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Buffets fartos e bebidas caras, ingressos de jogos de futebol, serviços de mídias sociais e até uniformes para um time de Brasília. Delatora das tratativas com políticos que alicerçaram a reforma do Estádio Nacional Mané Garrincha, a Andrade Gutierrez realizou todo tipo de “favor” ao ex-governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz (PT) na intenção de se garantir durante as obras.

Segundo executivos da construtora, a empresa teria bancado as diversas regalias a pedido do próprio petista. Os delatores apresentaram à Polícia Federal comprovantes relacionados às alegações, para dar respaldo aos acordos de colaboração premiada, homologados pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Os “mimos” constam do relatório final da PF, entregue nesta sexta-feira (18/8) à 10ª Vara da Justiça Federal do DF. Agnelo, além do também ex-governador José Roberto Arruda (PR) e do ex-vice-governador Tadeu Filippelli (PMDB), está entre os 21 indiciados por desvios na construção do estádio.

Clipping
De acordo com trechos da delação premiada do ex-diretor da Andrade Gutierrez Carlos José de Souza, o ex-governador do DF Agnelo Queiroz teria pedido que a empreiteira pagasse a uma empresa de mídias sociais R$ 1,8 milhão.

A contratação da Pollock 8 deu-se para que fosse realizado o acompanhamento de notícias em redes sociais relativas às obras do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Um serviço conhecido no jornalismo como “clipping”.

Em reunião realizada na Residência Oficial de Águas Claras, entre outubro e novembro de 2011, Queiroz teria orientado Carlos José a fazer os pagamentos em 12 vezes de R$ 150 mil. O compromisso de pagar foi firmado com o diretor da Pollock8, Sérgio Saad. O serviço tinha como base, segundo o sócio da empresa, Fabricio Souza Baptista, a verificação e análise em fontes abertas como blogs, Orkut, Facebook e sites de assuntos referentes à Copa do Mundo.

No entanto, o relatório final da Polícia Federal, baseado na Operação Panatenaico, joga dúvidas sobre o fato de um valor tão alto ser pago a uma empresa nova, com serviços que não justificavam a quantia.

“Causa estranheza uma empresa criada em 2011 e que consegue, no mesmo ano de sua inauguração, um contrato de R$1,8 milhão. Ao analisar o produto, não se observa qualquer grau de dificuldade que possa justificar essa quantia exorbitante”, diz o documento encaminhado à 10ª Vara Federal.

A operação milionária não estava sequer prevista em contrato firmado com o Consórcio Brasília. Ação que se repete na contratação do serviço de maquetes do estádio. Sem ser objeto de contrato, uma maquete eletrônica 3D e serviços relacionados ao seu funcionamento e aprimoramento também foram pagos pela Andrade Gutierrez.

Reprodução/PF

 

Negociação no canteiro
Durante conversas no canteiro de obras do Estádio Mané Garrincha, entre agosto e setembro de 2012, Agnelo Queiroz teria negociado com José Carlos a contratação da empresa Burntwine para fazer a maquete pelo valor de R$ 46 mil.

O sócio da Burntwine à época, Sérgio Santiago Mello Amaral, que hoje mora no Canadá, confirmou que os contatos sempre foram com o consórcio. Em depoimento à Polícia Federal, ele reconheceu as cinco notas fiscais pagas à agência promocional e de comunicação digital. Afirmou ainda nunca ter feito nenhum contato com governo ou orçamento para o poder público.

“Meu contato com o Consórcio Brasília 2014 era a Joana Pericás. Ela era responsável pela comunicação/marketing. Esses serviços serviam de apoio às estratégias de comunicação do cliente, ao qual não tenho acesso”, diz Amaral no processo.

Assim, a delegada de polícia Federal Fernanda Costa de Oliveira concluiu que “a despesa em referência não possui qualquer vinculação com o objeto do contrato firmado com o Consórcio Brasília 2014, devendo, por óbvio, ter atendido demanda do governador Agnelo, pois não se observa interesse ou benefício à AG na aquisição desse produto”.

Ingressos
No âmbito da reforma do Estádio Mané Garrincha, a Andrade Gutierrez teria viabilizado a aquisição de 15 mil ingressos para a final do Candangão, entre Brasiliense e Brasília, a pedido do ex-governador do Distrito Federal Agnelo Queiroz (PT).

Em um churrasco no canteiro de obras com funcionários que trabalhavam no local, Agnelo teria prometido que os operários receberiam dois ingressos cada para assistir ao jogo. Apesar de realizar a compra, ao valor total de R$ 300 mil, apenas metade das entradas teria sido, de fato, entregue aos trabalhadores. A outra metade acabou ficando com o petista.

Comida e uniforme
A Andrade Gutierrez também precisou arcar com outros gastos referentes ao jogo de inauguração do estádio. A empreiteira alega que teria pagado por serviços de buffet e R$ 4.315,20 na compra de uísque para a partida entre os dois times.

A construtora também teria pagado novos uniformes ao time do Brasília, que seriam usados na final. A Andrade Gutierrez apresentou como prova um comprovante no valor de R$ 67.749,92 da Adidas. Segundo executivos da empresa, o governador autorizou o pagamento à empresa de roupas e acessórios esportivos entre março e abril de 2013, durante visita às obras do estádio.

Camarotes
Também teriam sido viabilizados pela empresa, a pedido de Agnelo, dezenas de ingressos de camarote para um jogo no Mané entre Santos e Flamengo, realizado em 25 de maio de 2013. A conta paga pela construtora com as entradas teria ficado em R$ 186 mil.

A justificativa dada pelo governador, segundo executivos, é que ele tinha muitos convidados para o evento e o camarote das autoridades não comportaria todos. Conforme comprovantes apresentados, foram pagos R$ 74,4 mil referentes à bebida, R$ 65,6 mil com serviço de buffet, além de R$ 4,5 mil pela locação de vasos ornamentais.

Anteriormente, à reportagem, a defesa do ex-governador registrou que Agnelo Queiroz se declara inocente das acusações e irá debater o caso no foro próprio, “qual seja, o Poder Judiciário”.