Pais denunciam pedófilos que se infiltram em jogos on-line para aliciar crianças do DF

Pelo menos 10 casos envolvendo meninos e meninas entre 8 e 14 anos são apurados pela Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos

atualizado 06/12/2020 15:08

jogo onlineArte/Metrópoles

Desenvolvidos para divertir e até educar, os jogos on-line voltados para crianças e pré-adolescentes se tornaram ferramentas de assédio e aliciamento no Distrito Federal. Manuseados por pedófilos, os games são usados como ponte para chegar até as vítimas, que utilizam diferentes plataformas de conexão.

Pelo menos 10 meninos e meninas, com idades entre 8 e 14 anos, foram alvo dos criminosos nas últimas três semanas na capital do país. Após denúncias dos pais, os casos passaram a ser apurados, de forma sigilosa, pela Delegacia de Repressão a Crimes Cibernéticos (DRCC), da Polícia Civil.

Os investigadores voltaram as atenções para os jogos on-line após a multiplicação de ocorrências envolvendo o mesmo modus operandi. Em quase todos os casos, o padrão de ataque do pedófilo é o mesmo: ele se familiariza com o jogo, cria um perfil falso e se passa por menino ou menina, sempre com idade entre 8 e 13 anos.

Em seguida, o criminoso procura se destacar no game, participando de grupos ou das chamadas comunidades, que costumam existir nas plataformas.

Os pedófilos ainda exploram games que possuem recurso de conversas via chat, áudio e vídeo. Após ganhar a confiança das vítimas, o criminoso tenta estreitar o contato pedindo endereços de e-mail, redes sociais, telefones e WhatsApp. O objetivo é travar conversa com viés sexual, fazendo com que as crianças enviem fotos e vídeos nuas.

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Combate direto

De acordo com o delegado-chefe da DRCC, Giancarlos Zuliani, os casos envolvendo crianças alvos de assédio ocorridos em plataformas de jogos on-line serão apurados. “Registramos um crescimento no número de ocorrências envolvendo essas situações. Vamos atuar para tentar não só identificar autores, como orientar os pais para evitar esse tipo de perigo”, explicou.

Zuliani destacou que, anteriormente, os pedófilos usavam figuras com temas infantis, que atraíam as vítimas, por meio de perfis em redes sociais, como Instagram e Facebook. “Muitas vezes a própria plataforma agia e removia esses perfis quando conversas suspeitas eram identificadas. Nenhuma rede social tem interesse em hospedar esse tipo de perfil. Com isso, esses suspeitos migraram para os jogos on-line, onde podem se manter anônimos com mais facilidade”, disse.

Segundo o delegado, compartilhamento, produção e armazenamento desse tipo de conteúdo também são crimes previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O abusador que induzir a criança ou o adolescente a fazer algum ato sexual pela internet, em caso de condenação, pode pegar de 4 a 8 anos de prisão.

Os casos mais comuns são de pedófilos que pedem esse tipo de conteúdo, foto ou vídeo, para as vítimas, por meio de perfis fakes em redes sociais.

Interpol

A maioria dos jogos populares mais acessados pelas crianças brasileiras tem servidores hospedados fora do Brasil. Mesmo assim, com monitoramento rigoroso, os desenvolvedores conseguem identificar conversas suspeitas.

Recentemente, uma plataforma baseada na Noruega rastreou uma tentativa de aliciamento ocorrida com uma criança no Distrito Federal. A Polícia Internacional (Interpol) foi acionada pelos noruegueses que, logo depois, entraram em contato com a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA).

A especializada trabalha em parceria com a DRCC quando chega o momento de entrevistar as crianças. As policiais da unidade utilizam ambiente e dinâmica diferenciados no momento de ouvir os pequenos que foram aliciados. Com a Lei nº 13.431, de 2017, conhecida como Lei da Escuta Protegida, foram estabelecidas garantias a crianças e adolescentes vítimas ou testemunhas de crimes.

Segundo a delegada-chefe Ana Cristina Santiago, o protocolo foi desenvolvido a partir de normativos existentes em âmbitos nacional e internacional e com base na prática diária da delegacia nessa temática, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB).

“Oportunizar o direito de fala de uma criança ou adolescente a partir da colheita de sua oitiva de forma técnica pode garantir a proteção dela e auxiliar o curso da investigação, como esses casos envolvendo pedofilia na internet”, analisou.

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