Lentidão: No DF, ônibus demoram sete minutos para andar apenas 1 km

Estudo apontou a realidade de quem depende do ônibus para se deslocar. Semob afirmou que a fluidez viária é “tratada de forma permanente”

atualizado

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passageiros, ônibus, transporte
1 de 1 passageiros, ônibus, transporte - Foto: KEBEC NOGUEIRA/METRÓPOLES @kebecfotografo

Passar por um quarteirão de bicicleta, fazer uma caminhada rápida, tomar o café da manhã ou descansar depois de um dia longo. É possível fazer muitas coisas num intervalo de sete minutos, porém, no Distrito Federal, esse é tempo necessário para que um ônibus do transporte público percorra apenas 1 km.

É o que afirma um estudo desenvolvido pela urbanista Carlla Brito Furlan Pourre, mestre e doutora em planejamento urbano e regional, para a sua dissertação de mestrado, pela Universidade de Brasília (UnB).

A Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob-DF) disse, em nota, que a melhoria da velocidade operacional do transporte público coletivo é um dos principais desafios da mobilidade urbana nas grandes cidades e “vem sendo tratada de forma permanente” pela pasta – leia nota completa no fim da matéria.

Ao Metrópoles, Carlla contou que, desde a graduação, sempre se interessou por transporte e mobilidade urbana. “Quando ingressei no mestrado, percebi que, apesar de ser um tema amplamente discutido, ainda havia uma lacuna importante: a falta de diagnósticos urbanos construídos a partir do ponto de vista do usuário”, disse.

Foi a partir desse entendimento que a urbanista decidiu adaptar um sistema de indicadores desenvolvido no âmbito do “Projeto Indicadores” do Ministério dos Transportes, originalmente concebido para a escala nacional, com foco no sistema de transporte público por ônibus do Distrito Federal.

“O objetivo era verificar se esses indicadores, orientados a resultados finalísticos, seriam suficientes e adequados para diagnosticar o transporte urbano pela ótica de quem realmente o usa no dia a dia”, explicou.

Indicadores

A urbanista pontuou que o estudo aplicou cinco indicadores, que avaliaram o sistema de transporte público do DF pelo ponto de interesse dos usuários.

  • Capacidade financeira do sujeito: mediu o peso do preço do transporte na renda, e revelou que, em média, o brasiliense compromete cerca de 14% da sua renda com o ônibus, valor já acima da referência internacional de 6% a 10%. Em regiões mais pobres, esse percentual chega a 37% no SCIA e a 25% no Paranoá, Recanto das Emas, Fercal e Varjão;
  • Recorrência do serviço: mediu a frequência de viagens disponibilizadas e mostrou uma forte concentração de oferta nos horários de pico com destino ao Plano Piloto, confirmando o padrão de cidades-dormitório das demais RAs;
  • Danos ao objeto: contabilizou o total de vítimas durante o transporte. Um achado relevante foi que quanto maior a frequência de viagens, maior o número de acidentes — mas RAs como Varjão, Pôr do Sol e Fercal não registraram ocorrências no período de estudo, apesar de alta frequência e densidade, o que levanta questões sobre subnotificação;
  • Tempo de percurso: calculou o tempo unitário médio de deslocamento e chegou ao valor de sete minutos por quilômetro para todas as RAs de saída do DF. Isso significa que o sistema leva, em média, sete minutos para percorrer apenas 1 km — um resultado expressivamente alto, associado às grandes extensões viárias, à ausência de corredores exclusivos e aos congestionamentos no horário de pico;
  • Disponibilidade espacial: revelou que o nível de provisão da infraestrutura de transporte é diretamente moldado pelo desenho urbano disperso do DF, sendo RAs como Lago Sul, Lago Norte e Park Way as mais mal servidas proporcionalmente à sua área, apesar da alta renda de seus moradores o que justifica sua baixa demanda.

Cansaço e desgaste

Mas como o passageiro, principal impactado, enxerga esse resultado? O Metrópoles ouviu alguns usuários do transporte público do DF, para saber se eles sentem, realmente, essa lentidão enquanto estão dentro dos ônibus.

A gerente de vendas Isabel Carvalho, 38 anos, mora em Ceilândia Norte e vai, diariamente, até o Plano Piloto para trabalhar. “É bem desafiador. Costumo passar cerca de 1h30 no trânsito para chegar no trabalho, isso quando não tem engarrafamento. Se o trânsito fechar, o percurso chega a mais de duas horas”, detalhou.

Ela disse que passa mais tempo na rua do que em casa. “É cansativo e desgastante, pois, além do tempo gasto dentro do ônibus, ele sempre está lotado e, às vezes, não consigo sentar”, lamentou.

Morador de São Sebastião, o assistente técnico Matheus Barros, 26, é outro que sente os efeitos do trânsito pesado. “É uma rotina cansativa, pois um período que poderia ser curto dentro do ônibus, por causa desse tempo todo no trânsito, acaba se tornando duas ou até três vezes maior”, desabafou.

