Muito emocionado, Erick Lucas Dias Borges, 20 anos, amigo do motorista de aplicativo Felype Anderson de Sousa, assassinado na sexta-feira (12/4) após uma briga de trânsito, disse que, agora, o importante é buscar a Justiça.

“Éramos amigos há cerca de oito anos. Ele foi meu líder de grupo na igreja. Um cara nota 100. Sempre disposto a ajudar. Muito amigo, sorridente e fiel. Uma perda que dói muito”, lamentou.

“Tudo o que queremos é pedir a atenção das autoridades para este caso. Ninguém pode sair matando uma pessoa inocente na rua a troco de nada. Sem motivo ou razão. Estamos todos consternados”, completou Erick.

Durante o enterro, os amigos da igreja usavam camisetas com a foto de Felype. Os familiares que acompanham a despedida do jovem preferiram o silêncio.

Aos prantos, mãe e irmã não saíram do lado do caixão. A maioria dos presentes estava com rosas brancas e vermelhas nas mãos para depositar em cima do caixão antes do sepultamento.

Júnior Lopes, 43, proprietário da Academia Elite, onde Felype praticou muay thai por anos, definiu o jovem como uma pessoa muito educada. “Não dá para entender o que aconteceu. Ele era extremamente gentil, incapaz de fazer mal a alguém. Treinava desde os 12 anos. Muito dedicado e bondoso.”

Por volta das 10h15, todos os presentes se reuniram na capela para fazer uma oração, como forma de prestar a última homenagem para a vítima. O pastor da igreja que o jovem frequentava classificou Felype como um “homem de valores e, acima de tudo, muito caráter”. “Temos certeza que ele está ao lado de Deus, acolhido em seus braços”, disse o pastor.

No total, ceca de 200 pessoas acompanharam o velório. Os amigos cantaram músicas e finalizaram a homenagem com uma salva de palmas.

Crime
O autor dos disparos de arma de fogo, Alessandro Guerreira Barros, 27, está foragido. O crime é investigado pela 6ª Delegacia de Polícia (Paranoá), que ainda não prendeu o acusado. A delegada à frente do caso, Jane Klébia, ressalta que os agentes estão à procura de Alessandro. “Essa é nossa prioridade”, afirmou.

Um vídeo gravado por câmera de segurança de um estabelecimento da região administrativa mostra o momento em que Felype é morto. Nas imagens, é possível ver a vítima gesticulando e discutindo com Alessandro. Em seguida, o motorista de aplicativo recebe quatro disparos, na frente da noiva, com quem ia se casar na próxima segunda-feira (15). Os preparativos para a cerimônia, na Igreja Sara Nossa Terra, estavam prontos.

A gravação não está em primeiro plano porque há uma placa metálica de uma loja na frente, que encobre parte da confusão. Mas as imagens mostram o desespero das pessoas em volta. Entre elas, uma mulher que desce do carro com uma criança. O crime ocorreu por volta das 19h20.

“Me perdoa”
“Me perdoa, eu não fiz nada”. Essas foram as últimas palavras ditas pelo motorista de aplicativo Felype Anderson de Sousa à noiva, logo após levar quatro disparos nas costas em briga de trânsito, na noite de quinta-feira (11/4).

Aos policiais da 6ª DP (Paranoá) que investigam o caso, a moça de 18 anos disse que o suspeito ameaçou o noivo antes de sacar a pistola .380 e efetuar os disparos: “Se você ficar aqui e continuar falando, vai levar uns pipocos”.

Alessandro teria feito a ameaça após se negar a pagar qualquer prejuízo da batida que envolveu os dois motoristas. “Segundo depoimento dela [da noiva], Felype desceu do carro e foi tirar satisfações. Teria dito: ‘Poxa, você bateu no meu carro’. Alessandro teria respondido que não estava ‘nem aí’”, disse a delegada Jane Klébia, chefe da 6ª DP.

A noiva do jovem, então, chamou o companheiro e pediu para que ele entrasse de novo no carro. “Foi quando ele [Alessandro] veio e disparou quatro vezes contra a vítima”, acrescentou a delegada. Nesse momento, ela desceu do veículo, deu a volta e foi tentar socorrer Felype. Foi aí que ele teria pedido perdão à moça.

Veja fotos de Felype:

Em depoimento, a noiva, que não será identificada na reportagem por questões de segurança, negou qualquer contato físico entre os dois. “Não houve cuspe, briga ou empurrão. Só bate-boca”, disse a jovem aos policiais. A versão, no entanto, é contrária à da sobrinha de Alessandro, de 16 anos, que estava no carro com o suspeito.

Ela disse que Felype fazia baliza para estacionar na via da Avenida Comercial do Itapoã, por volta das 20h. Alessandro tentou passar e acabou atingindo a lateral do veículo da vítima. Ele parou um pouco mais à frente para ver se tinha danificado a lataria, quando o motorista do automóvel atingido reagiu de forma bastante alterada.

Material cedido ao Metrópoles

Ainda de acordo com a garota, Alessandro (foto acima) não xingou a vítima, só dizia: “Calma, você vai me bater?”. Felype teria empurrado o suspeito do crime, após chamá-lo de “comédia”. Em seguida, virou de costas e seguiu em direção ao seu carro. Nesse momento, Alessandro sacou uma arma de fogo que trazia consigo na cintura e efetuou os disparos no outro condutor, que caiu no chão.

Durante a discussão, a adolescente disse que tentou avisar ao tio que o veículo não tinha ficado muito arranhado. Ressaltou que tudo ocorreu em poucos minutos e que, após os disparos, Alessandro falou para ela entrar no automóvel. O suspeito saiu rapidamente do local.

Um mandado de prisão preventiva contra Alessandro foi pedido à Justiça pela Polícia Civil do DF, mas até a tarde de sexta (12) não havia sido expedido. Ele é considerado foragido. O homem saiu do regime aberto em outubro do ano passado. Ele cumpriu pena por tentativa de homicídio. Nesse caso, a motivação foi passional, segundo a PCDF.