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Gravações obtidas pelo Metrópoles reforçam a acusação de que pessoas ligadas a José Gomes (PSB), dono da Real JG Serviços Gerais, coagiram funcionários a votarem no patrão. O empresário é candidato a uma cadeira na Câmara Legislativa nas eleições de outubro.

Nos áudios, um homem ameaça perseguir os trabalhadores caso as zonas eleitorais do DF registrem, em outubro, número de votos inferior ao de funcionários da Real que moram em cada uma dessas localidades. O autor das cobranças é Douglas Ferreira Laet, ex-funcionário da Real e primo de José Gomes.

As denúncias haviam sido feitas anteriormente por funcionárias demitidas da empresa depois de se negarem a apoiar o empresário. Entretanto, somente agora uma das reuniões veio a público em áudios.

O encontro teria ocorrido dentro da sede da empresa de José Gomes, no Núcleo Bandeirante, com funcionários mais antigos, no início de julho. Na gravação, Douglas Laet afirma ter como fiscalizar quem são os funcionários que votarão ou não no empresário.

“Então, só para deixar claro: eu tenho o Título de Eleitor de vocês. Sei a zona eleitoral aonde vão votar, sei quem vai trair e quem não vai trair a Real, o senhor José Gomes. Sei quem vai dar tapinha nas costas e sei quem, no dia, não vai estar [na votação]. Porque se naquela zona 10 têm que votar e só votarem nove, alguém ficou de fora”, afirma Douglas.

Ouça:

Nova ameaça
Em uma segunda gravação, Douglas explica aos funcionários que deputados distritais costumam pedir vagas para acomodar aliados na Real JG. E ressalta que, para contratar os indicados políticos, é necessário demitir pessoas do quadro.

“Para eu contratar alguém deles, tenho de mandar alguém embora. Será que alguém [de vocês] pode sair para eu dar [a vaga]? Se alguém quiser sair, posso trocar com eles. O que eles estão pedindo aqui é o emprego de vocês. O único que deu é o José Gomes. Vocês podem olhar no contracheque de vocês que é a Real JG que paga”, alerta Douglas Laet.

Ouça:

A empresa
A Real JG tem contratos com órgãos dos governos local e federal, sendo o da Secretaria de Educação do DF um dos maiores da empresa. De acordo com a própria direção, a companhia possui cerca de 10 mil empregados.

Em julho, conforme o Metrópoles noticiou, funcionárias da empresa foram demitidas por não terem, supostamente, declarado apoio à pré-candidatura a deputado distrital de José Gomes.

Pelo menos 12 ex-empregadas acusam interlocutores de Gomes de coação, ameaças e demissão por elas terem sido indicadas por outro postulante do mesmo partido, o ex-deputado distrital Roosevelt Vilela.

As mulheres eram lotadas em escolas públicas do Núcleo Bandeirante e do Riacho Fundo I e são todas moradoras da Vila Cauhy.

Gomes e Roosevelt mantinham boa relação até recentemente, quando o empresário decidiu disputar cadeira na Câmara Legislativa. Por essa razão, os ânimos se acirraram, uma vez que a pretensão ameaça os planos de Roosevelt voltar à Casa. Antes de o clima azedar, o ex-deputado teria indicado pessoas para trabalhar na empresa do correligionário.

Defesa
De acordo com José Gomes, Douglas Laet foi afastado da empresa assim que surgiram as primeiras denúncias sobre a coação dos funcionários, gerando um embate familiar. O empresário diz ter desautorizado o parente a falar em seu nome e negou que a reunião tenha ocorrido dentro da sede da empresa, no Núcleo Bandeirante.

“Não sabia que o jogo era tão sujo. Eles têm medo da proporção da minha candidatura e tenho sofrido ataques por todos os lados. Não aceitaria esse tipo de jogo, pois tenho a ficha limpa e não entraria para a política se for para ser assim”, disse José Gomes na noite de quarta-feira (8/8).

Procurado pela reportagem, Douglas Laet não foi localizado. No entanto, ao comentar as acusações na reportagem publicada no fim de julho, ele negou quaisquer irregularidades. De acordo com o agora ex-funcionário da Real, os assuntos da empresa não têm ligação com a política. Ele ratifica que as demissões ocorreram por excesso de contratações.

Controvérsias
Entre as demissões na Real JG, outro caso chamou atenção. Gabriele Vitória, 21 anos, também indicada por Roosevelt Vilela, foi a primeira a ser demitida. Conforme relato da ex-funcionária, depois de muita insistência, a resposta foi que ela “era um produto com defeito”.

“Disseram que não me dariam satisfação e eu gostaria de saber o motivo pelo qual as meninas teriam uma segunda chance e eu não. Ele negou a tal segunda chance e disse que tinha tido uma conversa rápida com elas. Depois falou que a diretora tinha reclamado de mim e disse: ‘A gente oferece um serviço. Se o produto não é bom, a gente descarta’”, conta Gabriele. Ela mostrou um áudio da diretora da escola onde estava lotada contestando a justificativa dada pela empresa.

Briga política
O empresário José Gomes fala a respeito da sua empresa como uma das maiores empregadoras do DF e que “é comum parlamentares pedirem emprego para terceiros”. Mas ele nega usar o poder econômico para agradar políticos. Em uma das seleções, disse ter contrariado pedidos, por ter oferecido vagas apenas para familiares de outros funcionários.

O empresário conta ainda que as divergências com Roosevelt Vilela, seu companheiro de partido, são antigas. Os problemas teriam ocorrido pela não assinatura de uma autorização de funcionamento da sede da empresa, que acabou sendo aceita dentro do Palácio do Buriti posteriormente.

Dentro do próprio PSB, ambos foram advertidos. De acordo com uma fonte da Executiva socialista, a situação parecia ter sido contornada, por isso não foi partidarizada. “Ambos têm chance de serem eleitos. Não há razão para brigarem”, afirmou o membro do PSB.

Roosevelt Vilela nega que tenha pedido favores ao correligionário, mas confirmou ter mandado currículos. “Apenas enviei os CVs. Não são indicações minhas”, disse o ex-deputado.

Legislação eleitoral
Segundo o art. 299 do Código Eleitoral, é considerado crime “dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita”. A pena prevista para esse crime é de até 4 anos de reclusão e pagamento de 5 a 15 dias-multa.

Também são vetados propaganda e pedidos de votos antes de 15 de agosto, quando a campanha de 2018 começará oficialmente.