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Isabel Carvalho passa quatro horas por dia dentro de ônibus
Matheus Barros: "É uma rotina cansativa"
Cansados, passageiros dorme dentro dos ônibus
Cansados, passageiros dorme dentro dos ônibus
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O estudo aponta que os ônibus ficam presos no trânsito
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O estudo aponta que os ônibus ficam presos no trânsito

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Isabel Carvalho passa quatro horas por dia dentro de ônibus
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Isabel Carvalho passa quatro horas por dia dentro de ônibus

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Matheus Barros: "É uma rotina cansativa"
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Matheus Barros: "É uma rotina cansativa"

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Realidades opostas

Questionada se a lentidão atinge a todos da mesma forma, a urbanista Carlla Brito afirmou que o estudo comprovou que a penalização é dupla e está diretamente ligada à localização e à renda.

“Quem mora mais próximo ao centro do DF tem três vantagens combinadas: renda per capita média alta; localização estratégica; e tempo de percurso menor — a média do Plano Piloto, como RA de saída, é de apenas 4 min/km, 43% abaixo da média geral”, esclareceu.

Já para quem mora em locais como Paranoá, Recanto das Emas, Varjão e Fercal, a especialista afirmou que a pesquisa apontou o oposto.

“A renda mensal é incompatível com o preço da tarifa, há maior distância até o Plano Piloto (principal polo de empregos e serviços) e há uma ausência de corredor exclusivo de ônibus, o que se traduz em tempos de percurso consistentemente piores, como evidenciado nos mapas do estudo. A penalização é, portanto, acumulada: paga mais, espera mais e chega mais tarde”, observou.

O estudo revelou, segundo Carlla, que esse tempo perdido dentro do ônibus não é distribuído de forma justa. “Ele recai com mais peso sobre quem já tem menos: quem mora mais longe, ganha menos e não tem alternativa de mobilidade urbana”, avaliou.

“Para essas pessoas, os sete minutos por quilômetro se multiplicam ao longo de trajetos que podem durar horas e se repetem todos os dias. É tempo de vida que o sistema subtrai silenciosamente de quem menos pode perdê-lo”, lamentou.

Estrutura exclusiva

Wesley Ferro Nogueira, secretário executivo do Instituto MDT – Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte, afirmou que a velocidade média do transporte público do DF está associada diretamente ao fato de ter ou não uma estrutura exclusiva para o transporte público.

“Onde ela existe, como é o caso do corredor do BRT e da faixa exclusiva da EPTG, é possível perceber velocidades mais altas, pois não há a interrupção ou ponto de disputa por espaço com o automóvel comum”, pontuou.

O especialista em mobilidade ressaltou que a infraestrutura exclusiva para ônibus é “inexpressiva” para o tamanho do sistema viário do DF. “Temos espaço disponível para ampliação. Então, contar apenas com 150 km de faixa exclusiva, é pouco representativo”, alertou.

“A ampliação da infraestrutura exclusiva para ônibus é uma condição essencial para que o transporte público do DF possa retomar a sua agilidade. Sem isso, o ônibus não consegue ser um modal atraente para a população”

Para Wesley Ferro, aumentar a frota seria o mesmo que tentar “enxugar gelo”. “Se não forem feitos investimentos para priorizar o transporte público, principalmente os ônibus, por causa da sua maior participação, não adianta muito colocar mais veículos nas ruas pois, no atual modelo, serão apenas mais ônibus presos nos engarrafamentos”, ressaltou.

Fluidez viária

A Semob-DF destacou que tem adotado medidas voltadas à priorização do transporte coletivo e à melhoria da fluidez viária. Confira a nota a seguir:

“A melhoria da velocidade operacional do transporte público coletivo é um dos principais desafios da mobilidade urbana nas grandes cidades e vem sendo tratada de forma permanente pela pasta.

Nos últimos anos, tem-se adotado medidas voltadas à priorização do transporte coletivo e à melhoria da fluidez viária, com ações como implantação e ampliação de faixas exclusivas de ônibus, adequações operacionais em corredores de maior demanda e monitoramento constante da operação do sistema.

Importante destacar que o Distrito Federal possui características urbanas específicas, com deslocamentos de longa distância entre regiões administrativas e forte concentração de viagens em direção ao Plano Piloto, o que impacta diretamente o tempo de deslocamento dos coletivos, especialmente nos horários de pico.

Diante desta realidade, a pasta tem criado linhas expressas, a exemplo das que fazem os trajetos do BRT do Gama e de Santa Maria para o Plano Piloto, para tornar mais rápidas as viagens aos passageiros. Recentemente, a Secretaria criou as linhas expressas 2401 e 2101, que fazem o trajeto entre a Rodoviária do Plano Piloto até São Sebastião e o Paranoá, respectivamente. Essas linhas são feitas com veículos do padrão do BRT, que comportam maior número de passageiros, com trajeto direto, parando o mínimo possível.”

A Secretaria de Obras ressaltou a construção do Corredor Eixo Oeste, que tem como objetivo integrar regiões como Sol Nascente, Ceilândia e Taguatinga à área central de Brasília por meio de corredores exclusivos de ônibus de alta capacidade.

De acordo com a pasta, parte importante da infraestrutura já foi concluída e está em operação, como os trechos da EPTG, do Setor Policial Sul e do Terminal Asa Sul.

“Com aproximadamente 38,7 km de extensão, o corredor foi projetado para proporcionar mais fluidez, segurança e eficiência ao transporte coletivo. A expectativa é de redução de pelo menos 25 minutos no tempo de deslocamento entre o Sol Nascente e o Eixo Monumental, beneficiando milhares de passageiros diariamente”, pontuou.

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