No DF, 18 profissionais de saúde são infectados por Covid-19 todos os dias

Dados da Secretaria de Saúde revelam a evolução do contágio de trabalhadores do setor pelo novo coronavírus, de 20 de abril até essa terça

atualizado 10/06/2020 10:15

Paciente internado com máscara contra coronavírusHugo Barreto/Metrópoles

No Distrito Federal, o número de profissionais de saúde infectados pelo novo coronavírus aumentou 1.005,5%, entre 20 de abril e 9 de junho. Na primeira data, a Secretaria de Saúde incluiu em seu balanço diário os dados sobre o contágio entre os trabalhadores que atuam na linha de frente de combate à Covid-19: 90 casos. Na noite dessa terça-feira (09/06), foi divulgado o último levantamento da pasta sobre o avanço da doença no DF: dos 18.090 infectados, 995 atuam em unidades hospitalares.

Com diferença de 24 horas, dois servidores – um lotado na Asa Sul e outro em Taguatinga – morreram vítimas da Covid-19, somando-se a três óbitos até o momento registrados de profissionais da área.

A análise dos boletins da Secretaria de Saúde aponta que, ao longo dos últimos 50 dias, diariamente 18 médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, auxiliares e outros profissionais das redes pública e particular do DF testaram positivo para a Covid-19.

Abastecido pelos conselhos Federal e Regional de Enfermagem (Cofen e Coren-DF, respectivamente), o Observatório da Enfermagem aponta que os casos entre a categoria chegaram a 217 nessa terça-feira (09/06). Em 25 de maio, eram 71.

Na avaliação da presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos de Saúde do DF (SindSaúde-DF), Marli Rodrigues, a morte da filiada à entidade Vilza Santos Alencar, nessa segunda-feira (08/06), foi um duro golpe. “Dói tanto quanto perder um paciente”, resumiu Marli. O falecimento levou o governador Ibaneis Rocha (MDB) a decretar três dias de luto oficial no DF.

Para a sindicalista, os servidores sofrem com o sucateamento sistemático do Sistema Único de Saúde (SUS) e a falta de planejamento do governo federal para o enfrentamento da pandemia.

Saúde mental

Ao Executivo distrital, a sindicalista faz um alerta. “O GDF precisa estar atendo à saúde mental dos servidores. O problema era grave antes da pandemia. Está gravíssimo durante ela. E será pior pós-pandemia. Ninguém sai desse tipo de situação sem um trauma”, adverte.

Na avaliação do diretor do Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem do DF (Sindate-DF), Newton Batista, os profissionais das redes pública e particular estão assustados, principalmente pela falta de equipamentos de proteção individual (EPIs).

“Tem unidade onde o servidor só tem duas máscaras N95. Faltam aventais adequados. Eu vi em um hospital público um servidor dando banho em um paciente com Covid-19 com avental descartável. Falta testagem também”, afirmou.

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Corredores

Para Batista, o vírus não está mais contido no pronto-socorro e nas unidades de tratamento intensivo (UTIs) públicos e privados. “A doença saiu do controle. Está nos corredores dos hospitais”, assinalou.

Outro problema, na avaliação do representante do Sindate-DF, é a falta de salas separadas para a paramentação e desparamentação dos profissionais de saúde.

No diagnóstico do presidente do Sindicato dos Médicos do Distrito Federal (SindMédico), Gutemberg Fialho, a falta de engajamento da população no isolamento social tem sido o fator preponderante para o avanço acelerado da pandemia.

Ameaça silenciosa

Mais de 75% dos leitos de UTI da rede privada estão ocupados no DF, inclusive por muitos pacientes vindos de outros estados. Se a rede privada ficar sem vagas, os pacientes daqui vão precisar dos leitos públicos e podemos ver a sobrecarga da rede”, observa. “Isso é muito preocupante. É preciso reservar leitos privados do DF para pacientes do DF”, recomentou.

O SindMédico solicitou à Secretaria de Saúde do DF o detalhamento do total de médicos infectados. “Não recebemos o dado até hoje. Falta transparência. É grave. Não temos o real dimensionamento da pandemia”, disparou.

O avanço da doença nas unidades de saúde também ameaça outras categorias que nelas atuam, como vigilantes e auxiliares de limpeza. Segundo o diretor de comunicação do Sindicato dos Vigilantes do DF, Gilmar Rodrigues, a categoria registrou seis mortes até essa terça-feira. Dois profissionais trabalhavam em hospitais.

“Temos 51 infectados. A maior parte na área hospitalar”, completou. Para Rodrigues a grande dificuldade é a falta de testes. “É preocupante. A cada dia que passa cresce o número de infectados. E nos lugares onde já testaram é preciso testar de novo”, explicou.

Outro lado

Segundo o Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do DF (Iges-DF), não há falta de EPIs. A instituição, que administra os hospitais de Santa Maria e de Base, além de UPAs, realizou mais de 8.398 capacitações de profissionais para o enfrentamento da Covid-19.

Foram montadas salas para paramentação e desparamentação e os colaboradores têm tido assistência emocional e psicológica. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Samambaia, uma cabine de desinfecção foi instalada. Além disso, testes são feitos regularmente.

De acordo com o instituto, 304 colaboradores testaram positivo para Covid-19. Deste total, 281 estão curados e voltaram ao trabalho. Não foram registrados óbitos.

A Secretaria de Saúde disse que, até o último balanço, 16.641 servidores e terceirizados tinham sido testados, com 485 resultados positivos. E 5.886 profissionais de saúde da atenção primária fizeram o teste, com 51 positivos. “Profissionais com resultado positivo para Covid-19 são afastados das funções e cumprem quarentena de 14 dias. Todos do núcleo familiar são orientados a permanecer em isolamento e se apresentarem sintomas devem procurar a unidade de saúde mais próxima para avaliação”, afirmou a pasta, em nota.

A secretaria confirma que os profissionais passam por treinamento e quem presta “assistência diretamente aos pacientes com Covid-19 seguem os fluxos de atendimento preconizados no Plano de Contingência da SES”. Além disso, garante que o sistema está abastecido com EPIs e que “somente uma servidora da Secretaria de Saúde teve óbito suspeito por Covid-19”.

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