No DF, 70% das mulheres com câncer de mama começam tratamento após 60 dias
Período de até 60 dias entre diagnóstico e início do tratamento oncológico é estabelecido por lei prevê que o atendimento ocorra nesse prazo
27/10/2026 03:15

Durante o Outubro Rosa, mês dedicado à conscientização sobre o câncer de mama e à importância do diagnóstico precoce, os dados revelam um desafio que vai além da identificação da doença: garantir que as pacientes consigam iniciar o tratamento em tempo oportuno. No Distrito Federal, mais de 70% dos registros de câncer de mama analisados em 2025 tiveram o tratamento iniciado mais de 60 dias após o diagnóstico.
Em levantamento realizado no Painel-Oncologia, foram identificados 491 registros de neoplasia maligna da mama associados ao Distrito Federal em 2025. Desse total, 353 (71,9%) tiveram o tratamento iniciado após 60 dias, enquanto 138 (28,1%) começaram dentro desse prazo.
Para chegar aos números, foram aplicados os filtros de Unidade da Federação (UF) de diagnóstico e de tratamento, considerando os registros relacionados à rede de atendimento do DF. Disponibilizado pelo Ministério da Saúde, o Painel-Oncologia reúne informações sobre diagnóstico e início do tratamento de pacientes atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O período de até 60 dias entre a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento oncológico é estabelecido pela Lei nº 12.732/2012, conhecida como Lei dos 60 dias. A legislação prevê que o atendimento ocorra nesse prazo, ou antes, conforme a necessidade terapêutica registrada no prontuário da paciente.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFO percentual, porém, não deve ser interpretado isoladamente como descumprimento da legislação. A ferramenta reúne dados de diferentes sistemas de informação do SUS e não representa a totalidade dos casos de câncer.
Além disso, os dados agregados não permitem verificar individualmente as datas registradas nos prontuários nem as particularidades clínicas de cada paciente. A confirmação de eventual descumprimento exige uma análise mais detalhada dos casos.
Fila de espera
A Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF) informou que, no início de outubro, 260 pacientes com câncer de mama aguardavam consulta para iniciar o tratamento na rede pública. Desse total, 95 esperavam atendimento em mastologia e 171, em oncologia clínica, segundo a pasta.
Entre as pacientes na fila, 103 (39,6%) aguardavam havia até 30 dias; 83 (31,9%), entre 31 e 60 dias; e 74 (28,5%), há mais de 60 dias.
A secretaria também apontou que, em 2025, 86 pacientes iniciaram o tratamento em até 60 dias (27,1%), enquanto 231 começaram após esse prazo (72,9%). Em 2026, até julho, 57 pacientes (31,5%) iniciaram o tratamento dentro de 60 dias e 124 (68,5%) ultrapassaram o período.
Segundo a SES-DF, o tempo para o início do tratamento varia conforme a complexidade de cada caso e a conduta indicada. A pasta explicou que a linha de cuidado pode envolver consultas, exames complementares, biópsia, diagnóstico e procedimentos cirúrgicos, quando necessários.
Além das pacientes que aguardavam a primeira consulta para iniciar o tratamento, outras 291 já atendidas esperavam por cirurgia oncológica de mama, enquanto 49 aguardavam radioterapia. De acordo com a secretaria, não há fila para quimioterapia, procedimento autorizado diretamente pelo serviço habilitado após a consulta com a equipe de oncologia clínica.
Em relação aos exames, a pasta informou que, em levantamento realizado em 6 de outubro, havia 12.596 exames de mamografia registrados na rede SUS-DF, sendo 12.302 de rastreamento e 257 diagnósticos. Segundo a secretaria, o tempo médio de espera depende de cada caso.
Por fim, a SES-DF também esclareceu que incentiva ao longo do ano uma série de ações em suas unidades de saúde voltadas à conscientização, prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama.
“As iniciativas incluem atividades educativas, palestras, orientações, oferta de exames e mutirão de cirurgias, reafirmando o compromisso da rede pública com a promoção da saúde da mulher”, declarou.
