Por que pacientes que usam bolsas de colostomia temem infecção no DF

Associação dos Ostomizados do DF afirma que cerca de 2,5 mil pacientes são afetados pela redução de aproximadamente 50% na entrega

atualizado

metropoles.com

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Pacientes do Distrito Federal que utilizam bolsas de colostomia – equipamento acoplado ao abdômen para coleta de fezes após cirurgias intestinais — denunciam a redução de cerca de 50% –  e até total – na entrega do material pela rede pública de Saúde há mais de seis meses. Cerca de 2,5 mil pessoas são atendidas pela Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) e vêm sendo impactadas pela escassez, o que tem levado muitos pacientes a prolongar o uso das bolsas além do recomendado, com aumento do risco de infecções, vazamentos e lesões na pele.

A Associação dos Ostomizados do Distrito Federal (AOSDF) afirma que tem atuado em caráter emergencial para atender quem fica sem insumos antes da data de reposição. A presidente da associação, Ana Paula Batista, relata que a situação é recorrente no dia a dia dos atendimentos.

“Há pessoas que precisam trocar o equipamento várias vezes ao dia, principalmente em casos de diarreia ou quando há irritação na pele. Quando falta, a gente tenta segurar como pode”, afirma. A associação também distribui fraldas, cestas básicas e insumos obtidos por meio de doações e parcerias para reduzir o impacto da escassez.

A SES-DF confirmou que houve desabastecimento de bolsas para ostomia em algumas unidades da rede. A pasta informou que já adotou as providências necessárias e que o processo licitatório para aquisição do insumo está em andamento, na etapa de assinatura das atas de registro de preços. Segundo a secretaria, assim que as atas forem assinadas pelas empresas e pela SES-DF, serão emitidos os pedidos para regularização dos estoques na rede.

“SES-DF reforça que o fornecimento dos insumos ocorre de forma gratuita, organizada e baseada em avaliação clínica individual, garantindo assistência qualificada e segura às pessoas com estomias no Distrito Federal”, conclui.

Dificuldades no tratamento

Ostomia é um procedimento cirúrgico que cria uma comunicação entre um órgão interno e o meio externo através do abdômen, permitindo, assim, a eliminação de fezes ou urina. Existe a colostomia, que é uma abertura no intestino grosso; a ileostomia, uma abertura no intestino delgado; e a urostomia, que é o desvio das vias urinárias.

Elizangela Maria Fernandes, 50 anos, moradora de Planaltina, utiliza bolsa de ileostomia após uma infecção intestinal que provocou obstrução no intestino. “Fiquei desesperada porque não tinha bolsa suficiente e tive que recorrer a associação. Procurei no hospital regional e na policlínica, mas não tinha, estava em falta total”, relata.

Em Sobradinho, a auxiliar de farmácia Cristina Oliveira Nunes, 38 anos, vive com ileostomia desde 2017, após complicações da doença de Crohn. A enfermidade levaram à retirada do intestino grosso.

“Se eu troco antes, depois fico sem nenhuma. A gente acaba escolhendo entre sentir dor agora ou o risco de ficar sem proteção depois”, afirma. Ela relata que a redução no fornecimento — de cerca de 20 bolsas para aproximadamente 10 por mês — tem gerado insegurança constante e, em alguns casos, obriga o prolongamento do uso do equipamento por falta de reposição.

Cristina reforça que a dependência do dispositivo é diária e que a falta de insumos pode provocar complicações como irritações severas e risco de infecção.

Já Maria Lúcia Mendes Pedrosa, 52 anos, utiliza bolsa de colostomia desde dezembro de 2024, após diagnóstico de câncer no reto identificado depois de um acidente de carro. Ela conta que, antes da descoberta da doença, sentia sintomas que não compreendia. “Eu ficava com constipação, com dificuldade para evacuar, e não sabia o porquê. O acidente acabou sendo um susto, mas também o que me levou a descobrir a doença”, relata.

Ela afirma que a redução no fornecimento fez com que precisasse arcar com parte dos custos do próprio bolso. Segundo ela, cada bolsa custa cerca de R$ 80. “A gente adoece e tem que pagar pela doença. Isso é dever do Estado”, diz.

Direitos dos pacientes

O Estado pode ser responsabilizado judicialmente pela falta prolongada de bolsas de colostomia na rede pública do Distrito Federal, tanto por danos materiais quanto morais, é o que diz o advogado Daniel Ângelo Luiz da Silva.

“Quando o Estado se omite no fornecimento de um insumo essencial e isso causa agravamento do quadro de saúde, sofrimento, infecções ou prejuízos à qualidade de vida do paciente, há fundamento para responsabilização judicial”, afirma.

Ele explica ainda que os pacientes podem recorrer à Justiça para garantir o fornecimento imediato do material. “É possível ingressar com ação com pedido de tutela de urgência, a chamada liminar, para obrigar o Estado a fornecer a bolsa. Em geral, a Justiça analisa esse tipo de pedido com prioridade por envolver risco à saúde e à vida”, diz.

O advogado destaca que casos envolvendo idosos ou pessoas em situação de vulnerabilidade tendem a ter resposta mais rápida do Judiciário. “Há proteção reforçada nesses casos, o que acelera a análise judicial”, afirma.

Ele acrescenta que a falta do insumo também pode gerar indenização. “Quando há exposição a dor, constrangimento, falta de higiene ou risco de infecção, especialmente de forma prolongada e já conhecida pelo poder público, pode haver dano moral indenizável”, conclui.

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