Julie na sua conta pessoal no Facebook, e esse mesmo apelido aparece no texto. No entanto, a família afirma que a mulher jamais teria chamado a irmã assim.

Outro trecho mostra que Maira realizava um verdadeiro trabalho de apuração antes das psicografias.  Um parágrafo — que foi retirado de uma comunidade de ciclistas no Facebook — demonstra que a médium realizava de fato uma pesquisa aprofundada sobre a vida da pessoa morta e todo o seu círculo social.

Maira buscava informações até mesmo em comunidades do Facebook

A mesma carta ainda traz mais duas similaridades com duas postagens feitas na rede social. A primeira parabeniza um dos filhos pela formatura na graduação. Um post aberto ao público repete a mesma informação.

Psicografia parece ter sido tirada de comentários do Facebook

Outro recorte mostra o mesmo filho comentando sobre como ele se parece com a mãe. A carta de Maira traz exatamente a mesma comparação.

Carta compara como filho se parece com mãe, após próprio filho fazer esse comentário publicamente

Algumas outras coincidências foram notadas, como no trecho pontuado por outra família que perdeu um ente querido, onde o suposto espírito da avó teria mandado recado aos netos: “Festa linda e maravilhosa de 15 anos da minha neta”.

Depois, a avó, do plano espiritual, teria pedido ao filho que “não pintasse mais o cabelo do neto”. As duas informações estavam públicas em posts antigos no Facebook escritos pela senhora quando ainda vida.

Após descobrirem a fraude, revoltados, os parentes levaram o caso à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) para denunciar a médium.

Uma outra mulher também afirma ter sido vítima de Maira Rocha. Ao Metrópoles, Fábia* relatou que perdeu o pai e. um ano e meio depois, a mãe. Vulnerável e atrás de respostas, ela chegou à Casa Inácio Daniel e foi convidada a prestar trabalho voluntário. Tanto ela quanto as irmãs trabalharam no lugar por um tempo e também recebiam, através de Maira, supostos recados dos pais desencarnados.

Ela narrou que desde as primeiras mensagens, os filhos e sobrinhos já tinham alertado que o conteúdo parecia ter sido tirado de informações publicadas em mídias sociais, mas as mulheres estavam em um momento tão sensível que preferiram não acreditar.

“Quando a gente está tomado por uma dor, se apega a qualquer migalha”, lamentou Fábia.

A suspeita das irmãs surgiu quando Maira afirmou ter estado com a mãe de um auxiliar de uma médium conhecida no Rio de Janeiro. Elas correram para contar ao homem — que estava planejando ir a Brasília conhecer o trabalho dela. Ao saber, ele disse que a mulher descrita por Maira não era sua mãe, mas a própria médium para quem ele trabalhava no Rio.

“Cheguei em casa e contatei ele ansiosa para dar essa grande notícia. Falei exatamente como ela falou. Ele deu uma pausa e disse: ‘Eu agradeço muito você ter me avisado, mas ela nunca foi médium. A única foto que tenho nas minhas redes sociais é com a minha médium. Foi essa foto que ela [Maira] viu, não tinha legenda’. A partir desse momento, comecei a ficar mais atenta aos filhos e sobrinhos que diziam o mesmo. Mas o luto nos faz escorar em qualquer pedaço que alivie a dor”, disse uma das irmãs.

Somente depois disso, começaram a olhar com mais atenção aos detalhes dos transcritos. O que mais chamou a atenção, no entanto, foi uma carta falsamente pscicografada por Maira, onde em um trecho traz um erro grotesco ao dizer que a falecida foi ao casamento do filho em espírito. O detalhe é que quando o filho se casou, a mãe ainda estava viva.

Carta psicografada cita nome de um neto que nunca existiu

Uma situação similar à do primeiro caso se repetiu nas mensagens para a mesma família. O bilhete chama uma pessoa por um apelido — o mesmo que ela usa nas redes, mas, segundo a família, a falecida jamais a chamou por esse nome.

Mulher usava um pseudo nome nas redes. Segundo família, falecida jamais usou esse termo para se referir a parente

Em outro trecho, o recado manda beijo nominalmente para todos os netos, mas esquece de dois e cita um tal de Júlio, que sequer existe.

Carta psicografada cita nome de um neto que nunca existiu

“Começamos a fazer uma investigação mais refinada e os nomes dos netos ela usou como nas redes, e não como os avós os chamavam carinhosamente. E o pior: esqueceu do neto caçula que morava com eles. Depois que ela se foi, nasceu o último neto, que sequer foi lembrado”, narraram.

A família notou ainda que a apuração de Maira Rocha não se resumia às redes sociais: a realidade mostra um trabalho de investigação mais aprofundado. Uma frase de uma carta piscografada parece ter sido retirada de uma busca por um CNPJ de uma loja da família.

Trabalho de investigação de Maira para escrever carta levou médium a pesquisar CPNJ da família na busca por informações

Diferentemente dos recados soltos que recebiam, quando de fato a carta psicografada foi escrita, as irmãs disseram que sequer conseguiram se emocionar, ainda mais pelas informações desconexas apresentadas ao longo do conteúdo.

“Recebemos a tão sonhada carta, mas era tão desconexa que não conseguimos nem chorar de emoção. Foram informações picadas e sem nenhum sentimento”.

A verdade ficou ainda mais insustentável quando a família percebeu que médium usava informações óbvias, fáceis de ser encontradas, como elogiar os quadros pintados por uma das filhas, sendo que esta postava abertamente todos seus trabalhos.

Carta sugere que falecida elogiou os quadros de filha — os mesmos que ela publicava em uma página nas mídias sociais.