DF: dos infectados pela Covid-19 na Saúde, 10% são da limpeza e vigilância

Dados da Secretaria de Saúde e sindicatos mostram o avanço do coronavírus entre os terceirizados que atuam dentro das unidades hospitalares

mulher na janelaRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 04/06/2020 14:25

Em meio à pandemia do novo coronavírus, não são apenas médicos, enfermeiros, farmacêuticos e outros profissionais da saúde que desenvolvem um trabalho essencial para manter as unidades hospitalares funcionando. A força-tarefa para conter a proliferação da doença no Distrito Federal conta com uma legião de terceirizados. São encarregados da limpeza e vigilância que estão diariamente em enfermarias e unidades de terapia intensiva (UTIs), lado a lado com pacientes que lutam para sobreviver à Covid-19.

Segundo dados da Secretaria de Saúde, havia, até a última sexta-feira (29/05), 476 casos confirmados de Covid-19 em hospitais públicos coordenados pela pasta no DF. Os terceirizados somavam 49 registros (10,29% do total). Não foram divulgadas novas atualizações desde então quanto ao total de profissionais de limpeza e vigilância que testaram positivo para a doença.

Rotina pesada e fé

Uma das funcionárias que contraiu o coronavírus é a auxiliar de serviços gerais do Hospital Regional de Taguatinga (HRT) Alcileda Vieira, 58 anos. Trabalhando no ambulatório durante a noite, ela diz que toma todos os cuidados possíveis tanto dentro quanto fora da unidade, mas acabou pegando o vírus.

Para ela, o lado bom foi ter sido diagnosticada rapidamente, sem sentir sintoma algum da Covid-19. Depois de cumprir quarentena em casa, ela voltou ao batente no último sábado (29/05), saudável. “Eu fico um pouco preocupada ainda, com medo de acontecer alguma outra coisa, mas estou bem”, relata.

Alcileda volta a uma rotina pesada. Acostumada a lavar todo o chão da parte que é responsável, ela diz que o serviço dobrou com a pandemia.

“Agora precisamos de ter todo um cuidado especial com mesas e cadeiras também. Deixar tudo pronto para o pessoal que entra de manhã, pois eles precisam cuidar de várias coisas com tanta gente que chega”, explica.

Confira o depoimento de Alcileda: 

Linha de frente

Trabalhando ainda mais de perto na luta contra o coronavírus, está a também auxiliar de serviços gerais Elisabete Mota, 53. Ela foi designada para fazer a limpeza na área da UTI do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), unidade referência ao tratamento da doença no DF. O trabalho de Elisabete é essencial para manter o local sem um único caso de contaminação pela Covid-19 até o momento.

A rotina é pesada. Trabalhando de 19h até 7h do dia seguinte, a auxiliar precisa tomar uma série de cuidados antes de entrar e ao sair do local. “Eu tenho dois uniformes. Quando chego no hospital, visto um deles para bater o ponto e então eu me dirijo à UTI. Antes de eu entrar, troco de roupa, visto outro uniforme, que é da área privada do isolamento. Depois de entrar, eu só saio no dia seguinte”, explica.

Apesar de todo o trabalho, Elisabete diz não ter medo de suas funções. Religiosa, ela afirma que essa foi uma missão enviada por Deus. “Faço o meu trabalho com muito amor e dedicação. Chego perto dos pacientes que estão entubados e falo para eles confiarem, acreditarem e se entregarem a Deus. Fico muito feliz em ver os técnicos se entregando cada minuto pelos pacientes”, afirma.

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Outro trabalhador do Hran, um vigilante que preferiu não se identificar, relata preocupação. Uma vez que, na maioria das vezes, o primeiro contato de um paciente é com os seguranças, a principal apreensão é manter uma distância segura. “De uma certa forma a gente fica muito próximo. Fica com medo de ser contaminado. A pessoa chega lá e fala conosco antes da triagem”, detalha.

No Hospital Região Leste (HRL), no Paranoá, outro vigilante que pediu anonimato diz que abraçar esposa e filhos quando chega em casa é só depois do banho. “Deixo a roupa toda em um saco, vou só de cueca direto para o banho, que é demorado”, descreve.

Sindicatos pedem atenção das autoridades

Para o diretor de comunicação do Sindicato dos Empregados de Empresas de Segurança e Vigilância do Distrito Federal (Sindesv-DF), Gilmar Rodrigues, apenas nas últimas semanas as empresas contratantes e a Secretaria de Saúde começaram a prestar atenção também na categoria.

“Desde março estamos em uma luta árdua para conseguir a realização de teste [de diagnóstico da Covid-19) e mais Equipamentos de Proteção Individual (EPI) para todos. Só agora que começaram a nos ouvir”, afirma.

Na semana passada, eram 19 os vigilantes de unidades de saúde do DF confirmados com a doença. Nessa terça, o total subiu para 26. O sindicato também computou três mortes de profissionais com a doença.

Já Maria Isabel Caetano, presidente do Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio, Conservação, Trabalho Temporário, Prestação e Serviços Terceirizáveis no Distrito Federal (Sindiserviços-DF), lembra a importância dos trabalhadores do setor na limpeza nos hospitais.

“Teria como uma UTI funcionar sem os funcionários de limpeza? É um trabalho tão essencial quanto o de um médico e, mesmo assim, muitas vezes somos tratados como ninguém”, reclama.

Com relação aos trabalhadores, o Ministério Público do Trabalho (MPT) abriu um inquérito civil para apurar se eles estão sendo expostos à Covid-19 sem o amparo do governo. A ação é resposta para duas denúncias protocoladas na Procuradoria Regional do Trabalho da 10ª Região, por deficiência na paramentação dos profissionais com equipamentos de proteção individual, entre outras queixas.

Outro lado

Procurada, a Secretaria de Saúde informou que, durante as ações do Sanear DF nas unidades de saúde, “os auxiliares de limpeza estão recebendo treinamento para desinfecção das áreas”.

Com relação à situação dos vigilantes, a pasta disse que “as empresas prestadoras de serviço são responsáveis pelo treinamento e distribuição dos equipamentos de proteção individual. Também no caso dos auxiliares de limpeza, as empresas com contrato vigente devem fornecer os EPIs”.

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