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PM que matou bombeiro no DF violou cena do crime para justificar tiro

De acordo com o inquérito policial, a vítima teve a camisa retirada com objetivo de fraudar a investigação e eximir a responsabilidade do PM

atualizado

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Material cedido ao Metrópoles
Imagem colorida de homem sorrindo usando uma camisa branca
1 de 1 Imagem colorida de homem sorrindo usando uma camisa branca - Foto: Material cedido ao Metrópoles

O bombeiro Walter Leite da Cruz foi assassinado a tiros dentro da sala de sua própria casa pelo soldado Ismael Coutinho durante uma perseguição da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) contra outro homem, suspeito de violência doméstica. O crime ocorreu na região do Setor O, Ceilândia, em novembro do ano passado. Apesar das diferenças de altura e idade, a alegação seria que a vítima foi confundida com o alvo. Outra questão levantada pela defesa é que Walter, assim como o homem perseguido, estava sem camisa.

No entanto, de acordo com o inquérito policial, realizado pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), a vítima teve a camisa retirada com o objetivo de fraudar a investigação, buscando eximir a responsabilidade do PM e tentar criar a hipótese de erro ou uma argumentação para justificar o disparo.

Outro membro da PMDF, o soldado Renato Almeida chegou a entrar na casa do bombeiro à procura do homem perseguido, que se escondeu no local após subir no telhado. Para os investigadores, usando como base as próprias declarações de Renato, ele teria ajudado de alguma maneira o soldado Coutinho a retirar a camisa da vítima para isentar o colega da responsabilidade do crime de homicídio.

A investigação ainda considera que não existe a mínima sustentação para alegar que o soldado teria confundido a vítima com o perseguido. Além de, provavelmente, estar com a camisa, Walter Leite da Cruz era 28 centímetros mais alto, tinha o dobro de idade, e a cor da pele era mais clara.

Tanto Ismael quanto Coutinho afirmaram, em depoimento à PCDF, que a vítima estava sem camisa, contrariando a versão apresentada pela esposa de Walter, que presenciou o crime. O laudo de exame de local encontrou uma camiseta regata, de cor preta, disposta de forma amarrotada ao lado da porta de um quarto, cômodo próximo à sala onde o crime ocorreu. A roupa estava rasgada na sua lateral e com marcas de sangue humano.

Os peritos indicaram que o corte lateral é característico de ações de tentativa de socorro por equipe especializada, o que permite sugerir que uma pessoa trajava a camiseta enquanto estava ferida. Outro ponto é que as manchas de sangue estavam concentradas principalmente na lateral esquerda da roupa, que não apresentava perfurações, apontando que a vítima foi atingida na porção direita da cabeça ou no pescoço. O disparo que matou o bombeiro atingiu, justamente, o pescoço.

Vídeo obtido pelo Metrópoles mostram a perseguição ao suspeito, que estava sem camisa, pelas ruas do Setor O.

Veja:

Walter Leite foi socorrido em estado grave e levado, pelos próprios PMs, para o Hospital Regional de Ceilândia (HRC). Após dar entrada na unidade de saúde, o militar não resistiu aos ferimentos e morreu. O suspeito de violência doméstica foi preso e encaminhado à Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam II).

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Outras imagens também exibem que, após o homicídio, pelo menos outras oito pessoas fardadas com o uniforme da PMDF entraram na cena do crime antes da chegada da perícia, o que poderia prejudicar a análise do local.

Com o fim da investigação, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) ofereceu denúncia por homicídio qualificado contra Ismael Coutinho e fraude processual contra Renato Almeida. Atualmente, o caso está sendo analisado pelo Tribunal do Júri de Ceilândia.

Naime teria interferido na investigação

No dia do crime, após o socorro inicial ao bombeiro, a guarnição combinou de apresentar Ismael Coutinho como autor do homicídio na 15ª Delegacia de Polícia (Ceilândia Centro). Porém, o coronel Vânio Escobar ordenou que o soldado fosse diretamente para a Corregedoria da PMDF.

A decisão, segundo Escobar, veio do alto comando da corporação, inclusive do próprio coronel Jorge Eduardo Naime, atualmente preso por suposta omissão nos atos antidemocráticos do 8 de Janeiro. A transferência foi realizada sob a justificativa de que o crime foi cometido por militar contra militar em situação de atividade ou assemelhado. Com isso, a PMDF abriu inquérito próprio para verificar a situação e apreendeu a arma utilizada.

Vale ressaltar que o bombeiro não estava em serviço e os próprios policiais envolvidos só souberam que a vítima era militar após os disparos. Os PMs só apresentaram sua versão dos fatos dias depois, na 24ª DP (Setor O).

Para a assistente de acusação do Ministério Público, representada por Vaneska Leite, que é irmã da vítima, Naime e outros comandantes interferiram de forma ilegítima na condução da prisão do policial e do armamento apreendido. O MPDFT indicou que a Justiça Militar recuasse por falta de competência, e, neste mês, a apuração militar foi arquivada. O caso será julgado apenas pela Justiça comum.

A pistola vinculada ao réu foi apreendida pela própria PMDF, ficando sob a custódia da corporação por 76 dias após a prática do crime, apesar de diversas solicitações da PCDF requisitando o armamento para poder realizar o exame de confronto balístico. Além disso, antes de ser apreendida, a arma foi manuseada por outros militares da guarnição.

Defesas

Anteriormente, consultada pelo Metrópoles, a PMDF apenas replicou nota informando que o policial Ismael Coutinho está afastado das atividades operacionais, trabalhando em ações administrativas da corporação.

“A demanda já está em tramitação no Judiciário, e o mesmo será submetido ao Tribunal do Júri. Ressaltamos que a PMDF não coaduna com desvios de conduta por parte dos seus integrantes, e todos os fatos são apurados em conformidade com processo legal”, afirmou a PMDF.

A reportagem também entrou em contato com a defesa dos envolvidos. Com relação aos fatos, a defesa de Ismael Coutinho se reservou a apresentar esclarecimentos nos autos em trâmite no Tribunal do Júri de Ceilândia.

A defesa do coronel Naime ressalta que, em nenhum momento, houve interferência nas investigações. Segundo o advogado do oficial, ele foi convocado na condição de testemunha e prestou todos os esclarecimentos, colocando-se à disposição das autoridades.

“O Sr. Naime é um profissional dedicado, que sempre respeitou a disciplina militar e os manuais da corporação, não tendo cometido qualquer irregularidade com relação ao assunto, tampouco possui envolvimento neste caso”, afirmou a defesa do coronel.

Segundo a assistência de acusação, ainda não há um processo só para o soldado Renato Almeida. O MPDFT chegou a solicitar o desmembramento das acusações, mas a questão será decidida na audiência de instrução e julgamento, visto que muitas coisas irão depender do que o autor do disparo irá falar.

Até agora, em todos os atos do processo em que o Renato esteve presente, ele foi acompanhado por um advogado. O Metrópoles entrou em contato com o escritório de advocacia apontado, mas não obteve retorno até o fechamento desta matéria. O espaço continua aberto para manifestações.

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