No DF, estudantes usam clima da Copa para praticar novos idiomas
Festival no CIL de Ceilândia destacou países participantes do Mundial que falam inglês, espanhol, francês e japonês

Além de mexer com as emoções dos torcedores e apresentar o futebol de vários países, a Copa do Mundo também desperta interesse por culturas distintas. No Centro Interescolar de Línguas de Ceilândia (CILC) estudantes e professores mergulharam na atmosfera do mundial e transformaram as salas de aula em verdadeiras embaixadas culturais de 18 países que disputam o torneio, durante a tradicional Festa Internacional das Nações.
Entre turmas de inglês, espanhol, francês e japonês, a escola inteira ficou temática. O grande diferencial foi que todas as apresentações e interações com o público foram feitas na língua que os alunos aprendem no dia a dia.
A proposta nasceu do planejamento da diretora Simone Lima Chagas com a coordenação pedagógica, vendo o futebol como o gancho perfeito para o aprendizado.
“É um tema que mexe com as emoções de todo mundo. A gente reuniu essa nossa linha pedagógica de aprender sobre as diferenças, com o que cada país traz junto com a Copa, que traz muita curiosidade. Então, a gente sentiu que o tema da Copa fez com que eles [os alunos] ficassem mesmo mais animados, mais curiosos a aprender, não só sobre o idioma, mas como cultura também e deu muito certo“, explicou a diretora Simone.
O festival é um projeto antigo e marcante no CILC. De acordo com a diretora, que já foi aluna da instituição, a festa chegou a ficar pausada devido a outros eventos do calendário, mas retornou com força total nos últimos dois anos devido ao seu peso para a comunidade local.
Em 2024, o foco foram os países francófonos (onde o francês é língua oficial); em 2025, os latinos (nações que compõem a América Latina); e, agora em 2026, a Copa do Mundo consolidou o sucesso do formato.
Salas temáticas
No departamento de espanhol, três países foram selecionados para as turmas, sendo eles: México, Colômbia e Equador. A sala do professor Luiz Carlos Fernandes ficou responsável pelo México, um dos países-sede da Copa. O engajamento foi tão expressivo que os estudantes criaram uma praia cenográfica dentro da sala, inspirada em Cancún.
“A gente trabalha uma língua e é impossível separar a gramática de uma cultura. A língua se torna viva através da cultura. Quando nós pegamos o México, os alunos ficaram muito empolgados, porque além de ser um país-sede, tem uma cultura muito forte dentro do espanhol. Eles ficaram muito empolgados com a questão da comida, tem a parte do Dia dos Mortos também, que eles gostam muito de trabalhar”, relatou o professor Luiz Carlos, que considerou esta a melhor festa de sua trajetória no CILC.
As estudantes Eloah Trindade e Lorena Lima estrearam na apresentação pública do idioma e destacaram o impacto da experiência.
“Acho que a nossa sala foi uma das mais visitadas por conta da decoração e da comida. Nosso professor é supercompetitivo e empenhado, o que nos deixou mais animados”, contou Eloah, que apresentou o setor da praia e a seção dedicada à pintora Frida Kahlo.
Ambas as alunas revelaram que não conheciam as histórias mitológicas mexicanas sobre os deuses do Sol e da Lua antes do projeto.
“Foi a minha primeira experiência apresentando. É muito bom ver as pessoas interessadas e perceber que é você mesmo que está falando uma nova língua, que não é a que você nasceu falando já”, completou Lorena.
O docente detalhou o entusiasmo das turmas com os preparativos da festa. “Teve aluno que veio fora do dia que era para vir para aula mesmo. Fora da sala deles, para montar a sala que eles queriam ver. Os ingressos esgotaram. Então, teve aluno que ficou assim: ‘Por favor, grava o vídeo, manda para mim para eu ver a sala completamente feita’. Então, a gente conseguiu, foi um projeto muito bacana”, concluiu Luiz.
As três salas de francês do CILC assumiram a responsabilidade de apresentar Senegal, França e Bélgica. O objetivo principal do corpo docente foi descentralizar o idioma e mostrar sua presença em múltiplos continentes, como o africano.
