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A vida da única coronel da Polícia Militar do Distrito Federal na ativa, Cynthiane Maria Santos, 45 anos, sempre foi cheia de desafios, superação, quebra de paradigmas e provas de coragem. Quando foi aprovada no concurso da corporação, não sabia o que esperar da função. A persistência ao encarar as dificuldades, no entanto, a tornou referência e exemplo de coragem.

Igo Estrela/Especial para o Metrópoles

Atualmente, ela é responsável pela segurança do governador Rodrigo Rollemberg (PSB). É a primeira mulher a assumir o cargo na Subchefia de Operações de Segurança e a única a integrar o quadro de chefes na Casa Militar do Distrito Federal. Com a chegada do período eleitoral e as mudanças na agenda do governador Rodrigo Rollemberg, Cynthiane prepara a equipe para um momento singular em sua carreira.

“É uma situação delicada e nunca atuei nessa função em um período eleitoral. Temos as limitações legais. Porém, encaro como novo desafio. A partir de agosto, estaremos prontos para essa fase”, garante Cynthiane Santos. Ela já começou a fazer treinamentos diferenciados e estratégicos para enfrentar a missão “de forma natural e dinâmica”.

Entre 2007 e 2010, Cynthiane trabalhou na coordenação da segurança de outra autoridade: o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Ela conta que a experiência no Palácio do Planalto foi enriquecedora. Com perfil popular, Lula era imprevisível.

A coronel recorda-se que um dia o petista seguia para o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) e viu uma manifestação. Imediatamente, pediu ao motorista que parasse o carro e foi falar com as pessoas. “Elas ficaram tão surpresas que não souberam explicar o motivo do protesto”, diz.

Ela garante que adequa o trabalho de acordo com o perfil da autoridade. Assim como Lula, Rollemberg gosta do contato com a população. “O objetivo, então, é fazer com que seja o governador do Distrito Federal e vá até as pessoas de forma natural, como tem acontecido. Organizar para que tudo ocorra da melhor forma possível”, destaca.

Com batom nos lábios, pele impecável e excelente forma física, a militar se divide entre o vaivém no Palácio do Buriti, sede do governo local, a Residência Oficial de Águas Claras e os cuidados com o filho, um jovem de 21 anos. Mesmo com a agenda corrida, consegue tempo para fazer curso de francês.

Na sala da policial, ela reserva um espaço para os presentes de amigos e homenagens da corporação. Comunicativa e com sorriso no rosto, Cynthiane mostra, com orgulho, as caveiras coloridas que representam o Batalhão de Operações Especiais (Bope), réplicas suas com a farda da Patamo e até mesmo uma bonequinha que a imita quando está à paisana. Nas horas vagas, a oficial vive uma rotina discreta e saudável.

Sobre possíveis preconceitos sofridos em um local predominantemente masculino, a coronel conta que esse é um problema superado. Hoje conquistou o respeito dos colegas de trabalho e dos superiores.

A força do oficial não está no braço, mas na cabeça. Não preciso ter força no meu braço para comandar ninguém, desenvolver uma operação. Se precisar de alguém com força física, vou ter do meu lado. Se precisar da minha força física, vou usar também. Me preparo para isso"
Cynthiane Santos

 

 

Começo difícil
Cynthiane nunca sonhou em ser policial. Cursava o terceiro ano da faculdade de processamento de dados quando a PMDF abriu o concurso para oficial. O pai é militar do Exército e incentivou as filhas a fazerem o certame. Ela foi a única do grupo de amigas a ser aprovada. Entrou na academia de polícia com 19 anos, em 1991. De 68 alunos, apenas quatro eram do sexo feminino.

Em 1998, as mulheres tiveram que parar o Congresso Nacional para unificar os quadros da Polícia Militar. “Fazíamos o mesmo trabalho, tínhamos a mesma formação, desempenhamos a mesma função? Por que ficarmos em grupos diferentes?”, questionou a coronel. A Lei nº 9.713 permitiu que elas ocupassem as mesmas funções dos homens e acabou com as diferenças que impediam a ascensão feminina.

Na carreira, Cynthiane sempre buscou qualificação. Fez cursos na área de ensino e treinamento na Cruz Vermelha internacional. Em 1999, entrou para o Bope, onde passou por um dos treinamentos mais difíceis da corporação, raramente encarado por mulheres. “Quando fiz a inscrição, os colegas me falaram que era melhor desistir, que eu não ia aguentar, não ia passar nem no TAF [teste de aptidão física]”, recorda-se.

Ela era a única mulher da turma. Raspou a cabeça com máquina um, igual aos colegas, e passou quase cinco meses em treinamento intenso, o qual testava resistência física, o psicológico e a técnica. “Meu filho, que na época tinha 3 anos, me chamava de Pocahontas, devido ao meu cabelo. Gostava de deixar grande. Cortei em uma sexta-feira e, na segunda, já me apresentei para fazer o curso. Estava determinada e só desistiria se algo muito grave me deixasse impossibilitada”, conta.

Ela diz que, durante o treinamento, pensou todos os dias em desistir. Abandonou a vaidade e a alta intensidade dos exercícios fez com que o seu corpo se transformasse de forma radical. “Ganhei músculos que nem sabia que existiam”, lembra. Dos 42 militares, 20 pediram para sair.

Depois de fazer o curso, senti que as coisas começaram a mudar. Os homens não precisavam ser caveira para comandar ninguém. Acham que são melhores. Passaram a me olhar como igual só depois que conquistei a minha caveira. Hoje, o Bope é minha casa"
Coronel da PMDF Cynthiane Maria Santos

Além disso, a policial foi a primeira oficial feminina da PMDF a viajar para o Timor Leste em uma Missão de Paz da Organização das Nações Unidas (ONU).

Empoderamento
A policial do Distrito Federal foi a primeira mulher no Brasil a comandar um batalhão de choque. Na época, ganhou destaque na imprensa local e nacional. Ela não imaginava a repercussão, pois achava que era algo natural na carreira.

“Uma vez, trabalhei em um jogo de futebol. Entrei no banheiro feminino e uma mulher me reconheceu. Sabe aquela coisa das mulheres se verem em você? Eu não tinha noção do que o meu empoderamento representava para outras. Foi emocionante”, conta.

À frente do Choque, Cynthiane passou por mais uma prova de fogo. Atuou na Copa das Confederações de 2013, na Copa do Mundo de 2014 e nas manifestações de junho de 2015. A tropa era empregada quase todos os dias. Em todas as ações, ela estava ao lado dos militares.

“Eu dizia que só tinha um filho, mas que, a partir daquele momento, eu teria 400. Falava: se vocês estiverem certos, vou até o inferno defendendo. Mas se estiverem errados, tenho de ser a primeira a saber”, ressalta.