Passageiros do DF gastam 14% da renda com ônibus, aponta estudo
Valor do percentual já está acima da referência internacional de 6% a 10%. Em algumas RAs da capital, o percentual pode atingir até 37%
atualizado
Compartilhar notícia

O transporte público no Distrito Federal pesa não apenas no tempo de deslocamento dos passageiros – em que os ônibus chegam a levar sete minutos para percorrer apenas 1 km –, mas também no bolso da população da capital. Segundo estudo, o brasiliense compromete cerca de 14% da renda com o custo do coletivo, valor já acima da referência internacional de 6% a 10%.
Em algumas Regiões Administrativas (RAs) do DF, esse percentual pode chegar até 37%, como é caso do SCIA. Outras RAs, como Paranoá, Recanto das Emas, Fercal e Varjão, atingem 25% desse percentual.
Os dados fazem parte de um estudo desenvolvido pela urbanista Carlla Brito Furlan Pourre, mestre e doutora em planejamento urbano e regional, para a sua dissertação de mestrado, pela Universidade de Brasília (UnB). A pesquisa analisou indicadores do sistema de transporte coletivo do DF a partir da perspectiva dos próprios usuários, que resultou em um indicativo de lentidão dos ônibus.
A Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob-DF) disse, em nota, que a melhoria da velocidade operacional do transporte público coletivo é um dos principais desafios da mobilidade urbana nas grandes cidades e “vem sendo tratada de forma permanente” pela pasta – leia nota completa no fim da matéria.
Ao Metrópoles, Carlla contou que, desde a graduação, sempre se interessou por transporte e mobilidade urbana. “Quando ingressei no mestrado, percebi que, apesar de ser um tema amplamente discutido, ainda havia uma lacuna importante: a falta de diagnósticos urbanos construídos a partir do ponto de vista do usuário”, disse.
Foi a partir desse entendimento que a urbanista decidiu adaptar um sistema de indicadores desenvolvido no âmbito do “Projeto Indicadores” do Ministério dos Transportes, originalmente concebido para a escala nacional, com foco no sistema de transporte público por ônibus do Distrito Federal.
“O objetivo era verificar se esses indicadores, orientados a resultados finalísticos, seriam suficientes e adequados para diagnosticar o transporte urbano pela ótica de quem realmente o usa no dia a dia”, explicou.
A urbanista pontuou que o estudo aplicou cinco indicadores, que avaliaram o sistema de transporte público do DF pelo ponto de interesse dos usuários.
- Capacidade financeira do sujeito: mediu o peso do preço do transporte na renda, e revelou que, em média, o brasiliense compromete cerca de 14% da sua renda com o ônibus;
- Recorrência do serviço: mediu a frequência de viagens disponibilizadas e mostrou uma forte concentração de oferta nos horários de pico com destino ao Plano Piloto, confirmando o padrão de cidades-dormitório das demais RAs;
- Danos ao objeto: contabilizou o total de vítimas durante o transporte. Um achado relevante foi que quanto maior a frequência de viagens, maior o número de acidentes — mas RAs como Varjão, Pôr do Sol e Fercal não registraram ocorrências no período de estudo, apesar de alta frequência e densidade, o que levanta questões sobre subnotificação;
- Tempo de percurso: calculou o tempo unitário médio de deslocamento e chegou ao valor de sete minutos por quilômetro para todas as RAs de saída do DF. Isso significa que o sistema leva, em média, sete minutos para percorrer apenas 1 km — um resultado expressivamente alto, associado às grandes extensões viárias, à ausência de corredores exclusivos e aos congestionamentos no horário de pico;
- Disponibilidade espacial: revelou que o nível de provisão da infraestrutura de transporte é diretamente moldado pelo desenho urbano disperso do DF, sendo RAs como Lago Sul, Lago Norte e Park Way as mais mal servidas proporcionalmente à sua área, apesar da alta renda de seus moradores o que justifica sua baixa demanda.
Realidades opostas
Questionada se a lentidão atinge a todos da mesma forma, a urbanista Carlla Brito afirmou que o estudo comprovou que a penalização é dupla e está diretamente ligada à localização e à renda.
“Quem mora mais próximo ao centro do DF tem três vantagens combinadas: renda per capita média alta; localização estratégica; e tempo de percurso menor — a média do Plano Piloto, como RA de saída, é de apenas 4 min/km, 43% abaixo da média geral”, esclareceu.
Já para quem mora em locais como Paranoá, Recanto das Emas, Varjão e Fercal, a especialista afirmou que a pesquisa apontou o oposto.
“A renda mensal é incompatível com o preço da tarifa, há maior distância até o Plano Piloto (principal polo de empregos e serviços) e há uma ausência de corredor exclusivo de ônibus, o que se traduz em tempos de percurso consistentemente piores, como evidenciado nos mapas do estudo. A penalização é, portanto, acumulada: paga mais, espera mais e chega mais tarde”, observou.
O estudo revelou, segundo Carlla, que esse tempo perdido dentro do ônibus não é distribuído de forma justa. “Ele recai com mais peso sobre quem já tem menos: quem mora mais longe, ganha menos e não tem alternativa de mobilidade urbana”, avaliou.
“Para essas pessoas, os sete minutos por quilômetro se multiplicam ao longo de trajetos que podem durar horas e se repetem todos os dias. É tempo de vida que o sistema subtrai silenciosamente de quem menos pode perdê-lo”, lamentou.
Fluidez viária
A Semob-DF destacou que tem adotado medidas voltadas à priorização do transporte coletivo e à melhoria da fluidez viária. Confira a nota a seguir:
“A melhoria da velocidade operacional do transporte público coletivo é um dos principais desafios da mobilidade urbana nas grandes cidades e vem sendo tratada de forma permanente pela pasta.
Nos últimos anos, tem-se adotado medidas voltadas à priorização do transporte coletivo e à melhoria da fluidez viária, com ações como implantação e ampliação de faixas exclusivas de ônibus, adequações operacionais em corredores de maior demanda e monitoramento constante da operação do sistema.
Importante destacar que o Distrito Federal possui características urbanas específicas, com deslocamentos de longa distância entre regiões administrativas e forte concentração de viagens em direção ao Plano Piloto, o que impacta diretamente o tempo de deslocamento dos coletivos, especialmente nos horários de pico.
Diante desta realidade, a pasta tem criado linhas expressas, a exemplo das que fazem os trajetos do BRT do Gama e de Santa Maria para o Plano Piloto, para tornar mais rápidas as viagens aos passageiros. Recentemente, a Secretaria criou as linhas expressas 2401 e 2101, que fazem o trajeto entre a Rodoviária do Plano Piloto até São Sebastião e o Paranoá, respectivamente. Essas linhas são feitas com veículos do padrão do BRT, que comportam maior número de passageiros, com trajeto direto, parando o mínimo possível.”
A Secretaria de Obras ressaltou a construção do Corredor Eixo Oeste, que tem como objetivo integrar regiões como Sol Nascente, Ceilândia e Taguatinga à área central de Brasília por meio de corredores exclusivos de ônibus de alta capacidade.
De acordo com a pasta, parte importante da infraestrutura já foi concluída e está em operação, como os trechos da EPTG, do Setor Policial Sul e do Terminal Asa Sul.
“Com aproximadamente 38,7 km de extensão, o corredor foi projetado para proporcionar mais fluidez, segurança e eficiência ao transporte coletivo. A expectativa é de redução de pelo menos 25 minutos no tempo de deslocamento entre o Sol Nascente e o Eixo Monumental, beneficiando milhares de passageiros diariamente”, pontuou.