A professora Daniele Bernardes, inspirada por um estágio de educação que realizou na Bélgica, uniu-se ao professor Guilherme para coordenar a sala do país europeu. Eles exploraram desde a complexidade política do país, considerado o “coração da Europa”, até ícones da cultura pop e da gastronomia, como as histórias em quadrinhos do Tintin e dos Smurfs, os músicos Stromae e Angèle, além dos famosos chocolates e waffles.
A estudante Sophia Simões ajudou na pesquisa sobre a Bélgica e destacou como a atividade expandiu seus conhecimentos práticos: “A gente descobriu que o waffle é originário da Bélgica e tem duas versões: a de Bruxelas e a de Liège, que mudam na espessura e no doce da massa. Na atividade, a gente acaba pegando um vocabulário novo, novas palavras, e assim vai facilitando e crescendo a oratória.”
A professora Daniele reforçou que esse dinamismo reflete a metodologia habitual da escola: “A gente já faz um trabalho de interculturalidade dentro de sala de aula. O objetivo é trazer para o universo do nosso aluno aqui da Ceilândia como é que é o contexto desses outros países.”
“A gente procura sempre trazer assuntos atuais para os nossos estudantes, para isso fazer sentido. Não é só aprender gramática, ou só decorar uma ou duas frases. O estudo tem que fazer sentido para nós“, concluiu Daniele.
Com apenas uma sala para o japonês, o Japão foi a escolha ideal para as turmas dos períodos vespertino e noturno. A decoração do espaço e as estações de apresentações envolviam os esportes, a famosa flor de cerejeira e os aspectos gerais da cultura, finalizando com a escrita do nome dos visitantes em caracteres japoneses, feita pelos próprios alunos.
Por possuir um volume muito maior de turmas e professores, o departamento de inglês realizou um sorteio em trios para dividir os países falantes da língua, além de acomodar outras seleções da Copa. A professora Jennifer Gomes dividiu a liderança da sala da Inglaterra com os professores Elvira e José Carlos.
O maior desafio do trio de docentes foi integrar os estudantes do período noturno. A recepção, contudo, surpreendeu: “Pensamos que os adultos do noturno não iam querer cortar papel e colar estrelinha, mas um aluno logo me disse: ‘Teacher, mas eu trouxe até minha tesoura!’. Eles estavam muito empolgados, principalmente os formandos, que viram como uma das últimas oportunidades de fazer algo marcante”, relembrou Jennifer.
A sala foi dividida por níveis de proficiência para que todos pudessem ser protagonistas:
- Iniciantes: Apresentaram sobre os monumentos de Londres e as cores da bandeira.
- Intermediários e Avançados: Abordaram a Família Real, o futebol (Premier League e Champions League) e a música britânica, montando uma linha do tempo que uniu desde clássicos como The Beatles e Queen até nomes contemporâneos como Adele e Ed Sheeran.
Também no corredor da língua inglesa, o estudante João Gabriel Gama participou da organização da sala dedicada à África do Sul. Mesmo sem apresentar diretamente ao público, ele destacou o sentimento de inclusão.
“Nossa professora também foi bem competitiva e enfeitamos muito a sala. O que mais me surpreendeu foi a culinária sul-africana, que achei muito parecida com a do Brasil, e a fauna e a flora deles, que são lindas. Eu não tinha dimensão da variedade de animais e de vegetação antes da pesquisa”, relatou João Gabriel.
Os países que ficaram no corredor das turmas de inglês foram:
- África do Sul
- Inglaterra
- Nova Zelândia
- Holanda
- Coreia do Sul
- Escócia
- Austrália
- Brasil
- Canadá
- Estados Unidos
- Gana
Ao fim do evento, o saldo do CILC foi de imersão cultural e superação pedagógica. O festival ofereceu aos estudantes a chance de testar seus conhecimentos em situações reais de comunicação, saindo de trás das carteiras para guiar visitantes por novos universos linguísticos.
Lembrancinha do dia
Uma das maiores novidades desta edição foi a substituição do tradicional passaporte por um mini álbum de figurinhas do CILC. Para completar o álbum, quem visitava as salas precisava coletar as camisas de cada seleção apresentada pelos estudantes.

“Pensamos no mini álbum tem essa pegada agora do álbum da Copa, que os meninos ficam aí trocando figurinhas, mas a gente pensou numa coisa menor e que eles reconhecessem o país pela camisa da seleção. E aí deu muito certo, assim, todo mundo querendo, adulto, criança, os adolescentes, todo mundo querendo esse álbum”, celebrou Simone.

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