A rotina de cerimônias militares na capital do país impôs dura jornada aos praças do Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília. Soldados, cabos e sargentos relatam expediente de trabalho de mais de 30 horas seguidas, com alimentação escassa e pouco tempo de descanso. Há cerca de um mês, as escalas foram alteradas para o modelo “um por um” na linguagem militar. O que significa, na prática, 30 horas consecutivas de trabalho – sendo 24 horas de “serviço” e seis do expediente regular. O intervalo entre elas é de 18 horas.

Desde a mudança, esses integrantes da Marinha passaram a se apresentar no quartel às 8h. Às 10h, começam a cumprir serviços externos, só retornando ao grupamento às 10h do dia posterior. Na unidade militar, desempenham tarefas, como limpeza das instalações, até as 16h – quando não há trabalho extra. No dia seguinte, voltam às 8h para mais 30 horas de jornada.

A reportagem ouviu sete praças lotados no local. Todos denunciaram as condições, classificadas por eles de desumanas. Os militares pediram anonimato por medo de duras represálias.

Estamos esgotados fisicamente, mentalmente, mas ficamos calados. Não temos o que fazer. Qualquer deslize, somos presos e castigados. É trabalho escravo, desumano"
Militar do Grupamento de Fuzileiros Navais do DF

E o serviço cotidiano tem sido ainda maior. Segundo os militares de baixa patente, eles são constantemente convocados, além do horário acordado, para cerimônias e eventos. Alguns relataram ao Metrópoles estarem há mais de cinco dias sem conseguir voltar para casa.

Antes da alteração nas escalas, os militares só faziam o plantão de 24 horas a cada três dias, o chamado “três para um”. Nos intervalos, trabalhavam apenas as seis horas do “expediente”, na linguagem da caserna.

Além da rotina extenuante, os praças reclamam da qualidade da comida oferecida pelo Grupamento. A posse do novo comandante da Marinha, que contou com a presença do presidente Jair Bolsonaro (PSL), na última quarta-feira (9/1), foi um dos momentos mais críticos para os marinheiros de baixa patente.

Escalados para participar da cerimônia e fazer o controle do trânsito nas proximidades do Clube Naval e do Ministério da Defesa, os militares assumiram os postos às 7h e só retornaram ao quartel, sem comida, às 15h30. No rancho, foram oferecidos a eles apenas arroz e feijão.

Confira:

Material cedido ao Metrópoles

 

Após o almoço, eles cumpriram o expediente fazendo faxina nas dependências da unidade militar até as 20h. Militares ouvidos pela reportagem disseram que alguns reclamaram da situação e foram chamados de “vagabundos” e “lesadores” pelos superiores.

Mensagens
O Metrópoles teve acesso a mensagens de um dos comandantes da unidade militar aos praças. Em um primeiro texto, do dia 28 de dezembro, ele reconhece que a “rotina não está fácil”.

No dia 5 de janeiro, foi informado aos soldados, cabos e sargentos que o “comando está ciente da quebradeira” e que está tentando “coordenar rotinas aliviadas, licenças e afins”. A previsão dada era de que as escalas voltariam ao normal em 4 de janeiro, o que não ocorreu.

Na última terça-feira (8), o discurso foi semelhante. E o comandante fez um alerta: “Apesar das diversas cerimônias, cuidar do apuro nos uniformes. Evitar cadeia desnecessária”. Segundo praças ouvidos pela reportagem, muitos militares foram advertidos por conta do estado das fardas, já que não conseguem voltar para casa.

Confira as mensagens:

 

O Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília conta com cerca de 200 soldados, cabos e sargentos. Apesar do cansaço, eles dizem temer questionar as ordens dos oficiais ou denunciar a situação.

“Quem não obedece é marcado, fica sendo chamado de vagabundo e recebe ainda mais tarefas como punição”, contou um dos praças ouvidos pelo Metrópoles.

O outro lado
Por meio de nota, o Comando do 7º Distrito Naval, responsável pelo Grupamento de Fuzileiros Navais de Brasília, informou que “tem como prioridade a manutenção das boas condições de trabalho dos militares”, mas ponderou que “a carreira militar, conforme prevê o Estatuto dos Militares, é pautada pela abnegação e espírito de sacrifício”.

Segundo o texto, as escalas foram alteradas para todas as graduações, mas apenas os soldados passaram a trabalhar no esquema “um por um”. “Devido à realização de operação e cerimônias militares, bem como em decorrência das movimentações para outros estados da Federação”, informou a nota.

“Apesar da escala um por um ser evitada, esse procedimento não contraria as normas vigentes desta Força, conforme consta na Ordenança Geral para o Serviço da Armada, norma da Marinha do Brasil que regulamenta os serviços internos das organizações militares”, completa a nota.

O documento diz ainda que, “em relação às tarefas extras após o horário de trabalho, a carreira militar, conforme prevê o Estatuto dos Militares, é pautada pela abnegação e espírito de sacrifício. Os militares têm dedicação exclusiva ao serviço e devem estar disponíveis diuturnamente. Em virtude dos preparativos para operação e cerimônias, pode ocorrer, de maneira episódica e por imposição da
missão a ser cumprida, a necessidade de exercer tarefas após o expediente”.

Sobre a alimentação, o Comando nega ter oferecido apenas arroz e feijão. “Alguns militares almoçaram após o horário previsto, em virtude da participação em tarefas realizadas fora daquele aquartelamento. Nesses casos, foram oferecidos lanches aos militares envolvidos, não ocorrendo intervalo de 20 horas sem alimentação.”