“Angústia”
A espera pelo tratamento de câncer de mama tem sido motivo de angústia para Ilma Peres da Silva, de 55 anos, diarista. Ela recebeu o diagnóstico em julho, fez a biópsia na rede particular e acreditou que conseguiria começar o tratamento rapidamente. Em agosto, passou pela primeira consulta na mastologia, no Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF), mas, desde então, aguarda o encaminhamento para a oncologia.
“É muito difícil. Sinto muita angústia de não ter iniciado o tratamento ainda. Quando o período de espera chegou a dois meses, procurei a Defensoria Pública em busca de ajuda para conseguir avançar no atendimento. Espero que agora seja mais rápido”, relatou.
A paciente contou que percebeu um nódulo que estava crescendo e procurou atendimento para investigar a alteração. Ela também alertou para a importância de manter os exames em dia. Segundo Ilma, ficou um ano sem fazer mamografia e, depois de perceber o nódulo, precisou correr atrás da investigação e do tratamento.
Enquanto aguarda, Ilma conseguiu realizar dois exames pela rede pública, mas ainda enfrenta espera por outros procedimentos, entre eles uma cintilografia.
“Mãos atadas”
A espera por atendimento também aflige Maria de Fátima Gregório da Silva, 62, que enfrenta um câncer de mama. A filha dela, a monitora escolar Jennifer da Silva Lima, 40, conta que a mãe recebeu o diagnóstico em março, mas só conseguiu iniciar a quimioterapia em junho, após enfrentar dificuldades para realizar exames.
Segundo Jennifer, a família precisou pagar por exames na rede particular para não prolongar ainda mais a espera. Após concluir a quimioterapia, em setembro, Maria de Fátima precisava passar por uma nova avaliação médica e realizar exames para verificar a resposta ao tratamento e dar prosseguimento ao procedimento cirúrgico.
No entanto, a família voltou a enfrentar dificuldades para conseguir atendimento no Hospital Materno Infantil de Brasília (HMIB). Jennifer conta que a mãe tinha uma consulta marcada para setembro, mas recebeu, no início daquele mês, uma mensagem informando que o médico havia deixado o hospital e que ainda não havia previsão para a retomada dos atendimentos.
“É horrível. A gente fica com as mãos atadas, querendo resolver uma coisa que não está no nosso alcance. Corre para um lado, corre para o outro e não tem solução”, desabafou.
Diante da falta de informações, Jennifer procurou diferentes canais para tentar resolver a situação, entre eles a ouvidoria, o Participa-DF e a Defensoria Pública. A família conseguiu uma nova consulta, apenas para 27 de novembro.
Até lá, Jennifer teme que a demora comprometa o planejamento da cirurgia. Ela relata que a equipe médica orientou que o procedimento fosse realizado em até três meses após o fim da quimioterapia.
“Cada dia, cada hora é preciosa. A espera é ainda mais angustiante, porque dependemos da avaliação médica para saber se o tumor diminuiu e quais serão os próximos passos do tratamento”, afirmou.
“Dor na alma”
A aposentada Sofia Moreira, 75 anos, descobriu o câncer de mama em 2012 e passou por cirurgia para retirar dois nódulos, além de radioterapia. Desde então, mantém o acompanhamento médico, mas relata dificuldades para conseguir exames pela rede pública e diz que frequentemente precisa recorrer à Defensoria Pública para dar continuidade ao atendimento.
Após tratar o câncer de mama, Sofia descobriu que a doença havia chegado ao pulmão. Mesmo em remissão, a aposentada ainda enfrenta obstáculos para realizar exames de acompanhamento. “Todo exame eu preciso recorrer à Defensoria Pública para conseguir”, relatou. Segundo ela, até uma mamografia solicitada em 2022 exigiu ajuda do órgão.
Apesar das dificuldades, Sofia defende o Sistema Único de Saúde (SUS) e faz um apelo a outras pessoas que enfrentam a doença. “Não perca a fé”, aconselhou. Para ela, o câncer também deixa marcas emocionais. “Mesmo que você não tenha a dor da ferida, da doença, você sente dor na alma”, afirmou.






